segunda-feira, janeiro 26, 2009

BRUXINHA* - NOVO CONTO


*Aos que foram: os oito da Candelária,
Os sete da chacina do Centro de São Paulo,
em Agosto de 2004.
Aos que foram nos outros dias,
À Bruxinha
E aos que ficam

Foi ali, meu fío. Foi naquela esqui’nali, do Centro de São Paulo, veja só, imagine! Na Praça do Correio, atropelarô a Bruxinha. Póde? Esmagarô o osso da cabeça, do peito, dos braço da coitadinha. Um ônibus assim ó: zoom! Acelerado. Um motorista apressado, veio subindo com roda, com raiva, com vontade, com tudo na calçada. Passano primeira as dianteira, depois as traseira e fez: tum! Aquele baque seco no meu peito, aquela queimação. Todo mundo parânu, as cara se horrorizanu, eu gritanu “Acode. Acode!”, mai ninguém ajudava, ninguém acudia a Bruxinha. Ela ficô foi sozinha, s’estribuchano, berrando suas última energia. Pió foi o cobradô, qui na hora botô a cara pra fora, olhô, falô: “- Pode ir, Zé. Foi nada não. Podi ir que era só uma cadela vadia”. É mole? Ele disse, eu ouvi: “- Era só uma cadela vadia.”

Não era isso não. Fazia cinco anos que ali ela vivia. Parada, pensativa, enfeitiçando a gente com as história, com as palavra. Pra maioria não cherava nem fidia, mas a gente dela gostava. Pra gente, pode iscrevê seu moço, era muito boa essa menina! Tinha seus setenta anos, bem da verdade, mas quando eu lembro daquele zóio se abrilhando na fogueira da noite escura, daquele sorriso lustrando os meus dias de chuva, eu só via era a menina. Não merecia isso não. Ser tratada como um trapo, como um bagaço fora do saco, sem consideração. Merecia?

E olhi, não foi a primeira. É como diz um meninote, que vive cantando aqui com a gente umas música com batidão forte: “O ser humano é descartável no Brasil. Feito modess usado, bombril.” Cê mi disculpe o palavreado, mas é assim mêmo. Quantos amigo que eu já não perdi nessas madrugada, com ou sem sereno? Joaquim, Pistolinha, Zélão. Dona Chica, Seu Madruga, Betão. Zé-da-pá, Maria, Manoel, Seu Augusto. De verdade, minha alma até sangra só de lembra de quem já foi. Imagina que a gente dorme e não sabe se vai acordá depois? Se vai vim algum covarde pra nus fazê barbaridade? Chegá na calada da noite pensando nas maldade? Numa paulada bem dada, num paralelepípedo jogado na cabeça só pra vê a miolada espalhada. É, tem uns que ateá fogo no lençol, nos colchão. Botá veneno e distribui as quentinha, pode acreditá, tem gente ruim nesse mundão. Já dizia o meu Jesus Cristo: “Não matarás, amarás teu próximo como a ti mesmo”. Mas ninguém escuta mais isso. Gente desajuizada do coração, qué matá só pra vê fazê careta durante o serviço. Acredita? Quando tem mais respeito, algum remorço guardado no peito, ainda chega, mete logo dois, três, tiro. É rápido, limpo, assunto resolvido. Pra gente e p´ros polícia, que esclarece tudo os crime de morador de rua assim, dizendo que foi acerto. “Era droga, era pinga, foi acerto.”

Assim qui é, meu fíi. Foi assim que foi. Os homi-da-lei chegando depois. Não inquirindo ninguém, não querendo dar nome aos bois. Fôro recolhenu o que tava restando da Bruxinha. Juntando os caco, jogando um balde d’água, um saco de pó de serra no chão. Fazendo com maior desgosto a sua profissão, com cara de pensando: é uma a menos. Doeu, meu fio, doeu. Porque ao contrário do que disse o cobradô, Bruxinha não era uma cadela não. Num tinha uma casa, num tinha posses, num tinha família, mas tinha um R.G. Crê meu fíi, acredita no que essa véia tá falando pr’ocê. Ela tinha R.G. Tinha número, data de nascimento, tinha nome de mãe. Tinha ela um nome: Dona Sebastiana. Esse era o verdadeiro nome da Bruxinha, minha amiga. Sebastiana, uma dama. Eu jamais vô misquecê.

terça-feira, janeiro 20, 2009

CONVITE - PROJETO SEMENTES


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CONVITE- MEMORIAL DA RESISTÊNCIA

Car@s amig@s e companheir@s

No próximo dia 24 de janeiro será inaugurado o Memorial da Resistência, objeto de muita luta e insistência dos ex-presos políticos de São Paulo. Não será uma simples reinauguração do mesmo espaço, mas a instalação pública de um projeto museólogo criativo e marcante do período de ditaduras em nosso país.

O velho prédio do Largo General Osório, que foi sede de estação ferroviária e do antigo DEOPS/SP, passou por uma cruel descaracterização. Foram destruídas duas celas e o Fundão (antigas celas fortes solitárias), todo o espaço recebeu pinturas modernosas, foram destruídos os infectos banheiros e rasparam as paredes onde estavam inscrições feitas por gerações de presos políticos das várias ditaduras e períodos de repressão do movimento operário e popular do Brasil.

Com um toque de ironia, o lugar maquiado recebeu o nome de Memorial da Liberdade como forma de apagar a Resistência e a determinação de milhares de combatentes, que nunca aceitaram a opressão das classes dominantes e seus instrumentos ditatoriais.

Vários ex-presos políticos e pessoas sensíveis à História lutaram pela reconstituição daquele lugar como marco de lutas contra as ditaduras e começaram por exigir a mudança de nome para Memorial da Resistência, pois ali havia Resistência e nenhuma Liberdade.

O atual governo estadual aceitou a visão dos militantes do Fórum Permanente dos ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo e fez a mudança do nome e uma significativa reforma para devolver um aspecto semelhante ao que era originalmente. Foram instalados vários equipamentos audio-visuais que permitem ao visitante saber o que foi aquele lugar e as tantas barbaridades cometidas contra nosso povo e seus mais destacados militantes.

Uma das celas foi reconstituída para mostrar as condições de vida dos presos e, para não esconder as torturas e assassinatos cometidos pelos carrascos, os equipamentos mostram depoimentos de pessoas que por lá passaram.

Desde o ano passado o Fórum dos ex-Presos Políticos realiza no auditório daquele prédio palestras e debates para jovens e todas as pessoas interessadas. São os Sábados Resistentes, que reuniu uma média de 70 pessoas por evento.

A inauguração do novo Memorial da Resistência, marca o início de várias atividades que, ao longo do ano o Fórum vai desenvolver para marcar, entre outras datas:

- Os 30 anos da Lei da Anistia;
- Os 40 anos sem Marighella;
- Os 30 anos sem Santo Dias da Silva;
- Os 40 anos da morte do Almirante Negro, João Candido;
- Os 45 anos do Golpe de 1964;
- Os 40 anos da criação da infame OBAN.

Durante o ano todo vamos continuar lutando pela Memória, Justiça e Verdade, para que nunca mais se repitam os horrores da ditadura.

Ajude a divulgar esta mensagem e vamos todos nos encontrar para continuar nossa luta pela Verdade e relembrar que somos Pela Vida, Pela Paz: Tortura, Nunca Mais!

Data: dia 24 de janeiro de 2009
Hora:
11 horas
Local: Memorial da Resistência (Estação Pinacoteca - Largo General Osório, 66)
Estacionamento no local


O novo Memorial da Resistência quer mostrar que a Humanidade foi mais forte, derrotou a opressão, a tortura e a barbárie.

Mais importante que tudo é passar para as novas gerações a certeza de que vale a pena lutar por Liberdade, Justiça e por uma Sociedade Justa e Igualitária.

Contamos com sua presença e participação!

Raphael Martinelli, Maurice Politi e Ivan Seixas
Fórum Permanente dos ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo

segunda-feira, janeiro 19, 2009

COLABORE COM A REVISTA OCAS


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http://www.blogdaocas.blogspot.com/

DE VOLTA PRO FRONT

salve, povo.

estes dias o blog ficou sem atualização pois quinta-feira eu fui pra baixada. curtir um pouco do sol, curtir um pouco de tânia (domingo fizemos cinco(!) anos de namoro) e curtir um pouco mais dos últimos momentos da casinha onde ela estava morando. explico: ela recebeu uma nova proposta de emprego, num caps em guarulhos e, como não dará para conciliar os dois e em santos tava osso, ela está voltando para sampa/guarulhos.

logo mais, coloco atualizações de algumas coisas importantes que acontecerão por estes dias, semanas.

no mais, saúde, paz, coragem e resistência.

abraço,

r.c.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

SOLIDARIEDADE AOS CICLISTAS


CICLISTAS VÃO FAZER DOIS ATOS EM PROTESTO À MORTE NO TRÂNSITO

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ou

NOITE DOS ANCESTRAIS

o que mais é possível para ser feito dentro de um Sarau? melhor ainda, o que mais é possível ser feito dentro do sarau da cooperifa? lembrando vagamente, já temos o Ajoelhaço, o Poesia no Ar, Prêmio, entre outros pequenos eventos que transformam e enriquecem quartafeiramente o cotidiano do sarau.

mas num desses lances irados de zagueiro, na qual São Pedro deu uma entrada dura em São Paulo, o mundo desabou na cidade. para se ter idéia, a caminho do Sarau, percorrendo mais de 50 (isso mesmo, cinquenta) quilômetros saindo do Cangaíba, atravessando as duas marginais - Tietê e Pinheiros - eu peguei chuva forte, de ponta a ponta. não conseguia ultrapassar os sessenta quilômetros por hora, na pista expressa. várias poças d'água fizeram o carro, por várias vezes, quase aquaplanar. e eu ali, tenso, com um olho no peixe (a pista) e outro no gato (o rio), que parecia não parar mais de crescer.

para ter idéia do que foi o estrago da entrada do Pedrão em Sampa, quando voltei para casa, as duas da madruga, estava praticamente um cenário de guerra aqui no Cambuci/Ipiranga: vários desvios, lama, árvores derrubadas; bombeiros e funcionários da CET trabalhando.

tudo isso para dar uma idéia do que foi ontem a noite de Sampa, e para falar do Sarau. porque quando eu subi a ladeira da Piraporinha, estava tudo escuro. tudo. só não estava breu por conta da lua, teimosa, que por inveja do sol insistia em iluminar a noite. cheguei ao sarau, estacionei o carro e fui.

