sexta-feira, junho 26, 2009

E AÍ, VAI ENCARAR


Sarau Rap, Ação Educativa, Ontem

Formação de Quadrilh... Ôpa! Salve Família!

Foto: Sérgio Vaz

"O CARA!"


não vou falar da morte do michael. já falei agora, mas não vou falar mais. não que não mereça importância. mais pelo o que fez do que era nos últimos anos. mas não vou falar porque já tem muita gente falando. e eu prefiro celebrar a vida. então eu vou falar do meu amigo e poeta Sérgio Vaz. o cara está fazendo aniversário hoje. motor 4.5. ou se preferir, final dos quarenta e cinco do primeiro tempo. ainda virá o segundo. e como o Poeta é difícil de dobrar, neste jogo teremos 30 minutos de prorrogação e penalidades. é isso mêmo rapá. porque esse é o Poeta. depois do Sarau Rap, na Ação Educativa, fomos bebericar as palavras e comemorar: eu, Gaspar (Z'África), Jairo (Periafricania), Márcio Batista e o Poeta. viramos o relógio da quinta pra sexta e, depois que deu meia-noite eu fui o primeiro a cumprimentar o Sérgio. puta privilégio. e estou saudando-o aqui novamento. Vaz: tu é o cara. Te Amo mer'mão, sem frescura. de coração. se precisar, tâmo aqui pro que der e vier. e aviso: quem não gostar do cara não precisa gostar de mim. porque nóis tâmo junto e misturado. até o osso. e ontem foi um dia lôco. o que tá mais fresco aqui na memória é o papo da mesa. a literatura, a música, as histórias, sofrimentos, batalhas e lutas de cada um. ninguém se engane: nada foi de graça. também não foi necessário nenhuma desgraça, tipo passar por cima de alguém. não, foi na responsa. na verdade. e eu, como bom aprendiz, mais escutei e aprendi do que falei. tenho sorte por ser contemporâneo destes caras. por trocar palavras, idéias. valeu, rápa. mas estou feliz pois ontem também foi um dia importante no teatro da escola. isso, da minha escola. escolhemos os textos, as peças, para trabalho no segundo semestre. não quero adiantar nada pra não chamar um zóio grande, tipo "seca pimenteira", mas agora eu iniciei um processo que não tem mais volta. e eu não sei onde vai dar. e estou com um medinho, uma friaca do caralho na barriga. não sei se terei sucesso, sei lá se esta é a palavra mais adequada. mais estou fazendo. estou seguindo. no mais, é isso. e Poeta, feliz aniversário de novo. lembro que em um dos momentos do papo, o Jairo perguntou quem é o cara mais lôco, mais ponta-firme que eu queria conhecer na contemporaneidade. e eu só quero dizer que, de verdade, não preciso conhecer mais ninguém. quem eu queria eu já conheço. é você. ou melhor: são vocês. é a família Cooperifa. Súmemo, vagabundo. Salve pra nóis.
R.C.

segunda-feira, junho 22, 2009

"NADA DO QUE É HUMANO ME É ESTRANHO"

Mas foi um pouco. E até agora eu não consegui ignorar. Deixar de pensar. Na sala dos professores, um professor me disse: "Eu vou me matar". Uma voz baixa, contida. Totalmente racional. Ele não gritou, não quis chamar atenção, fazer escândalo. Era apenas eu e ele na sala dos professores. E me disse, sereno, firme: "Cara, eu vou me matar". E eu não soube o que dizer. Apenas perguntei: "Por quê?"

Foi a melhor pergunta, a melhor frase para a afirmação dele? Eu não sei. Sinceramente, não sou a melhor pessoa para ele dizer isso. Se é que ele esperava algo do tipo: "Cara, não faz isso. A vida é boa." Não, não acho a vida boa. A vida é foda. Fudida, e cheia de sofrimento. Somos todos uns fudidos. Penso isso. Vejo isso. Talvez eu tenha uma visão deturpada das coisas. Por isso eu só consegui perguntar: "Por quê?"

