sexta-feira, março 06, 2009

HEY! TEACHER! LEAVE THE KIDS ALONE (?)

“Entre Muros” é um filme importante. Não porque fala sobre educação, mas principalmente porque fala sobre a escola. A partir da visão de quem está na escola, e está disposto a falar, dar a cara a tapa sem enaltecer apenas os problemas e dificuldades ou cobri-las de falsos elogios. Mostrar a vida como ela é, ou melhor: como ela está.

O filme foi baseado na obra de Francois Bégaudeau, professor de francês e nas suas experiências de ensino. E acredito que aí está a riqueza, além da sua própria atuação no filme e de vários alunos, desafiados a improvisar o cotidiano de uma sala de aula.

Quando finalizamos a sessão de pré-estréia do filme, a convite da Revista Época, uma das alunas fez um comentário muito significativo na minha opinião: “O que eu achei interessante é que os diálogos são bem vivos, bem realistas. Se mudasse apenas o cenário da escola, colocasse uma sala de aula, um espaço mais parecido com o nosso, podia muito bem falar que era uma escola do Brasil”. E em grande parte do que ela disse, é verdade.

O filme traz o retrato de um ano letivo numa escola pública da periferia de Paris. Primeiramente observamos o grupo de professores, à volta as aulas, apresentações, expectativas; depois os alunos, o encontro entre velhos amigos, as surpresas do “novo” e, finalmente, o encontro, que muitas vezes parece mais uma trombada: docentes e estudantes, juntos, na sala de aula.

Por se tratar de um filme que aborda principalmente as relações pedagógicas e sociais dentro da instituição escola, ele toca em questões cotidianas, quase banais para a maior parte dos profissionais que faz parte deste lócus, mas que são universais, pertinentes – acredito – em qualquer lugar do mundo: seja uma escola do sertão do Pajeú, em Pernambuco, seja uma escola canadense ou chinesa: a comunicação muitas vezes truncada entre educadores e estudantes, os conflitos de gerações, sociais, culturais e econômicos; o questionar da autoridade, a indisciplina, a dificuldade do mestre em lidar com determinadas situações, nossas limitações e acertos. Talvez este enfoque sobre o cenário da escola tenha sido o responsável para o filme ter obtido tamanha repercussão em diferentes países.

Longe da áurea de romantismo ou desqualificação e criminalização total das pessoas que rondam sobre o tema, “Entre os Muros” expõe o recorte do cotidiano escolar de uma forma mais realista, com um olhar que procura mais entender do que julgar. Trazer indagações, questionamentos sobre este ambiente, mais do que apontar o dedo para vilões e mocinhos, anjos e demônios. Se bem que eles existem, dentro e fora, dos dois lados do muro.

Principalmente por ser professor, existiram várias partes em do filme que houve empatia minha com alguns personagens, ou que estabeleci relação com determinadas situações que vivencio na escola, seja pelo fato de ter acontecido comigo ou de ter presenciado com colegas e alunos: as conversas na sala dos professores, a perda da estribeira de um docente que não consegue trabalhar; o conselho de classe na qual duas alunas tem uma postura extremamente desrespeitosa, mas nenhum adulto lhes chama a atenção, a agressão verbal do professor a duas alunas dentro da sala de aula (chamando-as de vagagunda) e, o extremo: a agressão física de um estudante a outro dentro da sala de aula.

Apesar das semelhanças de situações de lá e cá, não significa dizer que as escolas públicas da periferia de Paris são iguais as da periferia de São Paulo. Longe disso, cada lugar guarda as suas especificidades e riquezas, mas o filme demonstra o quanto as relações entre professor e aluno são parecidas e destaca como a postura de um professor pode fazer a diferença – ou não - no cotidiano escolar e na vida do aluno. E isso é um fator a ser considerado.

Mas é preciso ficar claro: as escolas não são feitas apenas de relações humanas e, se alguns professores podem fazer a diferença, ela será mínima se não houver planejamento, organização, disciplina, compromisso, responsabilidade e seriedade em todas as instâncias que envolvem este trabalho. Apesar dos diálogos serem parecidos, não significa que as unidades escolares sejam as mesmas e que os alunos tenham o mesmo aprendizado. A estrutura, o ambiente escolar faz diferença, assim como o número de alunos em sala, os programas curriculares, as políticas educacionais, a fiscalização, o salário dos profissionais da educação, entre outros. Não queremos “super-heróis” salvando algumas escolas. Queremos trabalho sério, em todos os lugares. Fazer valer o que é de direito, para todos.

Enfim, “Entre Muros” é importante menos por falar sobre a Educação, no geral, mas por trazê-la para a cena. No caso a tela. Um tema reconhecidamente imprescindível no discurso de políticos, burocratas, editores de jornais da mídia impressa e falada e pais quando se pensa no futuro do país, mas que não merece a devida atenção e dedicação nas ações, na nossa prática cotidiana: há sempre uma crise, um acidente, um problema, parece haver sempre algo mais “importante” para se preocupar do que com a famigerada Educação. Ou quando se aborda sobre o assunto é sempre de maneira superficial, sem tocar no cerne do problema. E é extremamente necessário falar sobre este tema, agir. Sem medo, sem cortes, sem censuras, seja de qualquer parte. A escola, sozinha, entre muros, não redimirá o nosso caótico mundo. Mas é um grande passo neste longo caminho. Todos sabemos disso.

Chega de colocar-mos apenas outro tijolo no muro.

R.C.

SOBRE "ENTRE OS MUROS DA ESCOLA"


"Uma criança marroquina chama de “macaco” outra de Mali. Uma jovem tunisiana recusa-se a ler um trecho de um livro porque não lhe apetece. Um filho de portugueses aparece com uma camisa da seleção de futebol e o cabelo espigado à Ronaldinho. Estas são algumas das situações que o professor de ENTRE LES MURS, de Laurent Cantet, tem que enfrentar todos os dias na aula de Francês que leciona num Liceu de Paris; mas não é por isso que o filme, terceiro e melhor do trio que a França apresentou na Seleção Oficial do Festival de Cannes, se resigna aos clichês sensacionais do subgênero “filme de escola problemática”.

Cantet disse numa entrevista que “todos produzem discursos ideológicos sobre a escola, mas muito poucos a conhecem e vão ver como funciona”. Por isso, pegou a idéia que tinha de fazer um filme de ficção sobre a vida num liceu “difícil” e propôs ao jornalista, escritor e professor Francois Bégaudeau a adaptação ao cinema do seu livro ENTRE LES MURS, baseado nas suas experiências de ensino. Mais: além de ter convidado Bégaudeau a co-escrever o argumento com ele e com Robin Campillo, Cantet propôs-lhe ainda que interpretasse o papel principal, o de um professor chamado… Francois.

Para transferir para a tela a autenticidade do livro, o diretor e o autor decidiram que os alunos seriam interpretados não por atores jovens recrutados em castings, mas pelos alunos de um liceu de Paris, que fizeram workshops dramáticos e foram encorajados a improvisar durante as filmagens, mantendo seus nomes originais na fita, tal como os professores.

O resultado é uma crônica de um ano letivo numa sala de aula que é um microcosmo de milhares de outras em escolas “duras”, não apenas na França, mas também em qualquer país da Europa aonde os filhos dos imigrantes africanos, asiáticos e também europeus vieram engrossar as fileiras escolares dos naturais. Onde dar aulas requer a um professor não apenas a normal preparação pedagógica, como ainda paciência de santo, muita criatividade e uma autoridade feita de parte firmeza, parte diplomacia, e o dia-a-dia é gasto a dar matéria e a tentar explicar aos alunos as regras básicas do respeito, da boa educação, do convívio social e do comportamento em público - especialmente numa sala de aula.

Colado ao máximo à realidade, Laurent Cantet descreve os confrontos diários intenso, exigentes e ingratos entre um adulto e um grupo de adolescentes em que se transformou o ensino em muitas das escolas das sociedades contemporâneas, sem desabar ou no discurso catastrófico do apocalipse escolar, nem nas piedades ingênuas das pedagogias redentoras, sem crucificar ou endeusar os professores ou transformar os alunos em estereótipos ou carne para canhão do politicamente correto. E sem esconder que ensinar pode por vezes parecer uma missão quase impossível, em face de quem não quer, não consegue ou resiste, com insolência e hostilidade, a ser ensinado. ENTRE LES MURS é um filme sobre cenas da luta na classe."




veja trailer do filme, aqui: http://www.youtube.com/watch?v=YD7CFS0mLaY

COISAS IMPORTANTES - 2ª EDIÇÃO DO MEU LIVRO E REVISTA ÉPOCA

Este sábado será um dia especial para mim. Receberei na minha casa a 2ª edição do meu livro, "Te Pego Lá Fora". Uma conquista. Pela maneira como ele foi criado, pelas alegrias - e tristezas - que ele me proporcionou. Por menos de nove meses depois (o livro foi lançado em junho do ano passado), quase 600 exemplares terem ido embora. Isso num trabalho de vendas de mano a mano, sem grandes propagandas, livrarias e outros estabelecimentos fixos para a venda. Conheci, ainda que de passagem, quase todas as pessoas que adquiriram o livro, diria que 70%, conversei com algumas delas, antes e depois e, para um autor, isso não tem preço.