tudo apagado. luz de velas. estávamos sem energ.... ops! sem energia não. quem estava lá estava com uma energia da porra. além da vela, dava para ver as almas brilhando, os sorrisos iluminando os espaço, abraços abrindo brilhos, brechas de luz, além dos flashs das máquinas, é claro.

e para quem achou que não ia ter sarau, ele começou assim, a luz de velas. um sarau de velas, sem microfone, sem tecnologia. como faziam nossos ancestrais africanos, indígenas: uma fogueira no centro, olhares atentos ao redor e o silêncio, em respeito a palavra. o silêncio.

ontem foi o sarau mais silencioso da qual eu já participei, em qualquer lugar. o mais. ouvia-se nitidamente o gotejar da chuva sobre a laje, o vento zunindo entre as folhas das árvores, e a palavra declamada dos poetas. só. ontem, o silêncio foi uma prece, foi canto, foi pura poesia.

ontem foi o sarau da noite de gaza. muito axé e muita luta para a família palestina. muito desejo de vivência, de resistência. muitos votos de paz, acrescidos de justiça, é claro.

com certeza, o sarau de ontem está entre os mais belos que eu já participei.

o que mais a cooperifa pode fazer?

não sei. mas Sérgião, com certeza o "sarau de velas" tem que estar dentro dos eventos oficiais da cooperifa. talvez como ontem, na abertura do ano do sarau. para mim, coincidências não existem. e o cara lá de cima já tinha deixado marcado na sua ocupada agenda mais este evento. e com certeza ele participou. senti várias vezes ele ali, declamando, dizendo: estou presente.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

NO PASARÁN

*fotos do blog Brechó do Carioca
Um juiz me diz:
Minha casa não pode ser morada
Minha terra não me tem valentia
Ela foi vendida
Para grilos de uma gaveta
Ela foi tomada
Para os homens da lei
Do mais forte.
Um coronel re-fala:
A reintegração precisa ser cumprida
A posse está marcada
A ferro, fogo e brasa.
Eles enviam homens
Escopetas, chicotes e escudos
- nada me protege -
Gritos de luta
Querem antecipar o meu luto.
Não vão conseguir.
Suspiro e clamo para o céu
Uma água clara e salgada
Banha o meu rosto
A mensagem foi dada:
Resiste. Resiste,
Esta é tua terra,
Esta é tua serra, este é o teu chão.
Resiste.
Numa mão, seguro firme a minha espada
Enquanto lembro de Jorge
Enquanto sinto o bafo quente do dragão
Assoprando a minha nuca.
Repenso um dito de minha vó:
Resiste, mia fia
Faiz tempo, sabemos
O primeiro rabudo caído
Não será o último
Prepara-te!
Outros virão.
Resiste.
Fortaleço-me.
Noutra mão, suspiros de um pequeno coração
Pede proteção sobre meu braço. Ele baqueia.
Meu filho tem uma ano e alguns meses
Meu filho tem um desafio pela frente
Meu filho tem medo
Ele não quer perder a casa
Ele não quer perder a terra
Ele não quer perder a mãe
Ele não conhece - ainda -
A história de Jorge, sua espada
A determinação de Jorge
Contra o dragão.
Aperto-o contra o meu peito
Transmito o que resta de minha calma
O que sobra de minha exígua força num sussurro
Poderosa canção de ninar
Que se inicia dizendo:
"Mi hijo, no te preocupes
Ellos no pasan
Hoy, ellos no pasarán..."

PUNHETAGEM (EXTRA) ACADÊMICA

No dia 01 de dezembro de 2008, publiquei neste blog um texto chamado "Questões sobre Educação"(você pode lê-lo novamente acessando o "Receituário - Arquivo", localizado do lado direito), na qual eu falava sobre um pequeno incidente que tivera com um universitário, fazia algumas considerações sobre o mesmo e sobre os "universitários" - talvez um tanto generalista - e publicava uma entrevista feita comigo, sobre a Educação.

Estou retomando o assunto desta postagem pois, até hoje, nenhum outro assunto sobre a qual eu falei rendeu tanto pano para a manga - e olha que já publiquei um livro em que critiquei abertamente o sistema de ensino público estadual de São Paulo! Entre comentários feitos na própria postagens e emails recebidos na minha caixa pessoal, muitas pessoas escreveram: anônimos, conhecidos, universitários que trabalharam comigo ou me conheceram, amigos. Aliás, por conta deste texto, pelo dito e pelo não dito, criei certas inimizades, me afastei de alguns valorosos amigos.

Do escrito, me arrependo de duas coisas: 1) eu não deveria ter dito "universitários", de maneira generalista, mas devia ter usado antes, o termo "alguns universitários". Talvez isto tivesse aplacado a ira de algumas pessoas que sentiram-se ofendidas e, 2) deveria ter deixado mais claro que, dos assuntos abordados na entrevista, aquelas não eram idéias exclusivamente minhas, mas idéias compartilhadas de um grupo de amigos professores de escolas públicas que há mais de um ano (excluindo o tempo de universidade) se reuniam e dialogavam sobre as questões pertinentes à educação.

Do escrito, me arrependo apenas disto. Só isto.

Não voltaria atrás em nada do que falei, não voltaria atrás na publicação das idéias. Aquilo foi feito em um momento de indignação e, indignação esta que ainda persiste. Não contra a Acadameia apenas, contra a idéia do que é e para que serve a universidade, mas abertamente contra a postura de pessoas que ocupam este espaço, com a falta de compromisso com o Público, seja na questão do uso do dinheiro, seja na questão do trato com as pessoas.

Eu não tenho nada contra a Academia. Muito do que sou hoje, seja bom, seja ruim, deve-se a minha vivência dentro dela. Foi lá que cresci como homem, como ser humano, foi lá que formei-me dentro de uma profissão; foi lá que tive um crescimento no meu aprendizado e na minha militância política e ideológica e, mais importante de tudo, foi lá que conheci maravilhosas pessoas e fiz importantes amigos.

Mas a Academia, a Universidade existe, para mim e, salvo engano, quando foi criada, para ajudar a pensar a sociedade. Para ajudar a construir uma vida social mais justa, mais equilibrada. Criamos pensadores, pagamos com o nosso suado dinheiro para que eles reflitam, teorizem e nos retornem com algo prático, aplicável e sustentável em nosso dia-a-dia. A teoria que leva a prática, que retorna a teoria, que nos reconduz a prática, num eterno ciclo.

Acontece que, infelizmente, há muito tempo, em diversos setores desta Instituição, através do papel protagonizado por seus atores - reitores, docentes, discentes - isto não acontece. A Academia literalmente se fecha dentro dos seus muros, vai a estratosfera analisando as suas teorias, enquanto nós, meros mortais ficamos apenas se fudendo e sendo subjulgados a seres incapacitados de entender a sua complexa dinâmica de funcionamento. Isto eu não aceito, não admito.

Nunca me esqueço do ano de 2003, estava no meu quarto ano do curso de história da USP, na disciplina "História Oral", quando tinhamos de desenvolver um projeto de pesquisa. Por se tratar de um projeto de história oral, não iríamos trabalhar apenas com fontes documentais, mas com pessoas, seres humanos. Iríamos dialogar com elas, nos abrigar dentro de suas vidas, conhecer as suas histórias, conviver com elas durante um tempo. Tudo isto me parecia muito interessante, muito enriquecedor enquanto projeto de vida pessoal e projeto de pesquisa mas, uma pulga me coçava atrás da orelha: qual seria o meu retorno para esta pessoa, o que eu daria, em troca de enchição de saco, perguntas indiscretas e tempo trocado? O que eu acrescentaria ao meu "objeto" de estudo?

Levei tamanhas indignações a pessoa que orientava o meu trabalho e, lembro-me bem, fiquei embasbacado, com cara de tacho caído no chão, quando a pessoa, tranquilamente respondeu as minhas inquietações: "Nada. Não há nada o que fazer. Funciona assim."

Eu não aceitei. Por não achar moralmente correto, por não ver nisso o papel da Universidade dentro da sociedade. Fiz o meu trabalho, ficou muito bom por sinal, tirei um 8,5 e, durante muito tempo, matutei para responder a minha inquietação de como eu devolveria, como eu responderia as pessoas que tanto me ajudaram para a minha formação acadêmica, em especial nesta disciplina. E encontrei. O que fiz? Trabalhei.

O trabalho foi sobre pessoas em situação de rua. O meu "objeto" de estudo foi o Sr. Augusto, um dos vendedores da revista Ocas". E como retribuição militei durante três anos como voluntário do projeto, lutando pela causa das pessoas em situação de rua, sendo um pau-pra-qualquer-obra: varri o chão, fiz divulgação em albergues, cadastro e treinamento de novos vendedores nas ruas, fotógrafo, jornalista, cozinheiro, educador na "oficina de criação", diretor de projetos e, mais ainda, fiz amigos. Hoje, apesar de afastado, acompanho ativamente a discussão sobre a questão das leis envolvendo este setor da população, a violência - cada vez mais crescente contra ela -, o assistencialismo, o preconceito, o papel das ong's e por aí vai.

Acredito que o trabalho de três anos foi suficiente como "retorno" ao auxílio que eu tive do meu "objeto" de estudo. Acredito que eu paguei a minha dívida. E, acredito, ao contrário do conselho que havia recebido, que algum retorno é possível, sim. E necessário.

Quero voltar a estudar dentro da Universidade. Quero voltar a adentrar aqueles muros de concreto e de pensamento. Quero discutir com meus pares e ímpares. E quero, acima de tudo, respeito dos meus ex-e-futuros-colegas-universitários respeito e mais consideração no trato com as pessoas, inclusive com a minha. Pois eu não vou deixar de fazer as minhas observações, não vou deixar de falar, comentar e criticar, ainda que seja restrito apenas à este blog. Não vou deixar de cobrar o papel da Universidade, e mais: não apenas da Instituição em si, pois ela é apenas um prédio com portas, janelas, cadeiras, carteiras e muito livros dentro. A minha cobrança incindirá sobre as pessoas que a movem e a movimentam.