"Tô cansado", ele falou. "Cansado de ser pobre, cansado de me ferrar. É a sina da minha família as pessoas se matarem, ja foram três". Uma mão sobre a mesa, a outra despencando no braço. A cabeça balançando levemente, pra cima e pra baixo. Os olhos baixos, derrotados. E eu não soube o que dizer. Talvez faltou apenas a minha sinceridade em falar: "Amigo, eu entendo". De verdade, eu entendo.

Eu estava de saída. Ele quase de entrada. Ia para a 5ªB. Ainda bem. Fosse a 5ªD, eu temeria. De hoje não passaria. Nesta classe, ninguém consegue trabalhar. Ninguém. A não ser que seja, quase, na base da porrada. Mas aí não é mais educação. Nem aula. É barbárie total. Máquina de moer gente. E tenha certeza: você sai arrebentado.

É demais, galera. A escola está matando muita gente. E não é uma morte abstrata, dizer que sem a Educação os jovens vão para o crime, para as drogas ou qualquer estatística. Aqui não se trata de números, mas de pessoas. Pessoas que eu olho nos olhos, aperto as mãos, digo: "adeus".

Foi o que ele me disse. "Se souber de algo, não se surpreenda." E, de verdade, talvez eu não fique surpreso. Talvez apenas mais revoltado, ou depressivo. Por que estamos nesta situação? Como chegamos ao fundo deste poço? Eu sei. Um pouco eu sei. E por isso que eu prossigo. Por isso que eu arranco forças de onde não tenho mais. Para revidar, para me vingar. Também quero socar, bater, chega só de apanhar. "Não se surpreenda", ele disse. Tudo bem, camarada. Mas se decidir ficar, estamos juntos na parada. Se decidir ir, tudo bem. Já disse alguém, e eu concordo: "Nada do que é humano me é estranho". Eu vou entender...

TEXTO PARA A OCAS"

há uns dois meses atrás, o amigo, ex-companheiro de trabalho voluntário na oficina de criação da ocas" e atual editor da revista, o márcio, pediu que eu escrevesse um texto para falar sobre educação. o meu trabalho e projetos na escola. pedido muito legal, mas que veio na hora errada. minha maré andava baixa por conta de problemas pessoais, profissionais, e outros ais que só fuderam com a minha estima e, me travaram. eu não conseguia escrever. quem acompanha o blog percebeu que ele sofreu da mesma crise de abstinência de palavras

quando tive coragem de voltar a raspar os dedos no teclado, as idéias ainda estavam confusas. ainda estão pra falar a verdade. a única diferença daquele momento anterior, é que hoje estou seguindo a vida. tocando os projetos, trabalhando e fazendo, dentro do que é possível. e daí eu escrevi um texto pra ocas". um não, mas uns três, quatro, cinco! nada de produção excessiva, é que eu sinceramente não gostava das coisas que escrevia.

mas escrevi. depois, deixei lá para esperar. algumas vezes eu gosto de escrever e deixar o texto parado, para ver se amadurece. para ver se não apodrece cedo demais. dos cinco, escolhi três. enviei dois. o márcio (ufa!), escolheu um. sairá na seção "Cranianas", da próxima edição da revista Ocas" - se não conhece ainda o projeto, não sabe do que estou falando, clique no link do lado direito indicado no blog, nas "contra-indicações". o outro, não escolhido, estou publicando aqui. afinal, foram algumas horinhas gastas encima dele e, apesar de também acabar preferindo o outro, acho que este é, ao menos, publicável no meu blog. segue ele:


RICO GOSTA DE ESCOLA PÚBLICA, SIM

Você já viu, que absurdo? Dizer que rico não tem coração, não se preocupa com o nosso ensino público! Rico gosta de escola pública, sim.