O livro está igual: mesmo conteúdo, apresentação do Sérgio Vaz, etc, com uma única diferença: a capa. Não, não mudei a foto da capa - em que aparece uma sala de aula alagada depois de uma reforma de meio milhão de reais -, mudei o papel da capa, mais duro, mais firme. Mais especial, principalmente para mim.

Outra coisa importante é a matéria da Revista Época. Ainda não li a matéria, não sei o que irá sair, exatamente, mas estou botando fé e confiança na jornalista Ana Aranha. Menos por ser da revista Época (da editora Globo), mais, muito mais por ser amiga da jornalista Eliane Brum e por tê-la conhecido na Cooperifa. Boto fé por tudo isso. Talvez eu me engane, talvez não.

A matéria surgiu por conta do filme francês "Entre os Muros da Escola", indicado ao oscar de melhor filme estrangeiro neste ano - não levou a estatueta - e que estará nos cinemas aí, a partir da semana que vem, dia 13 de março. O filme fala sobre o cotidiano de uma escola pública na periferia de Paris, os conflitos entre alunos, professores, professores e alunos, entre outros, e foi baseado num livro, do mesmo professor que atua no filme - a ser lançado no Brasil pela editora Martins Fontes. Neste livro, o professor relata experiências de seu trabalho na escola.

Devido as semelhanças - o meu primeiro livro, de contos, aborda o cotidiano da escola pública na periferia de São Paulo -, o fato de sermos professores, a Ana convidou-me, eu e alguns alunos e uma outra professora, a participar de uma sessão fechada do filme para, depois, discutir sobre o mesmo e sobre a situação de nossa escola.

Eu não ia perder essa oportunidade por nada neste mundo. A minha briga sempre foi essa: mais espaço para a educação, mais espaço para a discussão, mais espaço para ações efetivas. E ponto. Quero melhorar a minha escola, quero melhorar o ensino público e gratuito, quero mudar a minha escola e não mudar da minha escola. Então, como disse, não ia perder esta oportunidade. Apesar da desconfiança em dar uma matéria para a Época - não confio muito na mídia gorda -, apesar da proibição da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, em não autorizar eu e os alunos a falar. Mas, tudo bem, eles podem me proibir de falar enquanto professor e em nome da escola, mas a Constituição Brasileira é soberana a qualquer Estatuto de funcionário e, enquanto cidadão, eu tenho direito de expressar a minha opinião, com responsabilidade, é claro. E o Estado não pode impedir que estudantes falem se os pais destes autorizam, como foi o caso.

Pois bem, assistimos o filme, conversamos sobre o mesmo, sobre a escola, as dificuldades, problemas, lutas e vitórias e, acho, a matéria ficará bacana. O processo, apesar de cansativo - principalmente as horas de entrevistas - foi muito bom, a Ana demonstrou ser uma jornalista competente, respeitosa e, mais importante para mim, os alunos ficaram bem satisfeitos.

Agora, é aguardar até amanhã para a chegada da 2ª edição do meu livro e a matéria da Época, abrir um guaraná e comemorar. Ainda que seja por um dia, afinal, ainda estamos no front.

Como diria o poeta Sérgio Vaz: "tamo junto, mas só com quem tá misturado!"

Aquele abraço,

R.C.

CONVITES

Pra não ficar sentado na poltrona no dia de Sábado e Domingo:

- Sábado, 07 de março, a partir das 07hs
Qualquer banca do Brasil
Matéria na revista Época

A convite da revista Época, eu e um grupo de estudantes fomos assistir ao filme "Entre os muros da Escola", indicado ao Oscar 2009 de melhor filme estrangeiro pela França, para debatermos algumas questões do filme e o atual cenário da educação na periferia paulista.


- Sábado, 07 de Março, as 10hs
Rua Barão de Limeira, em frente à Folha
PROTESTO CONTRA A FOLHA DE SÃO PAULO

Em 17 de fevereiro de 2009, em editorial do jornal, a Falha de S. Paulo chamou a Ditadura Militar Brasileira (1964-1985) de "ditabranda", comparada com outras ditaduras. Várias personas, entidades e jornais manifestaram repúdio a esta afirmação. Ato em frente a sede do jornal;


- Sábado, 07 de Março, a partir das 15hs
Concha Acústica, Santos - Canal 03, Posto 04
CHÁ NA CONCHA

Evento organizado pela galera da saúde mental da Baixada Santista, busca integrar pacientes, trabalhadores e a comunidade da baixada com música, informação, desenho, artes plásticas, sol, chuva e muita poesia.

- Domingo, 08 de março, 16hs
Livraria da Vila - Shopping Cidade Jardim
Companhia de fadas

A minha grande amiga Patrícia Rodrigues, educadora social, terapeuta ocupacional e contadora de histórias, convida para uma roda de "Contos de mulheres e suas aventuras", no dia Internacional da Mulher. Outras infos, acesse: companhiadefadas.blogspot.com

segunda-feira, março 02, 2009

AGUARDEM


600 foram poucos... Em breve, 2ª EDIÇÃO
Nova capa, mesmo conteúdo. Apenas R$ 15,00
Apresentação do Poeta
Sérgio Vaz

O POETA MANDOU CHAMAR

COOPERIFA LANÇA PROJETO "CINEMA NA LAJE"

A partir de março, a periferia de São Paulo vai ganhar uma sala de cinema ao ar livre, e na primeira e terceira segunda-feira do mês, a laje do Zé batidão, onde acontece há sete anos, o tradicional sarau da Cooperifa, vai virar o cinema Paradiso da Zona Sul paulistana.O Cinema na laje vai ser um espaço alternativo para exibição de filmes e documentários de todas as partes do Brasil e do mundo. E criado principalmente para dar vazão ao cinema produzido por jovens da região.Além dos filmes já estão agendadas algumas mostras, debates e visitas de alunos de escolas da região (no lançamento duas salas do CIEJA foram convidadas). A Exibição dos filmes é da PACO´S PRODUÇÕES.Para o lançamento do projeto teremos a exibição de dois documentários realizados na periferia :"Povo lindo, povo inteligente", de Sérgio Glagliardi e Maurício Falcão e a "A Ponte", de João Wainer e Roberto T. Oliveira.E para manter o velho charme do cinema antigo, um lanterninha foi contratado para que ninguém se perca no escurinho da laje, a entrada é franca e a pipoca é grátis...

CINEMA NA LAJE.
Dia 02 de março 20hs.
Cooperifa
Bar do Zé batidão
Rua Bartolomeu dos Santos, 797
Chácara Santana Zona Sul - São Paulo12o lugares
Infs. 72074748
http://www.colecionadordepedras.blogspot.com/

Primeira sessão:.“POVO LINDO, POVO INTELIGENTE ”
Sarau poético da Cooperifa que acontece há sete anos na periferia de São Paulo.O documentário “Povo lindo, povo inteligente!”, produzido e finalizado pela DGT Filmes em 2008, sem nenhum patrocínio, revela o poder de transformação do Sarau da Cooperifa que exerce sobre os participantes, além de lançar um olhar sobre momentos especialmente marcantes do sarau, no qual diferentes estilos e conteúdos se encontram com um invejável espírito democrático, permeado por qualidade literária e forte conteúdo emocional.

Direção: Sérgio Gagliardi e Mauricio FalcãoFotografia: Toni Nogueira, Mauricio Falcão, Badú Nogueira - Roteiro: Sérgio Gagliardi Produção Executiva: DGT Filmes
Duração: 50 minutos.

Segunda sessão: “A PONTE”
Documentário aponta soluções para a periferia de São Paulo. O rapper Mano Brown, a educadora Dagmar Garroux e o escritorFerréz convivem diariamente com as dificuldades da periferia de SãoPaulo. Cada um a seu modo, trazem uma bagagem de experiênciasque merece reflexão. É o que faz o documentário "A Ponte",produzido pelo Instituto Rukha e que foi exibido na TV Cultura no DiaMundial dos Direitos Humanos.

O filme, de 42 minutos, mostra a situação da desigualdade social naZona Sul de São Paulo por meio da figura de Dagmar Garroux,conhecida como Tia Dag. Ela é a fundadora de uma das mais exitosasexperiências de educação integral do Brasil, a Casa do Zezinho. A entidade trabalha desde 1994 com o desenvolvimento de crianças ejovens. No início eram 6 “Zezinhos”, hoje a Casa conta com mais de1200 crianças e jovens.
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Direção: Roberto T. Oliveira e João WainerTrilha sonora: DJ ZeGon (Zé Gonzalez) e Daniel Ganja Man (ColetivoInstituto)Duração: 42 minutos

DITABRANDA

Em recente editorial (17/02/09) criticando o governo Venezuelano de Hugo Chaves, a Falha de S. Paulo classificou o período do regime militar brasileiro (1964-1985) de "Ditabranda". Afora o desrespeito com a memória de milhares de vítimas do regime militar e com os sobreviventes, parece que a Falha quer, como sempre, manipular a história. Segue abaixo excelente charge de Carlos Latuff que eleva ao máximo a famosa frase: uma imagem vale por mil palavras.