Voltando ao assunto daqueles que ficaram incomodados com as minhas críticas, vou relatar um episódio. Certa vez, nos idos finais do ano de 2005, na Casa de Oração do Povo da Rua, o diretor Sérgio Bianchi apresentou o filme "Quanto vale ou é por quilo?", na qual faz uma crítica aguda e visceral contra as Ong´s. Ele estava presente na exibição e, ao final, abriu espaços para comentários, críticas sobre o filme. Eu, na época, voluntário da revista Ocas" (uma ong) e educador social do Travessia - que desenvolve projetos de educação com crianças em situação de rua - (uma outra ong), fiquei indignado com aquelas críticas. Achei o filme generalista demais e - pensava - não retratava ou distorcia o papel que as Ong's tinham e sua importância dentro da sociedade. Pior: desmerecia o papel das pessoas (quase "santos") que trabalhavam nas ong's. Relatei esse sentimento, misto de indignação, ao Sérgio, que me respondeu:

- Se você não se identifica com eles, não se sinta ofendido.

Pois bem, digo mesmo aos universitários que ficaram ofendidos: se você não se identifica com a crítica, não se sinta ofendido, nem por ser um universitário.

Nem todo mundo mundo é perfeito.

Nem eu!

Rodrigo Ciríaco

terça-feira, janeiro 13, 2009

LAMENTÁVEL E (TAMBÉM) INACEITÁVEL

Mapa da distribuição da Cólera pelo Mundo. Detalhe: doença afeta apenas os "países em desenvolvimento"

Mortes por cólera no Zimbábue ultrapassam 2 mil, diz OMS
Por Nelson Banya
HARARE (Reuters) - A epidemia de cólera no Zimbábue matou mais de 2 mil pessoas e infectou quase 40 mil, informou a Organização Mundial de Saúde (OMS) na terça-feira.

A epidemia agrava a crise humanitária no país, onde o presidente Robert Mugabe e a oposição vivem um impasse sobre um acordo de compartilhamento de poder, e o líder veterano resiste aos pedidos do Ocidente para que deixe o poder.
Uma atualização com data de 12 de janeiro indicou que 2.024 pessoas morreram de cólera, de um total de 39.806 casos.

A doença, que causa diarréia severa e desidratação, disseminou-se por todas as 10 províncias do Zimbábue em razão do colapso dos sistemas de saúde e de saneamento básico. A OMS diz que 89 por cento dos 62 distritos do país foram afetados.
O governo do Zimbábue advertiu que a epidemia poderia se agravar na época das chuvas, cujo auge ocorre em janeiro ou fevereiro e acaba no fim de março. As enchentes, que em geral atingem as áreas mais baixas do país, são capazes de aumentar a disseminação da doença.
A cólera também se espalhou para vizinhos do Zimbábue, com ao menos 13 mortes e 1.419 casos registrados na África do Sul.
Botsuana, Moçambique e Zâmbia também registraram casos da doença.
O grupo Médicos para os Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos, pediu que o governo do Zimbábue entregue o controle dos serviços de saúde, fornecimento de água, saneamento e vigilância epidemiológica para uma agência designada pela Organização das Nações Unidas (ONU) a fim de tentar abrandar a crise.
O grupo disse que o Conselho de Segurança da ONU deveria emitir uma resolução citando a crise no Zimbábue para que ela seja investigada pela Corte Criminal Internacional.
Milhões de zimbabuanos têm fugido para países vizinhos à medida que a crise se agrava, em busca de trabalho, melhores condições de vida e, mais recentemente, tratamento médico.


Sobre o Zimbábue, breve pesquisa:
"O país apresenta a maior taxa de inflação do planeta. Em fevereiro de 2007 foi registrada uma inflação anualizada de aproximadamente 1730%. Dados governamentais de junho de 2007 já apontam uma inflação de 4500%, embora especialistas afirmem que ela já chegou a aproximadamente 100000%. Em julho de 2008 a inflação oficial chegou a 2.200.000% ao ano, mas estatísticas extra-oficiais indicam uma inflação real de 9.000.000% ao ano[1].

A hiperinflação vem destruindo a economia do país, arrasando com o setor produtivo. Uma medida governamental congelou os preços, causando desabastecimento, fortalecimento do mercado negro e prisão de comerciantes contrários à medida[2].

A economia do Zimbábwe, que já foi um dos países mais prósperos da África meridional, encontra-se imerso desde 2000 em uma profunda crise, além da hiperinflação, há um alto índice de desemprego, pobreza e uma crônica escassez de combustíveis, alimentos e moedas estrangeiras."

STOP THE WAR


Enquanto o mundo tapa
As bombas com peneira
Não há gaze que estanque
O sangue da estreita
Faixa de Gaza

segunda-feira, janeiro 12, 2009

ALGUMAS NOTÍCIAS

observando a movimentação deste blog, as pessoas conseguem ter uma breve noção do que estou fazendo por estes dias: nada. absolutamente nada. ou melhor, nada é algo muito generalista, não diz muita coisa, não diz a real. quando digo "não estou fazendo nada", traduza-se, não estou fazendo nada ligado ao trabalho, ao meu emprego. ou talvez esteja. fato é que por estes dias estou descansando, lendo, assistindo filmes, tocando um violão. estas coisas que só me fazem bem.

passo por aqui quase todos os dias. leio as notícias, atualizo-me nos blogs e, vou-me embora para algum lugar que não é pasargada - se soubesse onde fica, lá estaria junto ao Bandeira. não estou postando nada por falta de assunto, por falta de escrita. estou num processo de reclusão voluntária, na qual estou desvelando algumas coisas íntimas, profundas do meu ser. estas viagens são um tanto quanto difíceis, um tanto quanto chatas, mas fecundas pois sempre voltamos modificados delas. se bem que as transformações nem sempre são para melhor.

há tempos não produzo nada, literariamente falando. e sinto falta. sinto falta de ter algo a dizer, sinto falta de ter algo a escrever, algo importante para falar, algo que transforme a vida, nem que seja apenas a minha. é que a minha escrita sempre foi muito baseada mais no meu emocional do que no imaginário, mais na raiva do que na criação. claro que a criação é fundamental mas, o pontapé inicial sempre foi a raiva, a dor aguda no estômago, a falta de ar. a partir daí, tudo surgia, tudo se transformava. mas nestes dias de marasmo interior - "socorro, não estou sentindo nada..." como produzir, como criar, como escrever?

estou lendo bastante. algumas coisinhas aqui de João Antônio, outras acolá de Plínio Marcos. textos muito importantes de Affonso Romano de Sant'Anna (não conhece? putz, tá perdendo muita coisa boa cara). tudo isso para me ajudar a escrever mas também para aliviar-me. se desejo ser um bom escritor, antes de tudo preciso ser um excelente leitor. para mim isso é básico.

ah, sobre a suposta "crise" de produção, ela ficou mais sossegada depois de descobrir que João Antônio ficou doze anos (12 anos!) sem publicar nada depois do lançamento do seu primeiro livro, Malagueta, Perus e Bacanaço. não quero ficar tanto tempo sem publicar uma obra mas saber que um escritor do quilate de João pode ficar tanto tempo assim, sem publicar nada, e quando o faz, faz coisas maravilhosas (como o é o Leão-de-Chácara, seu segundo livro) dá um alívio danado.

pois bem, pra fechar, vou publicar algumas coisinhas que julgo muito importante - para mim e para quem quer ser poeta, ou escritor, ou os dois, se for capaz - e cabem ser publicadas neste humilde blog. todas são super-importantes e, antes de se excluirem, se complementam:

"entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos." (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

"se um atleta trabalha seus músculos diariamente, se um laboratorista fica atento diante do microscópio, se um piloto tem que acompanhar e manipular instrumentos de navegação, por que a poesia não exigiria contínuo trabalho e observação?" (AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA)

"Até diria que uma coisa é estar artista e outra é ser artista. Pode uma pessoa numa determinada circunstância ou período de sua vida, eventualmente, estar em condições tais que suas emoções se precipitem em determinadas formas de expressão. É como se tivesse se conectado com forças e energias que a ultrapassam e a resgatam. Mas uma coisa é a capacidade de fazer algo razoavelmente bem feito num determinado instante. Outra é comprometer-se com um projeto onde vida-e-obra se confundem. É como se tivéssemos achado umas pepitas de ouro na superfície de um terreno. Mas a riqueza está no fundo e exige paciência, técnica e aprofundamento. E é aqui que muitos embatucam, porque achavam que bastava balançar a árvore dourada e os frutos cairiam aos seus pés de Midas. Ao contrário, daqui para frente é que o desafio vai começar. Agora é que há que atravessar o deserto por quarenta anos e cultivá-lo “como um pomar às avessas”. É como se alguém tivesse as ferramentas, alguns tijolos e pedras: resta uma construção por fazer. Cadê o projeto? E a construção é aquilo que se constrói enquanto se constrói. Sendo a obra de arte, segundo Joyce, uma obra-em-progresso, como diria o nosso Rosa, é travessia. Por isto, as pessoas que têm alguns dos atributos necessários para se tornarem artistas, num determinado instante encontram-se naquela situação que a antropologia chama de situações limites. Há um ritual a cumprir para se passar de um estágio a outro. Ultrapassar essa linha divisória entre o amadorismo e o profissionalismo, entre o episódico e o sistemático, entre o aleatório e um projeto estético-existencial, eis o desafio. E nisto, de novo, há uma pesada solidão. Solidão dificil de ser compartilhada. Tenho dito a algumas dessas pessoas que surpreendi na soleira desse rito de iniciação: agora depende de você. De você e de uma série de fatores aleatórios. Pois assim como o criador tem que cavar no escuro de si mesmo a sua pretensa riqueza, entrar no sistema literário e artístico é entrar numa selva escura. Talentos podem se perder, ou terem seu percurso mutilado, enquanto outros são espantosamente superestimados." (AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA)

"fui percebendo que só se pode fazer arte se for com pele, vísceras, arrebatando o interior. percebi também que eu tinha um tema - a malandragem (...) o homem precisa ter alguma grandeza, tem de ter um momento de Homem pelo menos. meu único medo é passar pelas coisas e não vê-las." (JOÃO ANTÔNIO)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

CORAÇÃO DE MÃE

*foto retirada do blog do Poeta
A dor no peito
Não cabe na fala
Não cabe na vala
É como bala
Certeira em Matheus

Simplesmente mata!
Deixando o real no chão
O sonho na padaria
A face salgada
E o coração
Vazio

quarta-feira, dezembro 31, 2008

AH! EU JÁ SABIA!

KASSAB (E SERRA) NÃO CUMPRIU METADE DAS PROMESSAS
retirado da FOLHA ON LINE - 31/12/08

José Serra (PSDB) fez 161 promessas na eleição de 2004. Está documentado em seu programa de governo. Elegeu-se prefeito. Gilberto Kassab (DEM) conclui hoje o mandato herdado após a renúncia do tucano em 2006 para ser candidato a governador do Estado.