Rico gosta de escola pública, sim. Principalmente se for empreiteiro, engenheiro, empresário. Grande escritório na Paulista, Berrini ou no Centro, funcionando a qualquer horário. Concorrer a licitações, vencer, apresentar o valor mais alto e prestar o serviço mais baixo. Excelente relação custo-benefício. Anotar a troca de duzentas telhas quando se pinta o telhado. Reformar doze salas com uma mão de cimentado. Modernizar toda a fiação elétrica colocando só o cano de proteção. Isso é verdade mer’mão. Pode ir lá, ver no meu trabalho. Rico dá um duro danado, sim.

Rico gosta de escola pública, sim. Principalmente se for dono de editora. Sabe, aquela famosa? Do contrato com o Estado, sem licitação, pra construir uma Nova Escola? Aquela que vai despachar todos os livros didáticos, paradidáticos revistas? Todo o lixo que estiver encalhado, será levado. Os governos são os principais compradores de livros. Ótimos clientes. E não interessa se serão lidos. Se o conteúdo para o terceiro aninho for pornográfico. Se serão encaixotados, fechados, trancados a sete chaves dentro de armários com medo de que sejam roubados. Não é problema do editor, ele é um bem-feitor. Já vendeu todo o seu estoque, já foi à desforra. Rico não gosta de dar pouca coisa de esmola. Se for pra se meter, tem que ser muito dinheiro. Rico se compromete com a escola, sim.

Rico gosta de escola pública, sim. Principalmente se for médico, banqueiro, advogado. Ele tem o profundo, o sincero desejo de transformar a Educação. Principalmente em época de eleição. Vai deixar o cargo privado e vai revirar o Estado. Vai ser político. Vai prometer mais escolas, menos alunos por sala, aumento para professores. E vai cumprir: olha lá a matrícula do filho dele no colégio pré-pago. Investimento pesado na publicidade e propaganda quando for falar do seu trabalho. Uma mentira dita mil vezes se torna verdade, disse alguém. Pois então, ele vai cumprir tudo muito bem. Se sobrar um tempinho, abre até uma nova organização. Afinal, somos ou não somos todos pela educação? Rico gosta de aos pobres dar atenção. Rico se preocupa com a escola pública, sim.

Rico gosta de escola pública, sim. Principalmente se for diretor. Vai deixar a sala de aula, vai deixar a sala de direção e ficar em casa, no computador. Ele precisa garantir o emprego. De ator. Aparecer uma vez por semana e mostrar o quanto suou. Se o diretor trabalhar, o que vai sobrar para os outros. O que vai sobrar para o vice, coordenador, professor? Diretor é cargo sem importância, não precisa fazer nada. Basta gabaritar o livro-de-ponto no fim do mês e pronto, simples operação pra não configurar abandono. Serviço concluído.

Rico gosta de escola pública, sim. Principalmente se for professor. Sim, tem alguns. Safados. Tiram licença no serviço público, um, dois, dez meses ganhando na boa o salário no colégio privado. Professor ganha pouco, isso é fato, precisa de um outro emprego. Ninguém gosta de ser sacaneado. Então, haja atestado. Mas não se preocupe, ele volta no final do ano. Precisa receber o bônus, quem sabe não está na época de tirar licença-premium.

Rico gosta de escola pública, sim. E pra falar a verdade, eu tô achando que até o pobre gosta. O empregado, o trabalhador. Que não percebe que a escola é uma extensão da luta de classes. Não percebe a batalha diária travada na sala de aula. Ou se percebe, não dá bola. O que acontece com esses pais que não vão a escola? Não se unem, não botam a boca no trombone para exigir melhores condições educativas, pedagógicas? Não se pode esperar que um sindicato de professores mude toda a Educação. Não, a maior parte dos meus camaradas estão preocupados só com a corporação. É preciso entender isso. Não dá mais para aceitar essa situação.

