terça-feira, julho 15, 2008

BOCA DO LIXO


Eu tô cansada de ser arrombada. Eu tô cansada de ser humilhada, ofendida. Só essa semana foram três vezes. Três vezes! Não há cu que agüente.

Isso aqui... isso aqui num é vida. Cê reparou nessa molecada, às sete da manhã, encostados no meu portão? Aos poucos vão chegando, formando. Vinho seco e cigarro na mão. Bate o sinal, eles entram. Chapados. E de tarde os di-menor. Uns molecote desse tamanho, magrinho, num passam dos doze e ficam ali, a tarde inteira nas pedra. Queimando até o osso. Onde já se viu?

Também, se tivessem um esporte, uma cultura, um incentivo. Mas aqui? Aqui não. É como disse aquela escritora. Aqui é o quarto de despejo da cidade. Não tem Pan, Copa do Mundo, ginásio. Só os beco, as viela, as rua; um ou dois campinho e essa porcaria de quadra. Olha só, as grade, tudo enferrujada. Sem trave, cobertura sem telha. Um cimentado todo torto que vive rachando as cabeça. Molecada aí quase se mata. Bola num dura. Nem o risco tá aparecendo mais no chão. Só os nóia. Eles aproveita o mato alto, o abandono, pra ficá aqui, se corroendo. Não dão sossego. São pior qui furmiga no açucareiro.

Por isso que eu digo: tô cansada. Também, ninguém faz nada. Eu pergunto: quem se preocupa comigo? A polícia? Os político? Os ricos cidadãos de bem? Eles até vêm aqui de vez em quando com projeto, dinheiro na mão, mas num ficam muito tempo. Nem quero. Pensa que eu não lembro? Eles fôro os primeiro a deixar a gente aqui, à deriva. Sozinho. Feito cão sem dono. Eles foram os responsáveis por esse abandono. É. Podiam bancá colégio particular pros filho ué, fazê o quê? Quem pode mais chora menos.


Dizem que lá tem aula de teatro, balé, dança de salão. Oficina de cinema, de rádio, judô, natação. E aqui? Aqui nada. Tem dia que falta até giz. Cadeira, carteira. Só o leite que não. Nem o macarrão. Arroz, feijão e salsicha. É bonito vê a molecada fazendo fila com o prato na mão. Tem uns que vêm pra escola só pra aproveitá a dieta do governo. De graça, balanceada. Por isso que precisa de um controle na distribuição. É, redução de carne, frango. Senão eles abusam. Outro dia passaro um comunicado que a empresa terceirizada precisava economizá. Pediro pras tia botá mais água na sopa. Misturá um pouco de carne com ração. Verdade. Acha que é brincadeira? Os menino gostaro. Lambero até os beiço. Num teve um ó, qui reclamô.

Agora, demorô! Alguém tem que resolvê a minha situação? Vai sê sempre isso? É só aparecer o final de semana, eles encostam o caminhão. Desce criança, desce mulher. Desce adulto. Eles arromba, invadi e leva tudo: panela, abridor de lata, liquidificadô. Merenda, computadô, ficha de inscrição. Até armário de professor, levam. E eu, sem um pingo de tesão, tendo que agüentar esse entra-e-sai entra-e-sai no meu terreno?

Pergunte se alguém viu? Não, eu num vi nada. Num sei de nada. Agora, cola na biqueira. Já tá tudo empenhorado. É isso que me deixa mais puta da vida. Todo mundo sabe pr’onde vai, todo mundo sabe do que tá acontecendo, e ninguém, ninguém faz nada. Você acha que alguém se importa?


Tudo bem. Só não reclamem quando eu soltá os meu pequeno. Os da vida torta. Não me abandonaro? Não acabaro com a minha Educação? Então num vô pensá em ninguém, só ni mim. Vô fazê qui nem as cachorra, bem gostoso. Sem camisinha, sem preocupação. Analfabetos, aidéticos terminais, dependentes químicos. Um bando aí de ladrão, estupradô, assassino. Meus herdeiro. Num verão raça, religião, condição social, cor. Vão fazê todo mundo prová do meu amargo sabor. Essa dor que num tem fundo. Eu posso sê uma escola véia, tá feito defunto, mas tenha certeza: cês ainda vão si fudê comigo.



conto retirado do livro TE PEGO LÁ FORA,
de Rodrigo Ciríaco. Edições Toró, São Paulo, 2008

Um comentário:

Mariana Costa disse...

Olá, Rodrigo

Sou aluna da FACCAMP, onde vc deu palestra terça 14/10/09, adorei !! Vc mostra a realidade nua e crua, sem reservas...Se todos vissem a realidade do mundo como realmente é, talvez pudesse haver uma esperança de melhoras....
Parabéns pelo projeto