Após um ano e três meses de Serra e dois anos e nove meses de Kassab, 87 promessas não foram cumpridas --54,04% do total. Só 28 (17,4%) foram integralmente cumpridas. Outras 46 (28,57%), parcialmente.

A lista das promessas foi entregue à assessoria do prefeito no dia 5 de dezembro com pedido para que fosse contestada a avaliação item por item. Não houve resposta.

Anteontem (29), em balanço que fez da gestão, o prefeito relacionou uma série de itens positivos da gestão, mas não se referiu às promessas da campanha.

O programa de governo da chapa Serra-Kassab tinha 84 páginas. Na introdução, dizia-se que bons projetos para a cidade não faltam. "O que tem faltado (...) é capacidade de selecioná-los e tirá-los do papel."

Entre as propostas listadas, a criação de um "Disque-Trânsito 24 horas" recebeu muitos elogios de técnicos. A idéia era criar um serviço com orientações sobre vias congestionadas e dicas de alternativas.

O projeto, porém, não foi implantado. O sistema existente, por meio de painéis eletrônicos, dá informações inúteis ao motorista como o percentual de vias com lentidão. Sobre o trânsito, aliás, das 12 promessas, seis não foram cumpridas.

Outra promessa importante não cumprida foi a de "acabar" com o déficit de vagas em creches. Segundo a prefeitura, foram criadas 42 mil vagas, mas ainda faltam 80 mil. Kassab repete o compromisso agora.

Na saúde, foram dez promessas, quatro cumpridas e seis totalmente descumpridas. Um exemplo é o plano de erguer "hospitais de bairro" (de pequeno porte, com 50 leitos, associadas a um hospital de referência). Não foi feito nenhum, embora tenham sido concluídos os dois hospitais de médio porte anunciados --M'Boi Mirim e Cidade Tiradentes.

Se descumpriu mais da metade das promessas da eleição, Kassab fez realizações que não constavam do programa. O Cidade Limpa, as AMAs (unidades de saúde intermediária entre posto e hospital, sem leitos) e as "viradas" cultural e esportiva são os melhores exemplos.
Para o prefeito, uma coisa compensa a outra pois, para ele, o importante são "os avanços extraordinários" da gestão.

Discurso e prática

Outras duas promessas-chave usadas à exaustão na eleição de 2004 ficaram no meio do caminho. A primeira: entregar 32 km do Fura-Fila (que se arrasta desde Pitta, há dez anos). A segunda: renegociar os contratos bilionários de limpeza urbana.

No primeiro caso, houve algum avanço com a entrega de 8 km, mas a realidade ficou bem longe da promessa. A meta refeita por Kassab é entregar o que resta (mais 24 km) nos próximos quatro anos.

No caso dos contratos do lixo, sobre os quais Serra jogou suspeitas de corrupção na campanha de 2004, houve redução de 17,31% nos valores.

Mas às custas do atraso nos investimentos previstos contratualmente das duas concessionárias que fazem os serviços de coleta no município (em coleta de lixo porta a porta em favelas, coleta seletiva e construção de aterros, entre outros).

Para cientistas políticos, na prática, não há relação entre a retórica da eleição e a realidade administrativa. "Programa de governo é, antes de tudo, uma peça de campanha e, portanto, peça retórica", diz Fernando Azevedo, professor da Universidade Federal de São Carlos.

Carlos Melo, professor do Ibmec-SP, tem a mesma opinião. "Qual é o custo de não cumprir? Qual é a penalidade? O eleitor se lembra das promessas feitas? Há um mecanismo legal que o obrigue a cumprir?"

Para ele, sem punições os políticos se sentem desobrigados de fazer o que prometeram. "A culpa não está exatamente nos políticos, mas na sociedade, que não cobra as promessas, não acompanha seu cumprimento e não estabelece sanções", afirma.

Colaborou ALENCAR IZIDORO, da Folha de S.Paulo

veja matéria completa, com promessas cumpridas e não cumpridas, aqui:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidiano/ult95u484699.shtml

segunda-feira, dezembro 29, 2008

SOBRE O QUE EU NÃO FIZ

férias. férias. estes dias estou na gozolândia total. bebida, comida, conversa; muito filme, videogame e leitura da biografia do tim maia. sem televisão, sem celular, sem internet; só família, jogado no sofá e cachaça. mais nada.

não sei se eu mereço, mas eu tava precisando. esse ano foi osso para mim. não sei se os problemas foram grandes demais ou as minhas pernas não estavam fortalecidas, fato é que muita coisa pesou nos meus ombros, teve momentos que eu não aguentei e desabei. então estava precisando relaxar e curtir um pouco. é preciso de um pouco de paz ainda nos dias de guerra.

mas o mundo não para. as intrigas, as guerras, a fome, o menino no sinal, as chuvas não tiram férias. estas últimas principalmente estão castigando muito a nossa quebrada, não só santa catarina. a zona sul sofreu pacas por estes dias com enchentes, desmoronamentos, prejuízo, sofrimento e tristeza. entra lá no blog do Poeta (www.colecionadordepedras.blogspot.com) e saiba mais informações. se puder colaborar, por favor.

2009 já tá chegando, alguns planos maquinando na cabeça. recebi uma "pseudo"proposta de emprego para trabalhar num colégio de bacana, chique, que paga bem. não sei se abraço a empreitada. esse ano a grana foi contada, osso, outros argumentos que contam a favor é que muitos amigos - e em casa - dizem que eu devo guerrear também no território adversário. concordo, lançar idéia de louco para louco é fácil, difícil é chegar nos ouvidos contrários, acho - hoje - que este é um trampo importante também, mas não sei se dou conta de duas escolas, pelo trampo que eu faço, pelas dores de cabeça que eu arrumo. esse ano que chega eu tava a fim de arrumar uma fonte de renda adicional, mas não havia pensado em outra escola. bom, vamos ver. minhas prioridades no próximo ano são uma peça de teatro - dirigir -, estudar mais e comprar uma bicicleta. não quero nada que atravesse os meus pequenos planos.

aproveitando a postagem, estou lendo um livro muito bom, presente que eu me dei de natal: Vale Tudo, a biografia do preto, gordo e cafajeste, como ele mesmo se auto-intitulava Tim Maia, escrita por Nelson Mota. um livro indispensável para quem curte o nosso Síndico.

quando finalizar a leitura escrevo mais falando do livro já que ele fecha uma tríade de idéias que eu venho somando há um tempo.

e por agora chega. ficar jogado no sofá por mais de doze horas assistindo filme também lesiona o ombro. e o meu tá muito fudido. então até.

agora, só em 2009. talvez.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

CHÁ NA CONCHA, FÉRIAS

estou em santos. neste momento, curtindo as recém-férias, que se iniciaram na sexta-feira, dia 19.

sábado rolou por aqui o "chá na concha". apesar da chuva e sol e chuva, foi bem legal, várias pessoas compareceram, rolou muita música, pintura, poesia; amizade e alegria.

gosto muito do chá na concha pois é um outro local em que as barreiras (in)visíveis que nos separam no dia-a-dia caem por terra. aqui ninguém sabe "quem é louco, quem é normal". não há rótulos, não há títulos.

ontem foi dia de sol, caminhar na praia, curtir uma macarronada e um filminho com os amigos. de noite teve apresentação, na praia, da OSESP - orquestra sinfônica do estado de são paulo, + convidados. mônica salmaso estava presente, com a praia cheia, gente de todas as cores, tribos e sintonias. muito bom.

bem, como falei, estou de férias. natal fico por aqui, com família, ano-novo ainda não sei. talvez passe em sampa, talvez não. como a grana não está muita, as férias servirão mesmo para descansar, muita leitura e reflexão para organizar o ano recém-chegando dois mil e nove.

o blog deve andar meio capenga, meio desatualizado por estes tempos. não quero ficar pensando muito em computador, celular, telefone, internet, jornal ou outra coisa qual. quem precisar falar comigo, deixe um comentário, mande email e, se for urgente, liga pra nóis. mesmo que se não atender na hora, assim que pegar o recado, retorno.

esse negócio de natal, festa, troca de presentes e tal não é muito comigo, não me ligo muito nesses lances e nem estou afim de filosofar e discorrer sobre isso neste momento então, boas festas, curta na paz, sem treta, sem briga. se não tiver nada material para dar, pelo menos dê um forte abraço nas pessoas que ama, olhe em seus olhos. isso não tem preço.

salve!

quinta-feira, dezembro 18, 2008

4ª PRÊMIO COOPERIFA - 2008

Don Quijote de la Perifa não está mais sozinho. Ao seu lado o inestimável, o inconfundível, o nunca-deixar-na-mão-amigo aprendiz de sonhador, El Sancho Pança já está ao seu lado. Para o que der e vier. Enfrentando covardespreitados contrários e moinhos de vento.

Ontem foi noite de entrega do 4ª Prêmio Cooperifa. Uma noite linda, viva, verdadeira, vivenciada ao lado de amigos e amigas, guerreiros e guerreiras que, mais do que palavras, vivem a prática de uma periferia vibrante, unida. Uma periferia que nos une "pelo amor, pela dor e pela cor".

Não quero citar nomes aqui para agradecer. Não pela deselegância de esquecer alguém, de ser covarde de falar alguém só por falar, mas que não representa tanto. Mas pelo fato de que, como várias vezes frisou o Poeta ontem, falou Cooperifa irmão, falou tudo. Porque nós somos família. Família. Com todos os erros e defeitos, todos os acertos. Família. Se você entende o significado desta palavra, já sabe do que estou falando.

Então família Cooperifa, obrigado. Obrigado por me aceitar como sou, sem nada me cobrar. Eu já sei da responsa que é fazer parte disso. Obrigado por não me julgar, por não me apontar o dedo, por não me condenar sem antes me conhecer.

Durante muito tempo eu achei que vivia num limbo, num não-lugar. Vários lugares eu passei e quase nunca me encontrava, parecia perdido. Há mais de três anos eu me achei. Achei amigos, amigas, achei pessoas queridas, achei uma família. Isso não tem preço, não tem nada que pague.

Espero todos os dias representar, com fidelidade, dignidade, irmandade e humildade a importância que é fazer parte deste todo. Se um dia não o fizer, sabes que tem a liberdade e direito de me chamar no rodo. Vou baixar a cabeça e procurar me redimir, fazer melhor. Também estou aprendendo. Com vocês fica mais fácil, mais bonito.