De alunos sem escola. Alunos que entram na unidade e ficam cabulando da primeira a última aula. Alunos que entram em sala para ficar cinco, seis, sete e mais anos sem ser alfabetizado. O adolescente já fez quinze anos, não sabe ler e escrever, você não imagina o resultado. Ser nota dez em matéria de sexo e tráfico. Para onde ele vai? Primeiro pro corredor. Depois pátio, mundão, Fundação Casa e caixão. Esse é o caminho. Da frustração. O sentimento de enganação, que eu sinto. Todos os dias pensar: o que estou fazendo aqui, enganando esses meninos? Você não sabe. A raiva, a revolta. Quando o moleque te zoa, não faz nada, não aprende e vai pro outro ano, mesmo sem nota. Quando você chama os pais e eles não aparecem. Nem parece que a educação do filho é uma coisa que se aprece. Quando você pede ajuda, solidariedade, colaboração e se percebe sozinho. Quando o Governo do Estado diz que faz tudo o que é possível e que está revolucionando o ensino. E nós engolimos. Se não, por que temos há quase dezesseis anos aí, o mesmo partido?

Mas afinal de contas, o que estou esperando? A revolução? Não! Os ricos, eu já disse, fazem muita coisa pela nossa Educação. E mudança, transformação, esperança são palavras que, parecem, não cabem mais dentro de um ambiente educativo.

domingo, junho 21, 2009

HAIKAIS

ultimamente estou buscando novas fontes de leitura. na verdade, novas referências. as fontes são clássicas. já muito faladas. curiosas na minha memória. sexta-feira eu cheguei até elas. a primeira, Alice Ruiz. comprei o seu livro, "dois em um", antologia de seus poemas. depois dela, parti para procura de Leminsky, na net. vários haikais. muito bons. demais. deu vontade de escrever alguns. não conheço ainda a estrutura. se possui uma. fui mais na intuição. o importante é que me diverti demais fazendo. e a minha felicidade, não tem preço. compartilho então com vocês alguns. se puder, diga aí o que achou:

1-5-7

ele pediu
eu não dei
na calçada fiquei

*

sepulto a jato

lavou o carro
e morreu
de sede

*

viveu remando contra
a maré
morreu afogado

*

21/6

cortou feito
navalha na carne
assassino: frio

SÓ PARA LEMBRAR

Enquanto não vem a Cooperifa na quarta, a Flip em Parati

Você compra o "Te Pego Lá Fora" por aqui:

rodrigociriaco@yahoo.com.br

Te Pego Lá Fora

- contos sobre a escola -

Edições Toró, 2008

2ª edição - R$ 15,00

sábado, junho 20, 2009

É MURICY! É MURICY!

Não falo muito, mas sou um cara apaixonado por futebol. Novidade num país como o nosso. Mas é verdade. Gosto mesmo. Não sou fanático. São Paulino de coração e opção. Mas gosto de assistir um bom jogo. Não importa o time. Exemplo: Corinthians e Inter na quarta-feira foi um jogaço. Dos dois lados. Prefira que tivesse dado Colorado mas, não dá pra negar: o jogo foi bonito.

E tudo isso pra lamentar a saída do Muricy Ramalho do meu time. Não tem ninguém a altura dele no momento pra substituí-lo. Ninguém. "Ah, mas o cara perdeu o Paulistão, a Libertadores." Não interessa. Não é só culpa dele. O elenco estava limitado e tal. Ceni fora. Nenhum meia de destaque. Hernanes é volante, não é meia. Tá, o Muriçoca talvez tenha errado algumas coisas. Mas é a cara do São Paulo. Se a década de noventa foi Telê Santana, a década 10 é Muricy.

É, Muricy. Já deixa saudades.

"ENTÃO É VERDADE, NO BRASIL É DURO SER NEGRO?"

car@s

a jornalista e amiga Eliane Brum repassou este texto e pediu divulgação. aqui está.

“Então é verdade, no Brasil é duro ser negro?”