domingo, março 01, 2009

PAGANDO PRA VER - conto

Consumo, consumo, consumo. A natureza buscando o equilíbrio, o ser humano o excesso. E consumo. A menininha descolada, lápis no olho, cabelo desfiado, diz que faz, sabe tudo, manda brasa e reclama. Super-engajada, usa Nike, toma Coca e vai no Mc Donalds toda semana. “Mc lanche Feliz, please”. E eu tentando lembrar quando começou essa zona. Mas a única imagem que vem na cabeça é a da destruição da Amazônia. Pode? Derrubar mata pra colocar pasto. Gado pra matança? Que desperdício. Fico pensando e me chamam de viado. Lesado, idiota. Onde já se viu, vinte e sete anos e gostar de história? Ser professor? “O senhor tem problema?” Todos, menino. Ganho pouco, trabalho muito, saco esgotado e ainda tenho que ouvir você pagar de gatinho. Mas não se preocupe. Pode ficar no seu mundinho. Doze anos e troca de celular toda semana. Pensa que é cueca é? Acha bonito pagar de bacana? Não esquenta. Vai ficar feito freada: tudo borradinho. Quando a mãe Terra vir cobrar o preço, vai sair caro. Não vai dar pra usar cartão, cheque especial nem o seu salário. É, daí eu quero ver. Momento raro. Você buscando no Google, Wikipédia e até nos livros que despreza quando foi que a bosta começou a feder. “Onde foi que erramos?”, vai ser a pergunta que procurará responder. E a verdade vai doer. Tanto que você, que sempre foi ateu, vai ajoelhar, louvar os santos e rezar pra Deus. Tsc, tsc, tsc, não, não. Faz isso não, filho. Deixa Ele de fora. Cê tá ligado, pagou pra ver. E tem mais: Deus, se existir, não tem nada a ver com isso.

CONVITE - CHÁ NA CONCHA - SANTOS/SP


outras informações, acesse:

http://www.de-lirio.blogspot.com/

quinta-feira, fevereiro 26, 2009

DESABAFO

"E tem mais: os tempos são de caretice, medo, pressão e falta de ousadia. Se você não está nada afim de achar um lugarzinho no rebanho, meu chapa, pode se preparar pra segurar a barra. Primeiro, vão tentar te ignorar. Depois, é capaz de te encherem de porrada. Então, mais do que nunca, é preciso vir com tudo." (do blog do Ademir Assunção)

"Ninguém tem o direito de aprisionar um pensamento, por mais vadio que ele seja." - Sérgio Vaz

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

FELIZ ANO NOVO

É isso. Agora começou o meu ano, extra-oficialmente.

Na verdade muita coisa já aconteceu neste ano de 2009. Eu não esperava um ano tão agitado na minha vida pessoal, profissional, familiar, etc.

Dei uma boa sacudida nas minhas bases, minhas estruturas. Muita bagagem desnecessária ficou pelo caminho. O que sobrou não foram sobras, apenas o essencial. E desta forma agora eu vou seguindo.

Passei meu carnaval descansando numa fazendo no interior de São Paulo. Foi muito bom. Depois de alguns anos, a família estava reunida novamente. Foi difícil chegar até aqui, mas que bom que chegamos.

A única coisa chata foi um pequeno acidente que aconteceu com uma sobrinha minha, uma de minhas filhas. Estava brincando com ela quando ela escorregou próximo a uma porta de vidro e esta se quebrou. Alguns estilhaços voaram no seu rosto, teve alguns cortes um pouco profundos, bem próximo do olho. Foi um desespero total, muito sangue escorrendo, parecia que havia pedaços do vidro ainda sob o rosto, hospital longe - estávamos no meio do mato - ela sobre o meu colo chorando, gritando... Foi difícil.

Mas está passando. Graças a Deus e seus anjos protetores não pegou no olho, levou poucos pontos e, com um pouquinho de descanso e juízo, as sequelas serão bem pequenas.

Já para mim, um mês sem álcool no sangue, nem chocolate. Promessas duras que a gente faz nos momentos de desespero.

Mas se tudo tem um lado bom e um ruim, o bom foi aquele para aproximar ainda mais as pessoas. Valorizar o que realmente importa, que não cabe no bolso nem em nenhuma conta de banco neste mundo.

Chegando agora, muita coisa junta ao mesmo tempo. Textos para escrever, pendengas para resolver, aulas para preparar. Amanhã começa mesmo as aulas. Semana passada foi só um aperitivo.

E no mais, até sexta-feira eu dou notícias de uma parada que estive fazendo por estes dias, junto à alguns alunos. Assuntos extra-escolares.

E vamos pra luta que a vida é igual andar de bicicleta: se parar você cai.

E eu já estava sentindo falta do blog. E desses outros agitos aí.

Mão na massa agora,

R.C.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

DE VOLTA PRA ATIVA

hoje foi o primeiro dia de aula com os alunos na escola. como é uma semana que antecede o carnaval, a movimentação na escola não foi das maiores, principalmente no período da manhã, que tem o pessoal do FUND. II (6ªs às 8ªs) e o Ensino Médio.

foi bacana a retomada com os alunos. conversamos bastante sobre as mudanças na escola, projetos e atividades, trabalhos. não sei, posso estar enganado, mas estou botando fé que esse ano, coisas boas virão - finalmente. vamos conseguir melhorar algumas coisas por lá.

pra começar, estou participando de uma parada aí que, neste primeiro momento não posso dar maiores informações. uma para não criar falsas expectativas, outra para não azedar o melado. mas é uma coisa bacana, envolve a mídia e os alunos. assim que tiver confirmado tudo, eu coloco todos os detalhes por aqui.

por enquanto, cansaço. primeiro dia de trampo puxado com os alunos, suga todas as energias. nada que uma boa noite de sono não resolva. além do mais, estava sentindo muita falta de tudo isso.

CONVITE - ELO DA CORRENTE

sábado, fevereiro 14, 2009

TE PEGO LÁ FORA - ÚLTIMOS EXEMPLARES

foto de capa: sala de aula alagada após reforma de MEIO MILHÃO de reais (R.C.)

caros, estou com apenas 50 exemplares do meu livro, o Te Pego Lá Fora. como eu ainda não resolvi se farei uma segunda edição - batalhar livro mano a mano é dureza - quem ainda não adquiriu, esta é a hora.

interessados enviem um emeio para rodrigociriaco@yahoo.com.br que eu passo as coordenadas para a aquisição do mesmo. relembrando que, quem adquirir o livro neste mês de fevereiro, sai de "grátis" a postagem via correio, certo?

e mais: na barra do blog, ao lado direito, tem alguns "contos aperitivos" para quem quiser conhecer o livro. ou então acesse o sítio das Edições Toró - http://www.edicoestoro.net/ e saiba mais, firma?

qualquer coisa, liga nóis aí.

abraço,

r.c.

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Te Pego Lá Fora é treze. O 13º título publicado pelas Edições Toró, o primeiro só de contos e o primeiro livro de autoria de Rodrigo Ciríaco, professor de História da rede pública estadual de ensino na Zona Leste, em São Paulo e integrante da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia). O livro conta com 25 contos que transpassam histórias de uma gente vivida e sofrida que ainda está nos bancos de classe da primeira série ou ainda não aprendeu a ler, na oitava.

Escritos de vingança, dor e justiça de alguém que não aceita perder alunos para o tráfico e para a miséria, ver o preconceito camuflado para baixo de carteiras e nem abaixa a cabeça para burocratas incompetentes e sistemas educacionais falidos. Escritos de revolta de alguém que não aceita a sua própria mediocridade. Escritos.

Textos ficcionais baseados em fatos reais. Um recorte da nossa deseducação, ilustrado com o trampo de Yili Rojas, apresentação de Sérgio Vaz e um pequeno caderno de fotos das entranhas do ensino. Diário de Escola com leituras proibidas para educastradores.

Te Pego Lá Fora
Rodrigo Ciríaco, Edições Toró, 2008
R$ 15,00 (Quinze reais)

APRENDIZADOS

Lembre-se: quando o bicho pegar, de verdade, você estará sozinho.

Até mesmo a sua família, seja a biológica – que a gente não escolhe – ou aquela outra, que a gente escolhe, a dos amigos, bem; até mesmo eles te abandonarão. Não perceberão o quanto você está chato, a flor da pele, sensível. Não perceberão o quanto você precisa de cuidados. Como um gato, você terá que lamber as suas próprias feridas.

Seja firme, seja forte. Não fique muito angustiado, não fique muito rancoroso. Tudo passa, e você superará isso. E ficará mais forte. E poderá aprender com isso.

Eu aprendi que as pessoas tem uma imagem muito deturpada da minha pessoa. Ou as pessoas tem a imagem exata de quem eu sou, mas que eu não sabia. As pessoas olham para mim e vêem sexo. Principalmente sexo. Acham que seu eu ligo para elas, se eu as convido para sair, para tomar uma cerveja, eu só tô querendo uma coisa: comê-las. Claro, isso é uma opinião majoritariamente das minhas amigas femininas. Mas entram alguns amigos no bolo.

Por estes dias falei com muita gente. Via fone, via MSN, via orkut. Pessoalmente. Revi muitas pessoas. E foi bom, foi ótimo. Pois estou passando por uma reestruturação na minha vida pessoal e sair do casulo para virar borboleta pode ser um processo lento, doloroso e extremamente difícil. Pelo menos está sendo para mim. Por isso, recorri a alguns amigos. Pessoas que eu não via há muito tempo.