Obrigado, obrigado e, obrigado.

Rodrigo Ciríaco
Três vezes Prêmio Cooperifa. Mil vezes Cooperiférico. Debaixo de chuva ou de Sol.
Nóis sem nóis, num é nóis. Sem palavras ao vento: amo vocês.

veja fotos da entrega no blog do Poeta:


Don Quijote de la Perifa e El Sancho Pança, guardando um dos meus maiores tesouros: meus sonhos...

CAROS AMIGOS - DEZEMBRO 2008


Na era da velocidade, da informação digital, da globalização, saber o que ler é muito importante, pois somos bombardeados a todos os instantes por propagandas – rádio, tv, jornal, Internet – e com notícias inúteis. Veja o que está em destaque, por exemplo, neste instante (18/12/08, 16:06hs) no sítio Uol: Bate papo com vencedor do “ídolos” (de quem?), personalidades do ano, show da Ma(n)donna em SP, Tom Cruise se diz feliz com sucesso de Penélope Cruz, dificuldades no patrocínio de Ronaldo “Gorducho” e por aí vai.

Mas se você quer ler uma coisa extremamente relevante, diria imperdível, leia a entrevista com o policial federal Protógenes Queiroz, na edição da revista Caros Amigos nº 141 – Dezembro de 2008.

Uma coisa é você dizer que não devemos pagar a dívida “eterna”, que ela já foi paga; que a mídia no Brasil é manipulada, está junto com os grandes conglomerados econômicos e políticos – ou seja, panelinha protegendo panelinha; que o Maluf é ladrão, que Daniel Dantas tem um monte de gente na mão, que isso e aquilo. Outra coisa é quando alguém de dentro, alguém que conhece bem sobre tudo isso, resolve abrir a boca e falar. Esse é o caso desta entrevista.

Matéria que não pode ser lida de maneira muito rápida e não apenas uma vez.

De verdade, não perca.

Algumas vezes achamos que sabemos das coisas. Lendo reportagens como esta, vemos que não sabemos de nada. É preciso ficar ligeiro. Mais ligeiro.

terça-feira, dezembro 16, 2008

SÁBADO - SANTOS - A PARTIR DAS 15HS


com sol ou chuva, vamos dar uma pedrada
na vidraça da normalidade!

UM SEGUNDO É POUCO


é muito lôco ver a (r)evolução do rap ao longo dos anos. ao contrário do que muitos queriam, vários grupos se profissionalizaram, seja na produção musical, seja na qualidade de suas músicas, batidas e, principalmente, o que mais importa para mim, o conteúdo das letras - não gosto de rap americano, ostentando gostosonas, carros luxuosos e dentes blindados a ouro, falando "eu sô isso, eu sô aquilo".

cito isto para indicar aqui um cd que já tá riscando de tanto tocar no meu cdplay por estes dias: o novo cd do Inquérito - "Um Segundo É Pouco".

qualquer comentário a mais seria irrelevante para o que é ouvir este trampo valoroso, por isso, sem mais delongas: compre já e curta o seu. ou acesse: www.myspace.com/inquerito2008

destaco as faixas um segundo é pouco, oito meses, só o amor, ja disse o poeta (participação do Poeta, Sérgio Vaz) e bumerangue, que você curte um trecho abaixo:


"Hoje eu sei que pensar incomoda como andar na chuva
Ainda mais se eu tiver de toca, calça larga e blusa
O detector me acusa: revolução!
Me travam na giratória da discriminação
Porque pobre pensando é falta de educação
"fomo" adestrado pra aceitar, pra raciocinar não
E os privilégios sempre pra minoria
Desigualdade é hereditária como as capitanias
Aqui o homem de bem é o homem de bens
Que tem uma Mercedez Benz e tra a maldade nos gens
Sem filho vai deixar a herança pros poodles
Tem de tudo mas vai buscar a paz no Google
Condomínios de segurança máxima
Pra ricos de alta periculosidade
Se dinheiro é poder e liberdade
Porque tanta cerca e tanta grade?

Quem planta a guerra
Não colhe a paz
Vai voltar em dobro a injustiça
Que você me faz..."

OUÇA NO ÚLTIMO VOLUME

E ao Inquérito: Um terceiro não será demais...

domingo, dezembro 14, 2008

POR ONDE ANDEI

04/12 - quinta-feira, escola. eu, o prof. Joel e mais uns dez alunos carpinamos uma área lá da escola onde tem alguns canteiros e dá para fazer uma pequena horta. deu trabalho, alguns calos na mão mas, a união com a molecada, ver a escola mais limpa, bonita e organizada, não tem preço.

05/12 - sexta-feira, escola. decepção. assim que cheguei, soube que a escola havia sido invadida - de novo! prejuízo: sala de informática arrombada, dezessete computadores novos levados, sala da direção arrombada, filmadora e máquina fotográfica levadas; almoxarifado arrombado, duas wap-mini, novas, compradas para a limpeza da escola, levadas. prejuízo grande.

o que mais doeu foi saber que o pessoal entrou justamente pela área que nós havíamos limpado no dia anterior...

06/12 - sábado, escola. festa do sorvete! apesar da tristeza com o que aconteceu no dia anterior, a festa do sorvete aconteceu na escola. portão aberto, comunidade presente, muitas crianças, e apresentações de dança (afro, contemporânea, break), poesia, música e uma peça de teatro, organizada pela profa. de artes junto com os alunos da 7ª série B.

07/12 - SÃO PAULO, HEXACAMPEÃO - sem comentários, todo mundo viu!

10/12 - centro/SP - Ação Cidadania. a convite do andré e do tarcísio, coordenadores da Ação e da campanha "Natal sem fome de sonhos", participei de uma bate-papo sobre políticas educacionais para o estado de São Paulo, ao lado da diana e do pessoal do Alpha-USP, projeto de alfabetização de adultos. a mulherada predominou na ação, representando diversas entidades aqui de Sampa. muito bom.

11/12 - escola. colação de grau dos alunos da 8ª série e 3º ano do ensino médio. escola enfeitada, alunos vestidos a la beca, música, homenagens e, apesar de tudo o que foi esse ano - muita treta - a esperança ainda predomina aguardanto e trabalhando por dias melhores.

13/12 - itaim paulista, loja suburbano convicto. a convite do parceiro alessandro buzo, fui o convidado para o Encontro com o Autor, na sua loja. muita cerveja, quitutes pra comer e camaradas da quebrada chegando. salve para o Da Antiga, Eduardo, do Paraná e o mano Chapéu, de Ermelino. é nóis.

e para os próximos dias, quarta-feira confirmadíssimo na Cooperifa, para receber o prêmio Sancho Pança, aprendiz de sonhador. no sabadão, confirmadíssimo o Chá na Concha, quem quiser é só colar. e depois, descanso.

porque para 2009, temos...

- 2ª edição: Te Pego Lá Fora. a primeira já tá acabando

- Literatura (é) Possível: novos autores, novas atividades, e

- Uma surpresa imperdível: tem a ver com teatro, mas vocês vão ficar sabendo só lá pra maio...

Aguardem.

Ah, e logo mais tem as fotos.

terça-feira, dezembro 09, 2008

PROMOÇÃO: FEIJÃO COM ARROZ

Promoção Feijão com Arroz?
Sim. PAGOU UM, LEVOU DOIS!

Entre os dias 10 e 20 de dezembro, na compra do livro Te Pego Lá Fora (R$ 15,00),


você leva como brinde o livro Amor Lúbrico - Contos e Poemas para serem lidos na cama, organizado pelo escritor Sacolinha.


Não é sorteio, não é xaveco, não é enganação: comprou, levou!

Obs.: apenas para compras feitas entre 10 e 20 de dezembro.
Valor da postagem - no caso via correio - não incluso.

Não deixe de comprar o seu.
Outras infos: rodrigociriaco@yahoo.com.br

AGENDA - ATIVIDADES

salve, pessoas.

segue abaixo uma breve "agenda", relação de lugares e atividades que estarei por estes próximos dias, para quem quiser me encontrar para adquirir o livro, trocar umas idéias:


dia 10/12 - Quarta-feira, a partir das 21hs
Cooperifa!

Último Sarau do Ano, presença de vários poetas e integrantes da Comunidade. Imperdível


dia 13/12 - Sábado, a partir das 15hs
LOJA SUBURBANO CONVICTO
infos: http://www.suburbanoconvicto.blogger.com.br/

Evento "Encontro com o Autor": o convidado da vez sou eu, lá na loja do parceiro Alessandro Buzo. Música, papo, descontração, cerveja e quitutes de graça. É só chegar


dia 13/12 - Sábado, a partir das 23hs


dia 17/12 - Quarta-feira, a partir das 20hs
Cooperifa!

Entrega do IV Prêmio Cooperifa, o troféu "Sancho Pança" - aprendiz de sonhador. Evento que contará com a presença de vários ilustres da quebrada, casa cheia. É bom chegar bem cedo.


dia 20/12 - Sábado, a partir das 15hs
Chá na Concha - Santos/SP
Orla da Praia, próximo ao posto 04
infos: http://www.de-lirio.blogspot.com/

Evento organizado por integrantes da Saúde Mental da Baixada Santista, desenvolve atividades - na praia - relacionadas à música, pintura, poesia, teatro e o que mais você trouxer. Bebidinhas e comidinhas grátis, é só chegar.

segunda-feira, dezembro 08, 2008

REFLEXÕES DESCONEXAS

estou apagado. alguns diriam, sumido. outros perguntam se ainda estou vivo.

a verdade é que não há nada de interessante - fora o hexa do São Paulo (rs) - para comentar no blog. este ano eu já falei demais, publiquei livro, fiz denúncia, surpreendi (des)agradavelmente colegas e amigos e, por conta disso, tive dor nas costas, dor nos ombros, tendinites, gastrites, outros ites e otras coisas ruins e afins a mais.

enfim, apesar de adorar falar, escrever, comentar, criticar, uma das metas de 2009 é calar. isso mesmo, fechar um pouquinho a matraca.

já dizia alguém que não é só peixe que morre pela boca, e a minha necessidade de falar bem sabe disso. mas estive avaliando e, algumas vezes, em alguns casos, acho que cometi excessos. falei o certo na hora errada, abusei do tom entortando a receita. e se virada de ano serve para fazermos promessas - que muitas vezes, não vamos cumprir -, estou estabelecendo a minha.

serei mais observador. mais prático, menos falador. mais concreto, mais teoria mental.

mesmo porque quem é, quem faz, não precisa dizer, já é.

ah, não significa que este blog será desativado, que não haverá mais postagens. elas acontecerão. mas vou contar até trinta antes de escrever. eu prometo...