A mais importante atriz de Moçambique diz ter sofrido discriminação racial em São Paulo

Fazia tempo que eu não sentia tanta vergonha. Terminava a entrevista com a bela Lucrécia Paco, a maior atriz moçambicana, no início da tarde desta sexta-feira, 19/6, quando fiz aquela pergunta clássica, que sempre parece obrigatória quando entrevistamos algum negro no Brasil ou fora dele. “Você já sofreu discriminação por ser negra?”. Eu imaginava que sim. Afinal, Lucrécia nasceu antes da independência de Moçambique e viaja com suas peças teatrais pelo mundo inteiro. Eu só não imaginava a resposta: “Sim. Ontem”.

Lucrécia falou com ênfase. E com dor. “Aqui?”, eu perguntei, num tom mais alto que o habitual. “Sim, no Shopping Paulista, quando estava na fila da casa de câmbio trocando meus últimos dólares”, contou. “Como assim?”, perguntei, sentindo meu rosto ficar vermelho.

Ela estava na fila da casa de câmbio, quando a mulher da frente, branca, loira, se virou para ela: “Ai, minha bolsa”, apertando a bolsa contra o corpo. Lucrécia levou um susto. Ela estava longe, pensando na timbila, um instrumento tradicional moçambicano, semelhante a um xilofone, que a acompanha na peça que estreará nesta sexta-feira e ainda não havia chegado a São Paulo. Imaginou que havia encostado, sem querer, na bolsa da mulher. “Desculpa, eu nem percebi”, disse.

A mulher tornou-se ainda mais agressiva. “Ah, agora diz que tocou sem querer?”, ironizou. “Pois eu vou chamar os seguranças, vou chamar a polícia de imigração.” Lucrécia conta que se sentiu muito humilhada, que parecia que a estavam despindo diante de todos. Mas reagiu. “Pois a senhora saiba que eu não sou imigrante. Nem quero ser. E saiba também que os brasileiros estão chegando aos milhares para trabalhar nas obras de Moçambique e nós os recebemos de braços abertos.”

A mulher continuou resmungando. Um segurança apareceu na porta. Lucrécia trocou seus dólares e foi embora. Mal, muito mal. Seus colegas moçambicanos, que a esperavam do lado de fora, disseram que era para esquecer. Nenhum deles sabia que no Brasil o racismo é crime inafiançável. Como poderiam?

Lucrécia não consegue esquecer. “Não pude dormir à noite, fiquei muito mal”, diz. “Comecei a ficar paranoica, a ver sinais de discriminação no restaurante, em todo o lugar que ia. E eu não quero isso pra mim.” Em seus 39 anos de vida dura, num país que foi colônia portuguesa até 1975 e, depois, devastado por 20 anos de guerra civil, Lucrécia nunca tinha passado por nada assim. “Eu nunca fui discriminada dessa maneira”, diz. “Dá uma dor na gente. ”

Ela veio ao Brasil a convite do Itaú Cultural, que realiza até 26 de junho, em São Paulo, o Antídoto – Seminário Internacional de Ações Culturais em Zonas de Conflito. Lucrécia apresentará de hoje a domingo (19 a 22/6), sempre às 20h, a peça Mulher Asfalto. Nela, interpreta uma prostituta que, diante de seu corpo violado de todas as formas, só tem a palavra para se manter viva.

Lucrécia e o autor do texto, Alain-Kamal Martial, estavam em Madagáscar, em 2005, quando assistiram, impotentes, uma prostituta ser brutalmente espancada por um policial nas ruas da capital, Antananarivo. A mulher caía no chão e se levantava. Caía de novo e mais uma vez se levantava. Caía e se levantava sem deixar de falar. Isso se repetiu até que nem mesmo eles puderam continuar assistindo. “Era a palavra que a fazia levantar”, diz Lucrécia. “Sua voz a manteve viva.” Foi assim que surgiu o texto, como uma forma de romper a impotência e levar aquela voz simbólica para os palcos do mundo.