Aqui eu percebi a minha falta com eles. Há tempos não saíamos juntos. Há tempos não nos falávamos. Há tempos eu – e é bom também deixar claro, eles e elas também – haviam deixado a amizade de lado, para cuidarmos de nossos interesses pessoais: namoros, trabalho. Principalmente estes dois.

Pois bem, depois de alguns aninhos longe de pessoas tão especiais, é quase um choque retomar um contato com estas pessoas. Para mim, soa até como interesse: “Ah, agora ele vem.” E de fato é interesse. Mas, quem é que não se relaciona com as pessoas por interesse? Claro, os interesses são diversos, outros mesquinhos, mas todos temos interesses em se relacionar com as pessoas. Nossos amigos são as pessoas mais interessantes, aquelas que conhecem fragmentos de nossa alma, tem a melhor palavra, o melhor ombro; são aqueles que tem o melhor consolo, ainda que seja um porrete – pois precisamos, vez ou outra, de alguém que nos dê uma paulada de realidade. E por isto, liguei para várias amigas e amigos.

Bom, alguns disseram que íamos sair no final de semana. Outros falaram que me ligariam. Uma pessoa certa que eu marquei, tive que desmarcar por conta da chuva e que eu precisei trocar os pneus do carro; tentei ligar e não consegui falar. E de repente eu me vi, no final da tarde de uma sexta-feira, desesperado para encontrar alguém, para sair com alguém, para nada mais: conversar, tomar uma cerveja. Minha alma está em pedaços e, eu estou precisando de companhia. Companhia: amizade, risadas, conselhos. Não sexo. Eu não quero sexo. Não agora, obrigado.

Mas, retomando a saga. Uma pessoa diz que não pode, vai sair com os amigos da facul. Outra diz que está no metrô, quando chegar em casa liga. Outra diz que tem um aniversário, não vai rolar. Outra (não mulheres, pessoas) não atende, outras dizem que não dá, outras dizem que estão com amigos em casa – e não me chamam – mas, qualquer coisa me liga. Vários, vários outras e outras não me atendem, não me retornam e eu, a estas horas andando pra baixo e pra cima em algum lugar de São Paulo, vou ficando cada vez mais sozinho.

Algo me diz para ir pra casa mas, outra coisa me diz para eu sair. Saia sozinho, vá se encontrar com você mesmo, sozinho. E eu fui.

E foi difícil passar uma noite de sexta-feira sozinho. As horas demoraram para passar. Mas depois que eu me acostumei comigo de novo, foi bom.

É chavão mas, é verdade: Antes só do que mal ou menos acompanhado.

Andei pela Augusta, fui na livraria Cultura, assisti um filme no Espaço Unibanco – com várias outras e outros sozinhos – comi um negócio, fiquei observando o fluxo tão diversificado de pessoas, fui para casa. Assisti TV, reli o conto “Dama da Noite” do Caio Fernando Abreu, extremamente propício para o momento e, fui dormir.

Só um adendo: quem não conhece este conto, deveria lê-lo. E fazer a sua opção: continuar ou não na roda gigante. Eu preferi sair, apesar de aqui do lado de fora, estar sentindo-me frio e solitário, e morrendo de inveja de quem está na roda gigante. Eu quero ficar aqui.

E hoje acordei melhor. Muito melhor. Pela primeira vez consegui acordar sem que a primeira coisa que viesse a minha cabeça fossem os meus problemas. Eu pensava na noite de ontem, nos amigos e amigas que me ignoraram, no filme, no livro. Em mim. E fiquei bem: consegui dar uma ajeitada na casa, varrer sala, corredor, cozinha; consegui lavar a louça, arrumar a bagunça de livros jogado pelo chão, pelo armário, pelo teto; por todos os cantos. Enfim, eu consegui ajeitar a minha casa. E isso é muito significativo para mim, pois primeiro: eu moro sozinho. Ou seja, se você não arrumar a sua bagunça, ninguém irá arrumar para você. E segundo, eu sou muito organizadinho, gosto das coisas ajeitadas, nos lugares e, se a minha casa não estiver organizada, significa que há algo de errado comigo. Ela é o meu espelho, a minha imagem objetiva e direta. Se ela está bagunçada, é porque eu estou bagunçado. E hoje eu consegui arrumar a minha casa. Ótimo.

E aos amigos e amigas que não me atenderam ontem, não falaram comigo, que estão correndo de mim, por motivos diversos: tudo bem, sem crises. Se vocês são meus amigos, realmente, terão outras chances de se reconciliarem, de me emprestarem um ombro, um estômago. Assim como eu estou tendo a chance agora, de começar de novo. E isso é ótimo.

Isso é estar vivo.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

JESUS CHOROU

Depois dizem que não há poesia no rap:

"O que é, o que é, clara e salgada
Cabe em um olho e pesa uma tonelada
Tem sabor de mar, pode ser discreta
Inquilina da dor, morada predileta
Na calada ela vem, refém da vingança
Irmã do desespero, rival da esperança
Pode ser causada por
Vermes e mundanas
E o espinho da flor cruel que você ama
Amante do drama, vem pra minha cama por querer
Sem me perguntar, me fez sofrer
E eu que me julguei forte, eu que me senti
Serei um fraco quando outras delas vir
Se o barato é lôco e o processo é lento
No momento, deixa eu caminhar contra o vento
De que adianta eu ser durão se o coração é vulnerável
O vento não, ele é suave
Mas é frio e implacável.
É quente, borrou a letra triste do poeta
Só... correu no rosto pardo do profeta
Verme sai da reta, a lágrima de um homem vai cair
Este é seu B.O. pra eternidade
Dizem que homem não chora? Tá bom, falou
Não vai pra grupo irmão, aí:
Jesus chorou (...)"

Racionais

terça-feira, fevereiro 10, 2009

DESEJO UMBILICAL


Eu queria me enfiar
No útero de minha mãe
Para não lembrar de sentir

Para não ter que esperar
A hora
Desta dor passar

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

RETORNO

férias é algo muito bom na vida de qualquer ser humano. dar um tempo no trabalho, dar um tempo nos problemas; dar um tempo na família para poder viver, de uma forma diferente. mas as férias são boas principalmente porque temos a chance de voltar. pelo menos eu penso assim.

hoje voltei as minhas atividades pedagógicas na escola. aula mesmo só a partir da próxima semana, no dia 16. por enquanto, vamos organizando calendários, planejamentos, pensando propostas atividades e por aí vai. eu estou no pique total.

e ao contrário dos anos anteriores, estou com uma boa expectativa este ano para a escola. nos anos anteriores eu sabia que estava em campo minado, em guerra, não podia marcar bobeira, não podia vacilar um segundo pois o inimigo estava logo ao lado, pronto pra me derrubar. agora não. estou mais relaxado. apostando novamente em alguns "novos" seres humanos. os adversários perderam a batalha e estamos trabalhando na reconstrução dos espaço. recontruir talvez seja mais difícil do que construir. reconstruir talvez seja mais difícil do que permanecer no front, dedo no gatilho a esmo demonstrando os erros dos outros. reconstruir é botar a bunda na janela, dar a cara a tapa. e eu estou a fim de expor os dois lados.

saudades dos meus alunos. saudades das minhas aulas. saudades de sentir o cheiro do front, a poeira da terra.

este é o ano da vitória. da continuidade da vitória. o ano de começar a colher os frutos daquilo que plantamos. espero não ter plantado vento. odeio colher tempestades.

bom, vamos dar tempo ao tempo. coisas boas virão. em breve.

r.c.

domingo, fevereiro 08, 2009

TABACARIA (TRECHO) - Álvaro de Campos

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

(...)

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas
-Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(...)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

(...)

quarta-feira, fevereiro 04, 2009

PARTIDA, PARTIDO


Muita vezes fazemos planos,
Sonhos, delírios, viagens
Nem nos damos conta que eles

Criam pernas
Criam braços
Criam asas

E partem
Na primeira fragata
Deixando-nos a beira da praia

Com a alma e o copo vazios
E os olhos mareados
A ver navios

PARAISÓPOLIS OCUPADA!


Eu Sou Favela
Seu Jorge

A favela nunca foi reduto de marginal
A favela nunca foi reduto de marginal

Ela só tem gente humilde Marginalizada
E essa verdade não sai no jornal

A favela é um problema social
A favela é um problema social

Sim mas eu sou favela
Posso falar de cadeira
Minha gente é trabalhadeira
Nunca teve assistência social
Ela só vive lá
Porque para o pobre, não tem outro jeito
Apenas só tem o direito
A salário de fome e uma vida normal.

A favela é um problema social
A favela é um problema social

sexta-feira, janeiro 30, 2009

AOS POVOS DA AMAZÔNIA - FSM 2009


OUTROS 500

O que chamam de descobrimento
Eu dou por invasão
O que chamam de conquista
Eu dou por destruição
O que chamam de encontro
Eu dou por extermínio
O que chamam de civilização
Eu dou por latrocínio
O que chamam de religião
Eu dou por uma desculpa
E o que chamam de tragédia
Eu dou por nossas vidas

quinta-feira, janeiro 29, 2009

VOLTA AS AULAS? TE PEGO LÁ FORA!