... que vou tentar.

***

sobre outro assunto, nada a ver: havia pedido remoção da minha escola para Santos, Baixada. Uma, porque Tânia está morando por lá, trabalhando na prefeitura. Dois, pelo desgaste, estress vivenciado na minha escola durante este ano.

bom, saiu o resultado da minha remoção e, não deu: ficarei aqui em Sampa, e na mesma escola, por mais um ano - se tudo correr bem.

espero que os ventos da mudança comecem a soprar mais forte sobre a minha escola, o Mesquita. se depender de mim, alguma brisa irá ventilar pelo menos...

***

ah, e por fim mas não menos importante: eu e o São Paulo somos TRI!!!

eu, recebo no dia 17 de dezembro o troféu "Sancho Pança" - aprendiz de sonhador - da Cooperifa, o terceiro prêmio, o meu TRI - valeu, favela!

e o São Paulo consagrou-se ontem o primeiro time TRICAMPEÃO consecutivo do campeonato brasileiro, além de outra marca inédita, o HEXACAMPEONATO.

nada de gozolândia, mas nóis precisa também zoar e fazer uma festa.

"Óh Tricolooooorrr...."

quarta-feira, dezembro 03, 2008

NOSSO HINO - QUILOMBO CULTURAL*

"só quem é de lá, sabe o que acontece..."


Úh! Cooperifa meu quilombo cultural!
Éh! Poesia literatura marginal!

No sarau não é por mal o silêncio é uma prece
Loco, mais que lindo as palmas que aquece,
Se o elo fortalece, demorô é nóis que tá
Tudo nosso, tudo nosso, da ponte pra cá
Tem que sabê chegá respeitando a quebrada,
Só os verdadeiro faz jús na caminhada
Sem faiá, mancada se liga óh meu
Não é evento, é movimento se pá se entendeu
Julieta, Romeu estravazando sentimentos
Artista cidadão expressando pensamentos
Hey é o momento a hora é agora,
No traço da escrita no ratilho da pólvora
No verso na prosa que vem do coração
Respeito e união sem vaidade irmão
Etnia, religião, tua raça, sua cor
Cada um na sua, todos tem o seu valor
Pela paz, pelo amor, pro bem prevalecer
Junto lado a lado é assim que tem que ser
Pode crê! Esperei a semana inteira
Hey finalmente hoje é Quarta-feira
Vou subindo a ladeira vou no passo a passo
No swing do balanço ritmando no compasso

Úh! Cooperifa meu quilombo cultural!
Éh! Poesia literatura marginal!

Úh! Cooperifa no risco da caneta!
Éh! Periferia academia das letras!

Úh! Cooperifa meu quilombo cultural
Éh! Poesia literatura marginal

Clarices e Quintanas da periferia
Guerreiros e guerreiras comungando poesia
Só na sintonia, mano é muita treta
Úh! Cooperifa academia das letras
No risco da caneta contemplando o luar
Chegando inspiração de todo lugar
Num balão pelo ar flutuando ele vai
Pro infinito azul elegante Raicai
Vai que vai registrando emoções
Marcando história encantando geracões
Milhões de corações numa só canção
No Rap, no Samba, um atabaque um violão
No estrondo do trovão só quem é vai segui
Num posso fazê nada se num guenta vai caí
Da licença aqui, é nóis que tá de novo
Que mesmo no veneno num abandona posto
Leal até o osso sem tempo pra errá
De cabeça erguida que o sol irá brilhá
Tem que acreditá e não fugi da luta
Chega, cola que a causa é justa
Truta, escuta óh é de cór
Lê é poder, faz enxergá melhó!

Úh! Cooperifa meu quilombo cultural!
Éh! Poesia literatura marginal!

Úh! Cooperifa no risco da caneta!
Éh! Periferia academia das letras!

*Letra: Jairo - Periafricania

terça-feira, dezembro 02, 2008

TÁ CHEGANDO

Ainda bem que o mundo não é feito só pelos "normais"...


música-praia-batepapo-comidinha-poesia-sol-risada-chuva-casamentodadonauva-criançada-areia-artesplásticas-bebidinha-loucura-cultura-descontração-alegria-e-o-que-mais-a-sua-presença-trouxer

outras informações: http://www.de-lirio.blogspot.com/

segunda-feira, dezembro 01, 2008

QUESTÕES SOBRE EDUCAÇÃO

universitários são uns bichinhos um tiquinho tanto complicados.

quando nos tornamos cobaias deles, ou melhor, objetos de estudo ou colaboradores de seus estudos, eles vêm, fuçam, cutucam, perguntam, raspam, invadem, apertam até você não aguentar mais. depois vão embora, em busca dos seus "dez".

isso que é complicado: é uma via de mão-única. em que apenas uma das partes sai beneficiado. porque o interesse é deles, não seu. são eles que nos procuram, são eles os interessados. são eles os únicos beneficiados. no máximo, o que você consegue em troca, é a citação do seu nome em algumas páginas, a citação numa bibliografia. algumas linhas de estudo sobre o que eles pensam de ti. claro, isso se o universitário se dignar a enviar o trabalho finalizado para você.

eu tenho certa tolerância e paciência a eles pois já fui um universitário. e apesar da preocupação no retorno, na troca mais justa de experiências, estudos, eu também me beneficiei de algumas pessoas. por isso ainda tento ter esperança no ser humano.

mas com esse, eu fiquei bravo. o sujeito em contato comigo há um tempinho dizendo que precisa fazer um trabalho assim-assado, trocando informações via email. o universitário me diz que vai enviar algumas perguntas, pequeno questionário. há uma semana me enviou, onze (!) questões, super-difíceis, complexas. até aí fiquei meio contrariado mas, as questões pareciam interessantes, eu tinha interesse em saber o que pensava daquilo, respondi. aos poucos. durante uma semana. deve ter dado umas três horinhas de pensamento e digitação. até que ontem, ele me envia um outro email: a professora não aceitara a entrevista via email, ele não podia perder tempo, entrevistou outra pessoa. eu não precisava mais responder as questões. obrigado.

ele só não perguntou se eu já havia respondido!

tudo bem, eu já respondi à ele. sem rancores, sem mágoa, viu, Terradonunca. não esquente a cabeça. só não me peça outra entrevista, que eu lhe quebro a cabeça - rs.

e para não perder as questões já respondidas que agora não servem pra mais nada, eu vou publicá-las aqui no blog.

quem sabe algum outro universitário não aproveita, não é mesmo?

***


Universitário: 1- Conte um pouco sobre sua formação escolar. Onde estudou? Como era a escola? Como era sua relação com colegas, professores, funcionários, instituição?

Rodrigo: Estudei na Escola Estadual Profa. Irene Branco da Silva. Fica na Vila Rui Barbosa, subdistrito da Penha, Zona leste de São Paulo. Era uma boa escola na época que entrei e que foi se degradando com o tempo. Havia turmas de todos os períodos (na época, Primeiro e Segundo Grau), e lembro de ter participado de atividades no laboratório, biblioteca, quadra, além, claro, da sala de aula. Utilizei bem todos os recursos pedagógicos disponíveis.

Eu era um CDF na escola. Só que não era um cara fechado, quadradão; pelo menos não depois da oitava série, quando passei a estudar no período noturno. Tive uma relação muito boa com colegas de classe, funcionários, professores da escola, ou seja, com toda a instituição. Claro, até o momento que eu fiz o papel de “bom-mocinho”, pois quando fui tentar organizar uma festa para ajudar um professor muito querido por todos na escola que estava com um sério problema de saúde, tive uma relação conflituosa com a direção, que não queria autorizar a festa. Fiz um abaixo-assinado, colhi centenas de assinaturas, discuti a questão com colegas da escola e, mesmo não tendo realizado a atividade, foi importante para marcar posição e provocar a direção; além de constatar que eles nem sempre faziam o que era melhor para os alunos, mas o que era conveniente para eles.

U.: 2- O que motivou sua escolha pela carreira de professor? Quando tomou esta decisão?

R.: O que motivou mesmo a minha escolha pela carreira foi ter conhecido bons professores de história ao longo de minha trajetória discente, em especial nos últimos anos do Segundo Grau e um professor do cursinho. Mas, como eu falei, eu era um aluno CDF. E gostava de sentar com colegas, ajudá-los nos momentos de dificuldade, participar de seminários, etc. Acho que eu já tinha uma pré-disposição para a carreira docente. Mas a decisão, mesmo, só foi aos quarenta minutos do segundo tempo, pouco antes de indicar a opção nos vestibulares da Unesp e Fuvest. Antes, eu havia pensado também em Psicologia.

U.: 3- Na sua descrição que aparece no livro “Te pego lá fora” é dito que você já recebeu propostas para lecionar em instituições de ensino privado. No entanto, você recusou. Por que esta opção pelo ensino público? Para você, o que está em jogo na oposição entre ensino público e privado?

R.: Primeiro, eu sempre estudei em instituições públicas de ensino. Desde o pré, até a Faculdade (formei-me na USP). Tenho uma convicção de que todo o investimento de dinheiro público que foi feito na minha formação, na minha pessoa, tem que, de certa forma, ter um retorno à sociedade. Acredito que este retorno se dá a partir do momento em que eu faço a opção de trabalhar numa instituição pública de ensino, apesar das enormes dificuldades: administrativa, organizacional, salarial, pedagógica, etc.

Outra coisa é que eu acredito que a Educação deveria ser pública, gratuita e de qualidade, para todos. Sem distinção. A partir do momento que transformamos a Educação em mais uma mercadoria, separamos o que algo é algo de Direito para todos em um objeto de consumo – com variantes qualitativas – disponíveis para poucos, reproduzimos um problema seríssimo: a desigualdade. Então, por isso esta opção pelo ensino público, gratuito.

Hoje em dia eu até repenso esta minha opção em não trabalhar em colégios particulares. Em certos momentos eu acho que até deveria estar lá para provocar esta instituição, provocar os valores que ela traz em si e os valores que os alunos que a freqüentam possuem. Mas não sei se conseguiria conciliar com o ensino no Estado e, dentro da minha chatice, sinceridade e seriedade que compartilho na minha profissão, acho que não duraria muito tempo também.