Mais tarde, em 2007, Lucrécia montou o atual espetáculo quando uma quadrilha de traficantes de meninas foi desbaratada em Moçambique. Eles sequestravam crianças e as levavam à África do Sul. Uma menina morreu depois de ser violada de todas as maneiras com uma chave de fenda. Lucrécia sentiu-se novamente confrontada. E montou o Mulher Asfalto.

Não poderia imaginar que também ela se sentiria violada e impotente, quase sem voz, diante da cliente de um shopping em um outro continente, na cidade mais rica e moderna do Brasil. Nesta manhã de sexta-feira, Lucrécia estava abatida, esquecendo palavras. Trocou o horário da entrevista, depois errou o local. Lucrécia não está bem. E vai precisar de toda a sua voz – e de todas as palavras – para encarnar sua personagem nesta noite de estréia.

“Fiquei pensando”, me disse. “Será que então é verdade? Que no Brasil é difícil ser negro? Que a vida é muito dura para um preto no Brasil?” Eu fiquei muda. A vergonha arrancou a minha voz.

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI78162-15228,00-ENTAO+E+VERDADE+NO+BRASIL+E+DURO+SER+NEGRO.html

ERA UMA VEZ

- Muié, cê viu os livro que as minina receberam?

- Absurdo né, Maria. Saiu até no jornal, na TV.

- A sorte é que a Janaína que tá na terceira série ainda não sabe lê. Mai sabe que por um lado foi bom, ela queria ver onde tava o palavrão, as coisa toda lá...

- A Priscila também não entendeu nada. Falando nela: ô minina, dá pra abaixar esse som aí!

- Ai, mãe. Tá bom, tá bom. Vô cantá baixinho: "Queima de estoque, fogão na promoção… Escolhi da marca Dako porque Dako é bom… Dako é bom… Dako é bom… Calma minha gente é só marca do fogão… Dako é bom… Dako é bom".

- Óia lá. Dança que é uma graça.

- Vai sê artista essa guria...

DESAVISO

Não sou um poeta
Eu sou uma farsa
E como farsante
Conto verdadeiras histórias
Escrevo poemas
Pra castigar a memória
Glorifico os vencidos
Para macular a vitória
Não sou um poeta
Eu sou uma farsa!

Não sou um poeta
Eu sou uma farsa
Preocupa-me sim
A rima, a métrica,
O verso, a técnica, a palavra,
Mas preocupa-me mesmo
É o SUJEITO!
Por ele até abdico
Da suposta pretensão de ser poeta
E me contento apenas com isso,
Com a farsa.

Não sou um poeta
Eu sou uma farsa
E como farsante, eu sou exigente!
Não quero saber do escritor, do poeta
Que não concilie sua palavra com a prática
Que não seja o artista-cidadão
Que ignore os preconceitos, a desigualdade,
A Ética, o Amor.
Não quero saber do escritor, do poeta
Que decrete o Fim da História,
Do meu Idealismo e de todas as
Ideologias.

Sem isso, o que sobra é punhetagem!
Nem o poeta
Nem a farsa.

sexta-feira, junho 19, 2009

PARA PENSAR. SEMPRE.


“A educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens. A educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las de nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos, e tampouco arrancar de suas mãos a oportunidade de empreender alguma coisa nova e imprevista para nós, preparando-as em vez disso com antecedência para a tarefa de renovar um mundo comum.”

Hannah Arendt

quarta-feira, junho 17, 2009

O QUE FAZER?