Te Pego Lá Fora é treze. O 13º título publicado pelas Edições Toró, o primeiro só de contos e o primeiro livro de autoria de Rodrigo Ciríaco, professor de História da rede pública estadual de ensino na Zona Leste, em São Paulo e integrante da Cooperifa (Cooperativa Cultural da Periferia). O livro conta com 25 contos que transpassam histórias de uma gente vivida e sofrida que ainda está nos bancos de classe da primeira série ou ainda não aprendeu a ler, na oitava.

Escritos de vingança, dor e justiça de alguém que não aceita perder alunos para o tráfico e para a miséria, ver o preconceito camuflado para baixo de carteiras e nem abaixa a cabeça para burocratas incompetentes e sistemas educacionais falidos. Contra tudo isto, usa a sua principal arma: a caneta.

Textos ficcionais baseados em fatos reais. Um recorte da nossa deseducação, ilustrado com o trampo de Yili Rojas, apresentação de Sérgio Vaz e um pequeno caderno de fotos das entranhas do ensino. Diário de Escola com leituras proibidas para educastradores.


Te Pego Lá Fora
Rodrigo Ciríaco, Edições Toró, 2008
R$ 15,00 (Quinze reais)

ATENÇÃO: APENAS neste mês de Fevereiro/09,
não será cobrada taxa de envio para aqueles que adquirirem o livro.

Compre já o seu!

quarta-feira, janeiro 28, 2009

INDICAÇÕES: EFEITO COLATERAL

car@s,

há tempos venho querendo organizar uma relação de filmes e livros favoritos. mais do que uma "dica orkutiana", estava tentando organizá-los com fins didáticos, pedagógicos. queria visualizar a relação de bons filmes que já havia assistido e que, num momento ou outro, poderia trabalhar com os alunos ou em outros espaços.

pois bem, a relação saiu neste final de semana e, como gosto de compartilhar coisas boas com as pessoas, coloquei a mesma aqui no blog. assim podemos trocar fichinhas: vocês podem dar uma olhada nos filmes e livros que assisti e li, assistí-los e lê-los caso não conheçam (RECOMENDO TODOS QUE ESTÃO NA LISTA, aliás, só coloquei os que recomendo) e melhor, você pode ajudar a aumentar a lista fazendo algumas indicações também.

achei a lista boa. nos filmes, apesar de predominar produções estadunidenses - fruto do imperialismo cultural dos USA - há indicações de muitos filmes e documentários nacionais, franceses, alemães, argentinos, espanhóis entre outros. e nos livros, vários sobre literatura, poesia (os "crássicos", os jurássicos e os da literatura periférica/marginal), além de títulos sobre educação e história.

fiquei satisfeito ao fazer a lista. as vezes não damos conta da bagagem cultural que vamos construindo ao longo de nossa vida; tá aí, uma parte dela.

e antes que perguntem: sim, só estou recomendando filmes e livros que já assisti ou li, ok?

no mais, prepare a sua pipoca e guaraná, chuva e sofá (ou outras boas combinações) e vá ver um filme, ler um lirvro, certo?

r.c.

terça-feira, janeiro 27, 2009

HOMENAGEM


O Bruno é um dos meus alunos/poetas/escritores que conheci pelas andanças na escola, nos saraus e atividades literárias que lá desenvolvo. Menino de ouro, super-aplicado, que lê muito e escreve também - inclusive eu já escrevi e publiquei aqui um conto em sua homenagem. Abaixo o poema que eu recebi, também como homenagem dele.

Obrigado, Bruno. Sem palavras. Ou melhor, com todas elas.


UMA HISTÓRIA NO MESQUITA
No começo eu não pensei em como seria recebido.
No começo eu não pensei em como minha vida ia mudar.
E mudar em muito.
Eu comecei com insegurança.
A inocência de uma criança.
Eu nem pensava em ter tantos amigos.
Mas graças a Deus eu tive poucos inimigos.
Eu não queria ser diferente.
Mas uma pessoa me mostrou que sou mais gente.
Eu conheci grandes poetas e escritores.
Já li romances e humores.
Tento mostrar o melhor de mim.
Mas me dei pouco e ganhei muito.
Já vi muita gente chora e muita gente sorrir.
Já vi gente chegar ao alto e muita gente cair.
Quantas vezes me apaixonei.
Quantas vezes eu já não quis ir já não quis aceitar.
Eu vou contando minha historia.
Recontando a minha gloria.
Eu sou apenas uma criança.
Mas tenho fé e esperança.
Eu não penso em desistir.
O que penso é em conseguir.
Já fiz poemas de igualdade.
Outros de desigualdade.
Não tenho muitos sonhos realizados.
Tao pouco realizamentos sonhados.
Eu pensava em ser alguem.
Mas hoje não quero ser ninguém.
Eu já percebi que não conseguirei ser tudo.
Mas percebi que muito menos serei o nada.
Nunca me apeguei tanto.
Nunca sorri tanto.
Nunca desisti.
Embora quase me fizessem fazer isso.
Me sinto tao forte.
Mas também me senti fraco precisando de ajuda .
Muita gente me acolheu.
Mas também muita gente precisou da minha acolhida.
Eu sofri.
Me dei muito.
Chorei bastante.
Senti falta.
Abracei menos.
Me mostrei muito.
Me fortaleci pouco.
Me ajudei menos ainda.
Não tive coragem de me enfrentar.
Tive medo de mim.
Sofri calado.
Morri desalmado precisei de um abraço.
Mas recusei o que eu recebi.
Me senti solitário.
Me senti muito acompanhado.
Apenas pelo destino.
Me julguei muito.
E muito julguei.
Me faltou palavras.
Me faltou pontapés.
Não tive respeito.
Não mereci respeito.
Me perguntei porque?
Mesmo sabendo que nem pra isso eu tinha resposta.
Não percebi o que eu estava causando.
Mas sofri muito com o que me causaram.
As vezes pensei que não valeu a pena.
Mas outras eu percebi faz parte da minha vida.
Não posso ficar só.
Com tanta companhia.
Preciso de alguem.
Pra me falar.
Pra me mostrar.
Pra me realizar.
Preciso de você.
E só uma coisa eu digo.
Você é eterno.
Eu faço parte de você.
Do mesmo jeito que você faz parte de mim.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

BRUXINHA* - NOVO CONTO


*Aos que foram: os oito da Candelária,
Os sete da chacina do Centro de São Paulo,
em Agosto de 2004.
Aos que foram nos outros dias,
À Bruxinha
E aos que ficam

Foi ali, meu fío. Foi naquela esqui’nali, do Centro de São Paulo, veja só, imagine! Na Praça do Correio, atropelarô a Bruxinha. Póde? Esmagarô o osso da cabeça, do peito, dos braço da coitadinha. Um ônibus assim ó: zoom! Acelerado. Um motorista apressado, veio subindo com roda, com raiva, com vontade, com tudo na calçada. Passano primeira as dianteira, depois as traseira e fez: tum! Aquele baque seco no meu peito, aquela queimação. Todo mundo parânu, as cara se horrorizanu, eu gritanu “Acode. Acode!”, mai ninguém ajudava, ninguém acudia a Bruxinha. Ela ficô foi sozinha, s’estribuchano, berrando suas última energia. Pió foi o cobradô, qui na hora botô a cara pra fora, olhô, falô: “- Pode ir, Zé. Foi nada não. Podi ir que era só uma cadela vadia”. É mole? Ele disse, eu ouvi: “- Era só uma cadela vadia.”

Não era isso não. Fazia cinco anos que ali ela vivia. Parada, pensativa, enfeitiçando a gente com as história, com as palavra. Pra maioria não cherava nem fidia, mas a gente dela gostava. Pra gente, pode iscrevê seu moço, era muito boa essa menina! Tinha seus setenta anos, bem da verdade, mas quando eu lembro daquele zóio se abrilhando na fogueira da noite escura, daquele sorriso lustrando os meus dias de chuva, eu só via era a menina. Não merecia isso não. Ser tratada como um trapo, como um bagaço fora do saco, sem consideração. Merecia?

E olhi, não foi a primeira. É como diz um meninote, que vive cantando aqui com a gente umas música com batidão forte: “O ser humano é descartável no Brasil. Feito modess usado, bombril.” Cê mi disculpe o palavreado, mas é assim mêmo. Quantos amigo que eu já não perdi nessas madrugada, com ou sem sereno? Joaquim, Pistolinha, Zélão. Dona Chica, Seu Madruga, Betão. Zé-da-pá, Maria, Manoel, Seu Augusto. De verdade, minha alma até sangra só de lembra de quem já foi. Imagina que a gente dorme e não sabe se vai acordá depois? Se vai vim algum covarde pra nus fazê barbaridade? Chegá na calada da noite pensando nas maldade? Numa paulada bem dada, num paralelepípedo jogado na cabeça só pra vê a miolada espalhada. É, tem uns que ateá fogo no lençol, nos colchão. Botá veneno e distribui as quentinha, pode acreditá, tem gente ruim nesse mundão. Já dizia o meu Jesus Cristo: “Não matarás, amarás teu próximo como a ti mesmo”. Mas ninguém escuta mais isso. Gente desajuizada do coração, qué matá só pra vê fazê careta durante o serviço. Acredita? Quando tem mais respeito, algum remorço guardado no peito, ainda chega, mete logo dois, três, tiro. É rápido, limpo, assunto resolvido. Pra gente e p´ros polícia, que esclarece tudo os crime de morador de rua assim, dizendo que foi acerto. “Era droga, era pinga, foi acerto.”