U.: 4- Conte um pouco sobre suas primeiras impressões como professor. O que mais lhe marcou no início da vida docente? O que foi mais fácil/difícil, interessante, etc?

R.: O que mais me marcou no início foi o “batismo de fogo”, realizado pelos professores. Lembro muito bem da experiência que foi a primeira vez que eu entrei numa sala de professores: as pessoas me olhando, tal qual eu fosse um animal, um objeto estranho. Uma curiosidade excessiva de olhares sobre a minha pessoa, uma coisa invasiva. Eu tinha apenas vinte anos, uma cara de moleque de Ensino Médio na sala dos “Veteranos”. Quando eles souberam que eu era o professor substituto que havia atribuído algumas aulas livres, quase deram risada. O que choveu foi conselho: - “Olha, cuidado. Nessa escola só tem animal.” “Rapaz, bem-vindo. Seja firme, você vai entrar numa jaula.” Foram estas palavras utilizadas. Ou seja, recepção melhor, não podia ter existido...

Para mim o que foi mais fácil foi a relação com os alunos. Descobrir que eles não são aqueles “animais” que os professores apontam. São difíceis de lidar, como toda criança e adolescente algumas vezes são muito difíceis, mas não a ponto de desumaniza-los daquela maneira. Procurei sempre vê-los como gente, como pessoas, em primeiro lugar tratá-los com respeito para poder exigir isso deles. Isso facilitou muito.

A minha maior dificuldade foi com a minha insegurança. A dificuldade em acreditar que eu era capaz de lecionar, que eu podia fazer aquele trabalho. Isso foi, e em partes ainda é, o mais difícil para mim. Com o tempo eu descobri que a experiência prática das coisas vai nos trazendo mais segurança. O tempo é um fator muito importante. E além disso, a preparação, o estudo, são vitais para diminuir esta sensação. Quanto mais preparado, mais organizado em relação ao que ia fazer eu estava, menos inseguro eu ficava. Ainda que nada do que eu tivesse preparado fosse executado da maneira como eu pensei, se eu me preparei, mais seguro estava.

U.: 5- O conjunto de experiências relatadas em seu livro chama a atenção para diversos problemas encontrados em grande parte das escolas públicas atualmente. Gostaríamos que você relatasse um pouco como você enfrenta alguns destes problemas, por exemplo:

a) Em contos como “Cara-de pau”, “Um estranho no cano”, “Socá pra dentro”, “Medo”, podemos perceber uma relação extremamente hostil dos professores e funcionários da escola em relação aos alunos, que são frequentemente insultados, ofendidos, humilhados e até mesmo agredidos fisicamente. Como você lida com esta situação no seu dia-a-dia? Você tem alguma opinião sobre as possíveis causas deste problema?


R.: Com muita revolta. A hostilidade, ofensas, humilhação e violência é uma situação quase que cotidiana dentro da escola. Tanto por parte de alguns alunos, quanto por parte de funcionários e professores.

Da minha parte, eu tento lidar com esta situação através do diálogo, respeito. Algo que não abro mão dentro de sala de aula ou da própria escola é o respeito. Estabelecermos sempre uma relação cordial, onde as regras do contrato – pedagógico – tem que ser claras, o papel de cada um naquele espaço, tem que estar claro. E quando não estão, quando este contrato é violado, por alguma das partes, tem que sentar e conversar. O diálogo, a clareza das coisas é fundamental dentro da escola. E quando o diálogo, a conversa, a clareza das coisas não funciona, sanções, reparações e punições devem ser aplicadas.

Com relação a colegas e alunos, tento orientar, ambas as partes. Se observo alguma postura que não gosto de algum companheiro, tento chegar, conversar. Se for amigo, um bate-papo informal, trocar uma idéia; se não for, expor a situação, o problema em algum espaço legitimado para isso, seja um HTPC, seja um conselho de classe. E, no caso do aluno, eu relato o que ele pode fazer a nível institucional para resolver o problema.

Algumas idéias sobre a causa deste problema eu penso que são: a desorganização do espaço escolar, tanto administrativamente quanto pedagogicamente; a falta de autoridade (não autoritarismo) e profissionalismo por parte de alguns profissionais da educação; a falta de regras claras que definam os papéis de cada um dentro daquele espaço, entre outros.

b) Em contos como “A.B.C.”, “Aprendiz”, “Bia não quer merendar”, “Nos embalos”, “Questão de postura”, “Miolo mole frito”, “A placa”, são retratadas situações que muitas vezes ultrapassam os muros da escola e mostram a extrema violência, em diversos aspectos, a que estão submetidos os alunos. Em diversos casos tais situações chegam a provocar a evasão escolar, como em “A placa”. Como você encara esta situação? E a instituição escolar? Há alguma preocupação com a vida dos estudantes por parte dela?

R.: Vejo isto como um problema muito sério. Na escola, acabamos por estabelecer uma relação humana, pedagógica, social com os alunos, baseada principalmente na confiança. Depois que você está há um tempo na escola – pelo menos um ano, um ano e meio, acredito – desenvolvendo um trabalho sério com uma mesma turma, você consegue adquirir a extrema confiança deles. E com isso, muitos destes casos que aparecem as vezes de maneira superficial – no sentido de só vermos a ponta do iceberg – são apresentados a você de uma maneira mais profunda, mais intensa, até como forma de compartilhar não apenas a violência, o problema, mas a sua solução.

Da minha parte, procuro não me omitir quando vejo uma situação destas. Converso muito com os alunos, com o seu consenso informo a situação à Coordenação, à Direção da escola; se necessário converso com os responsáveis. A questão das drogas, a violência doméstica, o abuso sexual, o trabalho infantil, entre outros, são questões que estão colocadas, existem, não podem ser ignoradas. Só que é muito difícil lidar com isto já que muitas vezes lidamos sozinhos com estas situações. A escola, enquanto instituição, deveria responsabilizar-se, mas infelizmente não o faz, e quando o faz, faz de uma maneira equivocada. Eu creio que os profissionais que fazem parte dela não estão preparados – como muitas vezes eu não estou – mas o maior problema é o desejo de não querer se aprofundar nestas questões, já que elas demandam tempo, responsabilidades e muito trabalho. Somados ao nosso já cotidiano massacrante, estas questões são muitas vezes ignoradas ou postas de lado, o que não resolvem as violências pelas quais estão submetidas estas crianças e adolescentes.

c) Em contos como “Da frente do front”, “Papo reto”, “Perdidos na selva”, “Um estranho no cano”, a situação de tensão constante também parece afetar a relação entre os professores, entre estes e a direção da escola, e daqueles que trabalham na escola com as outras pessoas de seu convívio social. Frequentemente os professores que acreditam na educação pública como um princípio aparecem taxados como “idealistas” ou “ingênuos”, e são coagidos moralmente para se “enquadrar no esquema” e agir como todos os demais. Conte como você lida com esta situação no seu cotidiano.

R.: Olha, algumas vezes eu dou risada, em outras eu finjo que não é comigo. Muitas vezes eu tento apenas ignorar este tipo de comentário, mesmo porque se for rebater a toda hora, a todo instante em que eles são manifestados, não faria outra coisa na escola. Mas há determinados momentos que precisamos questionar estas opiniões e posturas, principalmente quando isso se manifesta quase como uma coerção moral. Mesmo porque senão acabamos caindo na idéia de que não é possível mudar, de que nada funciona, nada dá certo. Algumas vezes eu sinto isto, claro, faz parte, dependendo do dia, dos problemas e situações que enfrentamos, ficamos enfraquecidos, querendo desistir. Mas no dia que eu tiver a desistência total como princípio, como muitos colegas meus já fizeram, eu abandono a escola. Acredito que será mais salutar para mim, para os profissionais que me rodeiam e para os alunos.

U.: 6- Em “Da frente do front” é mostrada a relação conflituosa existente entre os professores e alunos que defendem a escola pública e o governo, responsável por sua gestão. Em “Papo reto”, este mesmo conflito é colocado dentro dos muros da escola, com a direção. Como você enxerga a gestão da educação pública hoje em dia? Ela é democrática? Você considera que possui autonomia para desenvolver seus projetos e seu método pedagógico? Como você lida com isto?

R.: Pergunta um “tantinho” quanto complexa. Primeiro, precisamos definir o conceito do que entendemos por democracia. Democracia é “o poder pelo povo”? Certo. Mas entendo que, na instituição escolar, democracia é a garantia de você ter direitos. Ou seja, uma escola democrática, pra mim, é aquela que garante um bom aprendizado e desenvolvimento do aluno, enquanto estudante e enquanto ser humano. Avaliando por este ponto, nossas escolas não são democráticas. Não apenas porque os alunos não participam das instâncias de decisões – e existem algumas delas que eles não devem participar, já que existe a necessidade de uma certa maturidade e aprendizado técnico, profissional – mas porque eles não estão tendo a garantia dos seus direitos respeitados. Desde o direito mais básico, como o direito à vida e ao desenvolvimento pleno e seguro, quanto o seu direito à educação, cultura, lazer, respeito. Isto não está acontecendo em nossas escolas.

Com relação ao desenvolvimento de projetos pedagógicos, temos autonomia sim. Em alguns pontos, autonomia até demais, eu acho. Pois o fato de não haver uma fiscalização, de não haver uma cobrança sobre o trabalho dos professores, é parte da responsabilidade desta lambança que temos hoje no ensino.

Por outro lado, não concordo com o método que a Secretaria de Educação Estadual está querendo “corrigir” este erros, com os “caderninhos” de proposta curriculares para o ano letivo. Aquilo chega a soar como ridículo. Primeiro porque desconsidera todo o aprendizado, toda a formação profissional do professor, responsabilizando-o pela nossa situação catastrófica por “não saber ensinar”, e as coisas não são bem assim. Segundo, o Estado, com estes cadernos, faz o professor se comprometer com metas pelas quais ele sabe que o professor não poderá cumprir. Por exemplo: em História, nos quatro anos do ciclo II do Ensino Fundamental, parece que somos obrigados a trabalhar a história de “Deus e sua época”, ou seja, tudo. Isto é inviável. Seria muito mais ético fazer com que os professores estabelecessem sim, uma proposta curricular, um programa de trabalho ao longo do ano, mais um programa sincero, nas quais os profissionais pudessem se comprometer com a sua meta e realização real, na prática, e não essa proposta curricular que é quase impossível de se fazê-la cumprir com o aluno tendo o aprendizado concluído – já que esta também é uma questão posta: qual o nosso objetivo? Aplicar o programa, a proposta, na sua totalidade, como eles mandam – ou seja, conteúdo, conteúdo, conteúdo -, ou fazer o aluno apre(e)nder, de verdade, ainda que seja o mínimo e necessário? Das duas, eu fico com a segunda. Prefiro que o aluno apreenda um conteúdo mínimo proposto, com informações elementares à sua vida, e tenha domínio sobre isso.