Não é depressão, é uma constatação. É história. Nós falhamos. Ontem, hoje, até amanhã possivelmente. Qualquer perspectiva de ter a Educação enquanto meio de provocar mudanças, garantia de direitos e melhorias da sociedade é falsa. É uma farsa. Preciso dizer: nós não estamos educando nossas crianças, gente. Não mesmo. Não de maneira efetiva, não da maneira necessária. Nós estamos falhando. É assim que eu sinto, principalmente na escola. Quando eu vejo aqueles cinco, seis, dez, quinze alunos fora da sala desde a primeira aula. Quando eu tenho uma turma com trinta e cinco alunos, passo exercícios e, pelo menos vinte e cinco não acompanham. Eu consigo: colocar cinco ao redor da minha mesa, ler letra por letra, palavra por palavra, tento ensinar a ler uma linha, uma frase, interpretar o texto. E os outros vinte, como ficam. Agora, humilhação maior foi ontem. Havia dezesseis alunos dentro de uma sala. Outros quinze estavam por aí, pela escola, pelos corredores. E eu não consegui dar aula, sabe por quê? Porque tinha um barulho excessivo do lado de fora. Gente gritando, gente dançando música, gente quase lá trepando. E eu, gastando a minha voz boa que hoje está rouca, rouca, para que os alunos me ouvissem. Para que não se ligassem no funk, na bunda, no pinto e na buceta presente nas músicas. Não quero defender o Estado, mas eu nem disse nada sobre a parada dos livros didáticos pois achei pura hipocrisia. Claro, o Governo de São Paulo é estúpido por fazer o que fez. Mas a sociedade é mais estúpida ainda por fingir-se de atônita com a "pornografia, os palavrões". Ah, faça-me o favor, há quanto tempo estas pessoas não pisam na escola? Hoje em dia, infelizmente, essa molecada aprende a falar pinto antes de dizer pai, que muitas vezes não o conhecem. Aprender a dizer maconha antes de dizer mamãe, e por aí vai. Mas voltando, dezesseis alunos na sala, e eu não consegui dar aula. Sabe por quê? Estava tentando ler um texto. Mas dos dezesseis, pelo menos seis NÃO SABIAM LER. E aí, o que fazer? Será que alguém agora compartilha da minha angústia? Ela não é depressiva, ela é constatativa: nós estamos falhando. Todos os dias, quando entro em sala de aula, eu acho que estou enganando. A mim mesmo, aos meus alunos, aqueles que dizem que eu sou um bom professor. Eu sou tudo na escola, "cuidador" de criança, "tomador" de conta de sala de aula, menos professor. Por favor, não me chame assim. Ser professor, eu acho, deve ser algo um pouco maior e transformador do que isso. Agora, por que eu fico? Porque apesar de tudo, estando ruim ou não, alguém tem que fazer o trabalho sujo, tem ou não tem? Prefiro que seja eu, também, ao invés de muitos outros podres profissionais que, assim como eu não fazem nada, mas pensam que estão fazendo demais. Aí é que mora o perigo.

segunda-feira, junho 15, 2009

RENASCENDO DAS CINZAS

Alguns me perguntam como eu estou, por onde tenho andado. Agora estou melhor. Tenho andado por aqui, em ziguezague no corredor da minha casa (apê), enclausurado sobre o sofá da minha sala. A minha porta de entrada é a minha prisão, e não há saída. Por dias estive dentro de um casulo sem ver luz, sem sentir quase o ar, sem perceber os sinais e os toques das pessoas. Os toques dos meus dedos sobre o teclado. Nem me lembro a última vez que escrevi - algo que eu realmente gostasse. Mas estou melhorando. Digo: estou saindo do casulo. Há ainda uma espécie de musgo, uma gosma sobre mim. Não quer desgrudar, mas estou me libertando. Quem sabe logo mais não viro borboleta e saio por aí voando. Não sei. Tenho mais tendência para morcego. Beber sangue, voar na jugular. E quer saber: tô com uma sede danada...