Assim qui é, meu fíi. Foi assim que foi. Os homi-da-lei chegando depois. Não inquirindo ninguém, não querendo dar nome aos bois. Fôro recolhenu o que tava restando da Bruxinha. Juntando os caco, jogando um balde d’água, um saco de pó de serra no chão. Fazendo com maior desgosto a sua profissão, com cara de pensando: é uma a menos. Doeu, meu fio, doeu. Porque ao contrário do que disse o cobradô, Bruxinha não era uma cadela não. Num tinha uma casa, num tinha posses, num tinha família, mas tinha um R.G. Crê meu fíi, acredita no que essa véia tá falando pr’ocê. Ela tinha R.G. Tinha número, data de nascimento, tinha nome de mãe. Tinha ela um nome: Dona Sebastiana. Esse era o verdadeiro nome da Bruxinha, minha amiga. Sebastiana, uma dama. Eu jamais vô misquecê.

terça-feira, janeiro 20, 2009

CONVITE - PROJETO SEMENTES


mais informações, acesse:

CONVITE- MEMORIAL DA RESISTÊNCIA

Car@s amig@s e companheir@s

No próximo dia 24 de janeiro será inaugurado o Memorial da Resistência, objeto de muita luta e insistência dos ex-presos políticos de São Paulo. Não será uma simples reinauguração do mesmo espaço, mas a instalação pública de um projeto museólogo criativo e marcante do período de ditaduras em nosso país.

O velho prédio do Largo General Osório, que foi sede de estação ferroviária e do antigo DEOPS/SP, passou por uma cruel descaracterização. Foram destruídas duas celas e o Fundão (antigas celas fortes solitárias), todo o espaço recebeu pinturas modernosas, foram destruídos os infectos banheiros e rasparam as paredes onde estavam inscrições feitas por gerações de presos políticos das várias ditaduras e períodos de repressão do movimento operário e popular do Brasil.

Com um toque de ironia, o lugar maquiado recebeu o nome de Memorial da Liberdade como forma de apagar a Resistência e a determinação de milhares de combatentes, que nunca aceitaram a opressão das classes dominantes e seus instrumentos ditatoriais.

Vários ex-presos políticos e pessoas sensíveis à História lutaram pela reconstituição daquele lugar como marco de lutas contra as ditaduras e começaram por exigir a mudança de nome para Memorial da Resistência, pois ali havia Resistência e nenhuma Liberdade.

O atual governo estadual aceitou a visão dos militantes do Fórum Permanente dos ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo e fez a mudança do nome e uma significativa reforma para devolver um aspecto semelhante ao que era originalmente. Foram instalados vários equipamentos audio-visuais que permitem ao visitante saber o que foi aquele lugar e as tantas barbaridades cometidas contra nosso povo e seus mais destacados militantes.

Uma das celas foi reconstituída para mostrar as condições de vida dos presos e, para não esconder as torturas e assassinatos cometidos pelos carrascos, os equipamentos mostram depoimentos de pessoas que por lá passaram.

Desde o ano passado o Fórum dos ex-Presos Políticos realiza no auditório daquele prédio palestras e debates para jovens e todas as pessoas interessadas. São os Sábados Resistentes, que reuniu uma média de 70 pessoas por evento.

A inauguração do novo Memorial da Resistência, marca o início de várias atividades que, ao longo do ano o Fórum vai desenvolver para marcar, entre outras datas:

- Os 30 anos da Lei da Anistia;
- Os 40 anos sem Marighella;
- Os 30 anos sem Santo Dias da Silva;
- Os 40 anos da morte do Almirante Negro, João Candido;
- Os 45 anos do Golpe de 1964;
- Os 40 anos da criação da infame OBAN.

Durante o ano todo vamos continuar lutando pela Memória, Justiça e Verdade, para que nunca mais se repitam os horrores da ditadura.

Ajude a divulgar esta mensagem e vamos todos nos encontrar para continuar nossa luta pela Verdade e relembrar que somos Pela Vida, Pela Paz: Tortura, Nunca Mais!

Data: dia 24 de janeiro de 2009
Hora:
11 horas
Local: Memorial da Resistência (Estação Pinacoteca - Largo General Osório, 66)
Estacionamento no local


O novo Memorial da Resistência quer mostrar que a Humanidade foi mais forte, derrotou a opressão, a tortura e a barbárie.

Mais importante que tudo é passar para as novas gerações a certeza de que vale a pena lutar por Liberdade, Justiça e por uma Sociedade Justa e Igualitária.

Contamos com sua presença e participação!

Raphael Martinelli, Maurice Politi e Ivan Seixas
Fórum Permanente dos ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo

segunda-feira, janeiro 19, 2009

COLABORE COM A REVISTA OCAS


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outras informações, acesse:

http://www.blogdaocas.blogspot.com/

DE VOLTA PRO FRONT

salve, povo.

estes dias o blog ficou sem atualização pois quinta-feira eu fui pra baixada. curtir um pouco do sol, curtir um pouco de tânia (domingo fizemos cinco(!) anos de namoro) e curtir um pouco mais dos últimos momentos da casinha onde ela estava morando. explico: ela recebeu uma nova proposta de emprego, num caps em guarulhos e, como não dará para conciliar os dois e em santos tava osso, ela está voltando para sampa/guarulhos.

logo mais, coloco atualizações de algumas coisas importantes que acontecerão por estes dias, semanas.

no mais, saúde, paz, coragem e resistência.

abraço,

r.c.

quinta-feira, janeiro 15, 2009

SOLIDARIEDADE AOS CICLISTAS


CICLISTAS VÃO FAZER DOIS ATOS EM PROTESTO À MORTE NO TRÂNSITO

para mais informações, acesse:
ou

NOITE DOS ANCESTRAIS

o que mais é possível para ser feito dentro de um Sarau? melhor ainda, o que mais é possível ser feito dentro do sarau da cooperifa? lembrando vagamente, já temos o Ajoelhaço, o Poesia no Ar, Prêmio, entre outros pequenos eventos que transformam e enriquecem quartafeiramente o cotidiano do sarau.

mas num desses lances irados de zagueiro, na qual São Pedro deu uma entrada dura em São Paulo, o mundo desabou na cidade. para se ter idéia, a caminho do Sarau, percorrendo mais de 50 (isso mesmo, cinquenta) quilômetros saindo do Cangaíba, atravessando as duas marginais - Tietê e Pinheiros - eu peguei chuva forte, de ponta a ponta. não conseguia ultrapassar os sessenta quilômetros por hora, na pista expressa. várias poças d'água fizeram o carro, por várias vezes, quase aquaplanar. e eu ali, tenso, com um olho no peixe (a pista) e outro no gato (o rio), que parecia não parar mais de crescer.

para ter idéia do que foi o estrago da entrada do Pedrão em Sampa, quando voltei para casa, as duas da madruga, estava praticamente um cenário de guerra aqui no Cambuci/Ipiranga: vários desvios, lama, árvores derrubadas; bombeiros e funcionários da CET trabalhando.

tudo isso para dar uma idéia do que foi ontem a noite de Sampa, e para falar do Sarau. porque quando eu subi a ladeira da Piraporinha, estava tudo escuro. tudo. só não estava breu por conta da lua, teimosa, que por inveja do sol insistia em iluminar a noite. cheguei ao sarau, estacionei o carro e fui.

tudo apagado. luz de velas. estávamos sem energ.... ops! sem energia não. quem estava lá estava com uma energia da porra. além da vela, dava para ver as almas brilhando, os sorrisos iluminando os espaço, abraços abrindo brilhos, brechas de luz, além dos flashs das máquinas, é claro.

e para quem achou que não ia ter sarau, ele começou assim, a luz de velas. um sarau de velas, sem microfone, sem tecnologia. como faziam nossos ancestrais africanos, indígenas: uma fogueira no centro, olhares atentos ao redor e o silêncio, em respeito a palavra. o silêncio.

ontem foi o sarau mais silencioso da qual eu já participei, em qualquer lugar. o mais. ouvia-se nitidamente o gotejar da chuva sobre a laje, o vento zunindo entre as folhas das árvores, e a palavra declamada dos poetas. só. ontem, o silêncio foi uma prece, foi canto, foi pura poesia.

ontem foi o sarau da noite de gaza. muito axé e muita luta para a família palestina. muito desejo de vivência, de resistência. muitos votos de paz, acrescidos de justiça, é claro.

com certeza, o sarau de ontem está entre os mais belos que eu já participei.

o que mais a cooperifa pode fazer?

não sei. mas Sérgião, com certeza o "sarau de velas" tem que estar dentro dos eventos oficiais da cooperifa. talvez como ontem, na abertura do ano do sarau. para mim, coincidências não existem. e o cara lá de cima já tinha deixado marcado na sua ocupada agenda mais este evento. e com certeza ele participou. senti várias vezes ele ali, declamando, dizendo: estou presente.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

NO PASARÁN

*fotos do blog Brechó do Carioca
Um juiz me diz:
Minha casa não pode ser morada
Minha terra não me tem valentia
Ela foi vendida
Para grilos de uma gaveta
Ela foi tomada
Para os homens da lei
Do mais forte.
Um coronel re-fala:
A reintegração precisa ser cumprida
A posse está marcada
A ferro, fogo e brasa.
Eles enviam homens
Escopetas, chicotes e escudos
- nada me protege -
Gritos de luta
Querem antecipar o meu luto.
Não vão conseguir.
Suspiro e clamo para o céu
Uma água clara e salgada
Banha o meu rosto
A mensagem foi dada:
Resiste. Resiste,
Esta é tua terra,
Esta é tua serra, este é o teu chão.
Resiste.
Numa mão, seguro firme a minha espada
Enquanto lembro de Jorge
Enquanto sinto o bafo quente do dragão
Assoprando a minha nuca.
Repenso um dito de minha vó:
Resiste, mia fia
Faiz tempo, sabemos
O primeiro rabudo caído
Não será o último
Prepara-te!
Outros virão.
Resiste.
Fortaleço-me.
Noutra mão, suspiros de um pequeno coração
Pede proteção sobre meu braço. Ele baqueia.
Meu filho tem uma ano e alguns meses
Meu filho tem um desafio pela frente
Meu filho tem medo
Ele não quer perder a casa
Ele não quer perder a terra
Ele não quer perder a mãe
Ele não conhece - ainda -
A história de Jorge, sua espada
A determinação de Jorge
Contra o dragão.
Aperto-o contra o meu peito
Transmito o que resta de minha calma
O que sobra de minha exígua força num sussurro
Poderosa canção de ninar
Que se inicia dizendo:
"Mi hijo, no te preocupes
Ellos no pasan
Hoy, ellos no pasarán..."