Que fique claro: não se trata de se comprometer com a “educação mínima”, ensinar apenas o básico aos alunos, não é isto. Mas rever a nossa proposta curricular atual e determinar o que é viável, praticável e possível inclusive para que isto possa ser cobrado e sua execução avaliada.

U.: 7- Por fim, podemos ver hoje em dia uma série de conflitos políticos colocados na cena da educação pública, com diversas greves e protestos dos professores não apenas pelo aumento salarial, mas também contra políticas do governo estadual. Como você vê o papel político dos professores atualmente? Qual a sua importância? Como você enxerga a atuação da APEOESP?

R.: Os professores não tem um papel político atuante atualmente, com raras exceções, é claro. A maioria está de saco cheio de tudo, querendo apenas saber quanto vai cair de salário e pronto. Não os culpo por chegarem nestas situações, muitos deles devem inclusive ter sido “idealistas” como sou hoje e, por conta da estrutura, do governo, da direção, e dos raios-que-o-partam, chegaram a este ponto. Não os culpo por isto. Irei culpá-los se estiverem de saco cheio, cansados e continuarem na rede, empurrando com a barriga, fazendo um péssimo trabalho, enganando os pais, a sociedade, os alunos. Aí devem ser responsabilizados. Mesmo porque, eu fico pensando – agora, neste exato instante – se houvesse um êxodo em massa de profissionais da educação, um grito de “Basta!” emitido pelos professores, talvez o governo tivesse que fazer mudanças que são profundamente necessárias em relação a nossa categoria.

Os professores não são valorizados hoje em dia. E por responsabilidade sua, em primeiro lugar. O docente não se valoriza muitas vezes enquanto pessoa, enquanto profissional – na sua formação. O governo só complementa o trabalho.

A APEOESP deveria servir para alguma coisa, já que é um dos maiores sindicatos da América Latina. Eu ainda estou tentando descobrir para o que ela serve, por isso que sou filiado. E apesar do número de professores sindicalizados, não acho que ela tenha a representatividade em nosso meio como parece. E para mim um dos problemas é que ela mesmo não se leva a sério.

A APEOESP deveria defender a educação, mas ela só sabe defender a corporação. Isso, é grave. Pois o fato de uma pessoa ser professor não significa que ela é uma boa pessoa, um bom profissional. Qualquer ser humano que estude, faça uma faculdade boca-de-esquina qualquer ligado à área educacional pode se tornar um docente, e aí? Por isso ele se torna um cara, uma mina legal? Então não acho que todo professor é defensável, e a APEOESP faz isso – não que não tenha direito de defesa, mas não se pode colocar todos como “santos” como este sindicato muitas vezes faz.

Outro problema da APEOESP é que ela sempre coloca, como carro-chefe de suas reivindicações, a questão salarial. É claro, é óbvio que o professor precisa ganhar melhor, ter um bom plano de carreira, isto é óbvio. Mas uma coisa eu tenho como certa: ainda que houvesse um aumento de 100% dos salários dos professores, não ia ter mudanças substanciais na qualidade da educação paulista. Não creio. O que ia mudar é que o poder de consumo, o poder de compra destes professores iriam aumentar, mas não acredito que isso fosse ter um grande impacto na educação. Muitos docentes não iam abandonar seus outros cargos por conta do aumento, muitos docentes não iam melhorar a preparação de aulas por causa do aumento, muitos docentes não seriam mais decentes, mais humanos na relação com os alunos que eles tratam como lixo, como bicho, muitas vezes, só por causa deste aumento. E o sindicato só fica nesta ladainha: aumento, aumento, aumento.

Acho que tem outras coisas para serem colocadas na pauta de reivindicações, não apenas como adendo, mas como proposta mesmo. Uma coisa já falei é a questão da proposta curricular: fazer uma proposta viável. Discutir, seriamente, o que o aluno deve aprender na escola, o que é possível ensinar durante um ano letivo, já que a história de “Deus e sua época” não é possível. Outra coisa: vamos diminuir o número de alunos por sala. Vinte alunos por sala, já. Pra ontem. Que se construam mais escolas, que se repense os seus horários, não importa. Vinte alunos por sala, já. É um número razoável, satisfatório e adequado para o professor trabalhar, desenvolver diferentes propostas, projetos. Entre outros coisas. Se o professor conseguisse ensinar os seus alunos dentro de uma proposta curricular viável, em que todos aprendessem, trabalhando ao longo de alguns anos letivos numa sala com vinte alunos, tenho plena convicção de que algumas mudanças surgiriam: a) a evasão, problemas de indisciplina, diminuiriam; b) a qualidade da educação melhoraria; c) alunos e professores estariam mais satisfeitos, com auto-estima elevada.

Posso dizer, com toda franqueza, que eu dispensaria inicialmente um aumento de salário se eu tivesse condições pedagógicas, administrativas e estruturais para trabalhar, se eu estivesse satisfeito com o meu trabalho. Ficaria lá, com os meus quatro salários mínimos, sem problema. Nós, seres humanos, não somos apenas material, não é só a massa e o concreto que importam, mas precisamos de realização, precisamos saber que o nosso trabalho, o nosso investimento está rendendo bons frutos, que não é apenas um gasto, uma energia, física, emocional, mental que você aplica e vai pro espaço, não é aproveitada. Se nós conseguíssemos executar ações capazes de fazer com que tenhamos este retorno, com que tivéssemos resultados, seria muito mais benéfico para todos, e acredito que muitos de meus colegas professores estariam satisfeitos com isto.

U.: 8- Gostaria de fazer alguma consideração final?

R.: Apenas que as questões aqui colocadas são bem complexas, que eu não tive o tempo adequado para responder à todas, já que as respostas demandariam semanas, meses de pensamento, reflexão e ação, mais do que apenas a semaninha que tive para fazê-las. Dizer que Educação é algo que eu levo muito a sério, gostaria que as pessoas envolvidas neste meio também o fizessem e, se acha que não dá conta, se acha que não é possível mudar, se acha que não tem o que fazer; se você não está a fim de investir nessa guerra que parece que não terá fim e que não conseguiremos uma transformação, seja sincero contigo, abandone o barco e vá fazer outra coisa da vida. Eu mesmo já pensei em desistir – estou pensando muito nos últimos meses –, mas enquanto acreditar, prossigo. Quando desistir, se desistir, aviso. Gostaria que outros profissionais da educação fizessem o mesmo.

Quem vai começar a mudar a educação não será o governo, não apenas. Seremos nós. Aqui em São Paulo um partido político está há quinze anos tocando o barco e não conseguiu tapar os buracos. Já estamos com a água no pescoço e afundando. Portanto, temos muito trabalho a fazer. Façamos. Não podemos perder mais tempo.

quarta-feira, novembro 26, 2008

SONHO REAL*

para Bruno*

Quando crescer, quero ser poeta.

Vou viajar por mares ressecados e outros nunca antes navegados, sem jamais esquecer da quebrada. Sem nunca borrar a história das minhas origens África. Sem nunca apagar da memória os meus antepassados.

Quando crescer, quero ser poeta.

Ainda que me façam acreditar que este sonho não é possível. Ainda que me digam eu não tenho chance, que eu tenho que aprender a ler e a escrever melhor, por mais que estude numa escola que não coloca isso ao meu alcance. Ainda que digam que é besteira, que poeta no Brasil passa fome, que cultura não dá dinheiro, que o melhor é ser traficante, criminoso, bicheiro. Não interessa.

Quando crescer, quero ser poeta.

Vou metralhar com as minhas palavras os apresentadores de TV que dizem que só tem violência na minha quebrada. Vou exterminar com as minhas palavras as gargantas opressoras destes invasores que divulgam a sua versão de periferia violenta, triste e desacreditada. Vou eliminar com a tinta preta no papel branco todas as telas alienadas, as drogas, as armas e as bocas de fumo; recriar com lápis de cera e giz de cores os jardins, parques, amigos e brinquedos existentes nos meus sonhos enquanto durmo. Vou estraçalhar, com respeito e tolerância todas as estatísticas, inclusive aquelas que dizem que jovem negro, pobre e da periferia não tem vez na vida. Não crescem. São árvores sem direito a raiz, água, sol, fruto e cultivo.

Quando crescer, quero ser poeta.

Já conheço Sérgio Vaz. Já conheci Marcelino Freire, Elizandra de Souza, Akins Kinte; Allan da Rosa, Dinha e Sacolinha. Já conheci Alessandro Buzo, Carlos Galdino. Solando Trindade, Manuel Bandeira, Vinicius de Morais, Carlos Drummond de Andrade. Conheço o professor Rodrigo Ciríaco. Quem mais eu preciso conhecer para me convencer? Ninguém, talvez apenas a mim mesmo. Acreditar que eu posso. Acreditar que eu sou capaz. Acreditar que eu sou possível.

Vou mostrar que na quebrada se vive na alegria da paz, apesar dos dias de Guerra. Vou desbicar minhas raízes ancestrais, mostrar a todos a nossa capoeira, nossa shigombela; vou bibóizear o rap, reescrever os funks, acordar o samba de raiz. Pois na quebrada onde eu moro tem origem, mais sangue correndo na veia do que no chão, como se diz. Minha quebrada está viva. E eu preciso cantar. Eu preciso declamar, eu preciso falar. Eu preciso escrever poesia.

Por isso, quando crescer, quero ser poeta.

Não importa que não seja um poeta de profissão. Serei por convicção. Não importa o quanto eu tenha que batalhar e que muitos digam que isso tudo é e foi em vão. Não importa que eu tenha sonhos, que eu acredite que o mundo possa ser melhor, que eu lute para que o mundo seja melhor mas que eu nunca eu o veja finalizado e construído. Não vou cair nesta ilusão, a construção se faz no caminho. Não importa que no final eu me sinta estranho, um pouco abandonado e solitário, achando que o mundo não se muda sozinho, que é preciso que as pessoas queiram mais, que é preciso que as pessoas batalhem mais. Não importa. Vou prosseguir entoando este canto, este sino.

Quando crescer, quero ser poeta.

Acho que já estou aprendendo.