PUNHETAGEM (EXTRA) ACADÊMICA

No dia 01 de dezembro de 2008, publiquei neste blog um texto chamado "Questões sobre Educação"(você pode lê-lo novamente acessando o "Receituário - Arquivo", localizado do lado direito), na qual eu falava sobre um pequeno incidente que tivera com um universitário, fazia algumas considerações sobre o mesmo e sobre os "universitários" - talvez um tanto generalista - e publicava uma entrevista feita comigo, sobre a Educação.

Estou retomando o assunto desta postagem pois, até hoje, nenhum outro assunto sobre a qual eu falei rendeu tanto pano para a manga - e olha que já publiquei um livro em que critiquei abertamente o sistema de ensino público estadual de São Paulo! Entre comentários feitos na própria postagens e emails recebidos na minha caixa pessoal, muitas pessoas escreveram: anônimos, conhecidos, universitários que trabalharam comigo ou me conheceram, amigos. Aliás, por conta deste texto, pelo dito e pelo não dito, criei certas inimizades, me afastei de alguns valorosos amigos.

Do escrito, me arrependo de duas coisas: 1) eu não deveria ter dito "universitários", de maneira generalista, mas devia ter usado antes, o termo "alguns universitários". Talvez isto tivesse aplacado a ira de algumas pessoas que sentiram-se ofendidas e, 2) deveria ter deixado mais claro que, dos assuntos abordados na entrevista, aquelas não eram idéias exclusivamente minhas, mas idéias compartilhadas de um grupo de amigos professores de escolas públicas que há mais de um ano (excluindo o tempo de universidade) se reuniam e dialogavam sobre as questões pertinentes à educação.

Do escrito, me arrependo apenas disto. Só isto.

Não voltaria atrás em nada do que falei, não voltaria atrás na publicação das idéias. Aquilo foi feito em um momento de indignação e, indignação esta que ainda persiste. Não contra a Acadameia apenas, contra a idéia do que é e para que serve a universidade, mas abertamente contra a postura de pessoas que ocupam este espaço, com a falta de compromisso com o Público, seja na questão do uso do dinheiro, seja na questão do trato com as pessoas.

Eu não tenho nada contra a Academia. Muito do que sou hoje, seja bom, seja ruim, deve-se a minha vivência dentro dela. Foi lá que cresci como homem, como ser humano, foi lá que formei-me dentro de uma profissão; foi lá que tive um crescimento no meu aprendizado e na minha militância política e ideológica e, mais importante de tudo, foi lá que conheci maravilhosas pessoas e fiz importantes amigos.

Mas a Academia, a Universidade existe, para mim e, salvo engano, quando foi criada, para ajudar a pensar a sociedade. Para ajudar a construir uma vida social mais justa, mais equilibrada. Criamos pensadores, pagamos com o nosso suado dinheiro para que eles reflitam, teorizem e nos retornem com algo prático, aplicável e sustentável em nosso dia-a-dia. A teoria que leva a prática, que retorna a teoria, que nos reconduz a prática, num eterno ciclo.

Acontece que, infelizmente, há muito tempo, em diversos setores desta Instituição, através do papel protagonizado por seus atores - reitores, docentes, discentes - isto não acontece. A Academia literalmente se fecha dentro dos seus muros, vai a estratosfera analisando as suas teorias, enquanto nós, meros mortais ficamos apenas se fudendo e sendo subjulgados a seres incapacitados de entender a sua complexa dinâmica de funcionamento. Isto eu não aceito, não admito.

Nunca me esqueço do ano de 2003, estava no meu quarto ano do curso de história da USP, na disciplina "História Oral", quando tinhamos de desenvolver um projeto de pesquisa. Por se tratar de um projeto de história oral, não iríamos trabalhar apenas com fontes documentais, mas com pessoas, seres humanos. Iríamos dialogar com elas, nos abrigar dentro de suas vidas, conhecer as suas histórias, conviver com elas durante um tempo. Tudo isto me parecia muito interessante, muito enriquecedor enquanto projeto de vida pessoal e projeto de pesquisa mas, uma pulga me coçava atrás da orelha: qual seria o meu retorno para esta pessoa, o que eu daria, em troca de enchição de saco, perguntas indiscretas e tempo trocado? O que eu acrescentaria ao meu "objeto" de estudo?

Levei tamanhas indignações a pessoa que orientava o meu trabalho e, lembro-me bem, fiquei embasbacado, com cara de tacho caído no chão, quando a pessoa, tranquilamente respondeu as minhas inquietações: "Nada. Não há nada o que fazer. Funciona assim."

Eu não aceitei. Por não achar moralmente correto, por não ver nisso o papel da Universidade dentro da sociedade. Fiz o meu trabalho, ficou muito bom por sinal, tirei um 8,5 e, durante muito tempo, matutei para responder a minha inquietação de como eu devolveria, como eu responderia as pessoas que tanto me ajudaram para a minha formação acadêmica, em especial nesta disciplina. E encontrei. O que fiz? Trabalhei.

O trabalho foi sobre pessoas em situação de rua. O meu "objeto" de estudo foi o Sr. Augusto, um dos vendedores da revista Ocas". E como retribuição militei durante três anos como voluntário do projeto, lutando pela causa das pessoas em situação de rua, sendo um pau-pra-qualquer-obra: varri o chão, fiz divulgação em albergues, cadastro e treinamento de novos vendedores nas ruas, fotógrafo, jornalista, cozinheiro, educador na "oficina de criação", diretor de projetos e, mais ainda, fiz amigos. Hoje, apesar de afastado, acompanho ativamente a discussão sobre a questão das leis envolvendo este setor da população, a violência - cada vez mais crescente contra ela -, o assistencialismo, o preconceito, o papel das ong's e por aí vai.

Acredito que o trabalho de três anos foi suficiente como "retorno" ao auxílio que eu tive do meu "objeto" de estudo. Acredito que eu paguei a minha dívida. E, acredito, ao contrário do conselho que havia recebido, que algum retorno é possível, sim. E necessário.

Quero voltar a estudar dentro da Universidade. Quero voltar a adentrar aqueles muros de concreto e de pensamento. Quero discutir com meus pares e ímpares. E quero, acima de tudo, respeito dos meus ex-e-futuros-colegas-universitários respeito e mais consideração no trato com as pessoas, inclusive com a minha. Pois eu não vou deixar de fazer as minhas observações, não vou deixar de falar, comentar e criticar, ainda que seja restrito apenas à este blog. Não vou deixar de cobrar o papel da Universidade, e mais: não apenas da Instituição em si, pois ela é apenas um prédio com portas, janelas, cadeiras, carteiras e muito livros dentro. A minha cobrança incindirá sobre as pessoas que a movem e a movimentam.

Voltando ao assunto daqueles que ficaram incomodados com as minhas críticas, vou relatar um episódio. Certa vez, nos idos finais do ano de 2005, na Casa de Oração do Povo da Rua, o diretor Sérgio Bianchi apresentou o filme "Quanto vale ou é por quilo?", na qual faz uma crítica aguda e visceral contra as Ong´s. Ele estava presente na exibição e, ao final, abriu espaços para comentários, críticas sobre o filme. Eu, na época, voluntário da revista Ocas" (uma ong) e educador social do Travessia - que desenvolve projetos de educação com crianças em situação de rua - (uma outra ong), fiquei indignado com aquelas críticas. Achei o filme generalista demais e - pensava - não retratava ou distorcia o papel que as Ong's tinham e sua importância dentro da sociedade. Pior: desmerecia o papel das pessoas (quase "santos") que trabalhavam nas ong's. Relatei esse sentimento, misto de indignação, ao Sérgio, que me respondeu:

- Se você não se identifica com eles, não se sinta ofendido.

Pois bem, digo mesmo aos universitários que ficaram ofendidos: se você não se identifica com a crítica, não se sinta ofendido, nem por ser um universitário.

Nem todo mundo mundo é perfeito.

Nem eu!

Rodrigo Ciríaco

terça-feira, janeiro 13, 2009

LAMENTÁVEL E (TAMBÉM) INACEITÁVEL

Mapa da distribuição da Cólera pelo Mundo. Detalhe: doença afeta apenas os "países em desenvolvimento"

Mortes por cólera no Zimbábue ultrapassam 2 mil, diz OMS
Por Nelson Banya
HARARE (Reuters) - A epidemia de cólera no Zimbábue matou mais de 2 mil pessoas e infectou quase 40 mil, informou a Organização Mundial de Saúde (OMS) na terça-feira.

A epidemia agrava a crise humanitária no país, onde o presidente Robert Mugabe e a oposição vivem um impasse sobre um acordo de compartilhamento de poder, e o líder veterano resiste aos pedidos do Ocidente para que deixe o poder.
Uma atualização com data de 12 de janeiro indicou que 2.024 pessoas morreram de cólera, de um total de 39.806 casos.

A doença, que causa diarréia severa e desidratação, disseminou-se por todas as 10 províncias do Zimbábue em razão do colapso dos sistemas de saúde e de saneamento básico. A OMS diz que 89 por cento dos 62 distritos do país foram afetados.
O governo do Zimbábue advertiu que a epidemia poderia se agravar na época das chuvas, cujo auge ocorre em janeiro ou fevereiro e acaba no fim de março. As enchentes, que em geral atingem as áreas mais baixas do país, são capazes de aumentar a disseminação da doença.
A cólera também se espalhou para vizinhos do Zimbábue, com ao menos 13 mortes e 1.419 casos registrados na África do Sul.
Botsuana, Moçambique e Zâmbia também registraram casos da doença.
O grupo Médicos para os Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos, pediu que o governo do Zimbábue entregue o controle dos serviços de saúde, fornecimento de água, saneamento e vigilância epidemiológica para uma agência designada pela Organização das Nações Unidas (ONU) a fim de tentar abrandar a crise.
O grupo disse que o Conselho de Segurança da ONU deveria emitir uma resolução citando a crise no Zimbábue para que ela seja investigada pela Corte Criminal Internacional.
Milhões de zimbabuanos têm fugido para países vizinhos à medida que a crise se agrava, em busca de trabalho, melhores condições de vida e, mais recentemente, tratamento médico.


Sobre o Zimbábue, breve pesquisa:
"O país apresenta a maior taxa de inflação do planeta. Em fevereiro de 2007 foi registrada uma inflação anualizada de aproximadamente 1730%. Dados governamentais de junho de 2007 já apontam uma inflação de 4500%, embora especialistas afirmem que ela já chegou a aproximadamente 100000%. Em julho de 2008 a inflação oficial chegou a 2.200.000% ao ano, mas estatísticas extra-oficiais indicam uma inflação real de 9.000.000% ao ano[1].

A hiperinflação vem destruindo a economia do país, arrasando com o setor produtivo. Uma medida governamental congelou os preços, causando desabastecimento, fortalecimento do mercado negro e prisão de comerciantes contrários à medida[2].

A economia do Zimbábwe, que já foi um dos países mais prósperos da África meridional, encontra-se imerso desde 2000 em uma profunda crise, além da hiperinflação, há um alto índice de desemprego, pobreza e uma crônica escassez de combustíveis, alimentos e moedas estrangeiras."

STOP THE WAR


Enquanto o mundo tapa
As bombas com peneira
Não há gaze que estanque
O sangue da estreita
Faixa de Gaza

segunda-feira, janeiro 12, 2009

ALGUMAS NOTÍCIAS

observando a movimentação deste blog, as pessoas conseguem ter uma breve noção do que estou fazendo por estes dias: nada. absolutamente nada. ou melhor, nada é algo muito generalista, não diz muita coisa, não diz a real. quando digo "não estou fazendo nada", traduza-se, não estou fazendo nada ligado ao trabalho, ao meu emprego. ou talvez esteja. fato é que por estes dias estou descansando, lendo, assistindo filmes, tocando um violão. estas coisas que só me fazem bem.

passo por aqui quase todos os dias. leio as notícias, atualizo-me nos blogs e, vou-me embora para algum lugar que não é pasargada - se soubesse onde fica, lá estaria junto ao Bandeira. não estou postando nada por falta de assunto, por falta de escrita. estou num processo de reclusão voluntária, na qual estou desvelando algumas coisas íntimas, profundas do meu ser. estas viagens são um tanto quanto difíceis, um tanto quanto chatas, mas fecundas pois sempre voltamos modificados delas. se bem que as transformações nem sempre são para melhor.

há tempos não produzo nada, literariamente falando. e sinto falta. sinto falta de ter algo a dizer, sinto falta de ter algo a escrever, algo importante para falar, algo que transforme a vida, nem que seja apenas a minha. é que a minha escrita sempre foi muito baseada mais no meu emocional do que no imaginário, mais na raiva do que na criação. claro que a criação é fundamental mas, o pontapé inicial sempre foi a raiva, a dor aguda no estômago, a falta de ar. a partir daí, tudo surgia, tudo se transformava. mas nestes dias de marasmo interior - "socorro, não estou sentindo nada..." como produzir, como criar, como escrever?

estou lendo bastante. algumas coisinhas aqui de João Antônio, outras acolá de Plínio Marcos. textos muito importantes de Affonso Romano de Sant'Anna (não conhece? putz, tá perdendo muita coisa boa cara). tudo isso para me ajudar a escrever mas também para aliviar-me. se desejo ser um bom escritor, antes de tudo preciso ser um excelente leitor. para mim isso é básico.

ah, sobre a suposta "crise" de produção, ela ficou mais sossegada depois de descobrir que João Antônio ficou doze anos (12 anos!) sem publicar nada depois do lançamento do seu primeiro livro, Malagueta, Perus e Bacanaço. não quero ficar tanto tempo sem publicar uma obra mas saber que um escritor do quilate de João pode ficar tanto tempo assim, sem publicar nada, e quando o faz, faz coisas maravilhosas (como o é o Leão-de-Chácara, seu segundo livro) dá um alívio danado.

pois bem, pra fechar, vou publicar algumas coisinhas que julgo muito importante - para mim e para quem quer ser poeta, ou escritor, ou os dois, se for capaz - e cabem ser publicadas neste humilde blog. todas são super-importantes e, antes de se excluirem, se complementam:

"entendo que poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de contato com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser à mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos." (CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE)

"se um atleta trabalha seus músculos diariamente, se um laboratorista fica atento diante do microscópio, se um piloto tem que acompanhar e manipular instrumentos de navegação, por que a poesia não exigiria contínuo trabalho e observação?" (AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA)

"Até diria que uma coisa é estar artista e outra é ser artista. Pode uma pessoa numa determinada circunstância ou período de sua vida, eventualmente, estar em condições tais que suas emoções se precipitem em determinadas formas de expressão. É como se tivesse se conectado com forças e energias que a ultrapassam e a resgatam. Mas uma coisa é a capacidade de fazer algo razoavelmente bem feito num determinado instante. Outra é comprometer-se com um projeto onde vida-e-obra se confundem. É como se tivéssemos achado umas pepitas de ouro na superfície de um terreno. Mas a riqueza está no fundo e exige paciência, técnica e aprofundamento. E é aqui que muitos embatucam, porque achavam que bastava balançar a árvore dourada e os frutos cairiam aos seus pés de Midas. Ao contrário, daqui para frente é que o desafio vai começar. Agora é que há que atravessar o deserto por quarenta anos e cultivá-lo “como um pomar às avessas”. É como se alguém tivesse as ferramentas, alguns tijolos e pedras: resta uma construção por fazer. Cadê o projeto? E a construção é aquilo que se constrói enquanto se constrói. Sendo a obra de arte, segundo Joyce, uma obra-em-progresso, como diria o nosso Rosa, é travessia. Por isto, as pessoas que têm alguns dos atributos necessários para se tornarem artistas, num determinado instante encontram-se naquela situação que a antropologia chama de situações limites. Há um ritual a cumprir para se passar de um estágio a outro. Ultrapassar essa linha divisória entre o amadorismo e o profissionalismo, entre o episódico e o sistemático, entre o aleatório e um projeto estético-existencial, eis o desafio. E nisto, de novo, há uma pesada solidão. Solidão dificil de ser compartilhada. Tenho dito a algumas dessas pessoas que surpreendi na soleira desse rito de iniciação: agora depende de você. De você e de uma série de fatores aleatórios. Pois assim como o criador tem que cavar no escuro de si mesmo a sua pretensa riqueza, entrar no sistema literário e artístico é entrar numa selva escura. Talentos podem se perder, ou terem seu percurso mutilado, enquanto outros são espantosamente superestimados." (AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA)

"fui percebendo que só se pode fazer arte se for com pele, vísceras, arrebatando o interior. percebi também que eu tinha um tema - a malandragem (...) o homem precisa ter alguma grandeza, tem de ter um momento de Homem pelo menos. meu único medo é passar pelas coisas e não vê-las." (JOÃO ANTÔNIO)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

CORAÇÃO DE MÃE

*foto retirada do blog do Poeta
A dor no peito
Não cabe na fala
Não cabe na vala
É como bala
Certeira em Matheus

Simplesmente mata!
Deixando o real no chão
O sonho na padaria
A face salgada
E o coração
Vazio