BREJO DA CRUZ - CHICO BUARQUE

foto: Sebastião Salgado

A novidade
Que tem no Brejo da Cruz
É a criançada
Se alimentar de luz
Alucinados
Meninos ficando azuis
E desencarnando
Lá no Brejo da Cruz
Eletrizados
Cruzam os céus do Brasil
Na rodoviária
Assumem formas mil
Uns vendem fumo
Tem uns que viram Jesus
Muito sanfoneiro
Cego tocando blues
Uns têm saudade
E dançam maracatus
Uns atiram pedra
Outros passeiam nus
Mas há milhões desses seres
Que se disfarçam tão bem
Que ninguém pergunta
De onde essa gente vem
São jardineiros
Guardas-noturnos, casais
São passageiros
Bombeiros e babás
Já nem se lembram
Que existe um Brejo da Cruz
Que eram crianças
E que comiam luz
São faxineiros
Balançam nas construções
São bilheteiras
Baleiros e garçons
Já nem se lembram
Que existe um Brejo da Cruz
Que eram crianças
E que comiam luz

RIBEIRÃO PRETO

APÓS FAZER 9,5ºC, HOMEM PODE TER MORRIDO DE FRIO

O aposentado José de Paula Rodrigues, 59, morador de rua, foi encontrado morto ontem num terreno baldio em Ribeirão Preto (314 km de São Paulo). Segundo o prontuário elaborado pela emergência, que constatou a morte do homem na UBDS (Unidade Básica Distrital de Saúde) Central, a causa pode ter sido o frio - a temperatura chegou a 9,5C às 7h. Rodrigues foi encontrado por volta das 8h. O laudo sobre a causa da morte ficará pronto em até 30 dias.

Retirado da Folha de S.Paulo, segunda-feira, 15 de julho de 2009

domingo, junho 07, 2009

TE PEGO LÁ FORA - UM ANO!


Quarta-feira, 11 de junho de 2008. Há exato um ano atrás, eu lançava o meu primeiro livro: o "Te Pego Lá Fora", pelas edições Toró.

De lá pra cá, muita coisa mudou. E nada mudou. Do muito que mudou, foi eu. Da minha ingenuidade. Dos medos, receios. De achar que a publicação de um livro poderia fazer a diferença para a Educação. De que as pessoas iriam se incomodar, discutir. De que abriria novas janelas para o diálogo, para a mudança.

Que nada. Nada mudou. Ou pouco, que ficou até imperceptível. A nossa educação pública ainda está uma bosta. O governo fazendo cada vez mais cagadas. A mídia e a sociedade ignorando. Os profissionais que aguentam ficar na escola, sofrendo. E os alunos? Não sei o que será do futuro dos alunos.

Mas ainda assim, valeu. Se tivesse que fazer, faria tudo de novo. Tentaria fazer melhor. Pois o livro foi importante, em primeiro lugar, para mim (isso já deveria bastar, não?). Para eu não enlouquecer. Para manter um pouco da chama, da vontade de permanecer, de lutar. Se bem que ultimamente ela está falhando. Cansa dar murro em ponta de faca.

De qualquer forma, o livro está aí. Nas ruas. Em algumas escolas. Centenas ainda em casa, devido a 2ª edição. Acabei de pagar anteontem a última parcela da gráfica. Agora, é batalhar pra vender, pra repor o tutu, porque a conta tá em sinal vermelho, faz tempo.

No mais, agradecimentos, novamente à todos que me apoiaram. Ao Silvio Diogo, ao Allan da Rosa, o Mateus Subverso. A Yili pelas ilustras; A Dinha, Sacola e a Lu pelos toques. À Marcelino Freire, pelas dicas, pelas leituras dos textos. Ao Poeta, Sérgio Vaz, pela linda apresentação - ele diz que é uma das mais bonitas que ele fez, e eu concordo. E a Cooperifa, por ser escola, de literatura, de vida. Por ser exemplo.

No mais, estamos na luta. Algumas vezes firmes que nem prego na gelatina, mas prosseguindo.

Salve.

R.C.

HOSPITAL DA GENTE

Ontem eu vi
Crianças que nunca viram teatro
A primeira peça assistir
Ontem, eu vi
Gestos dizendo “Da hora!”
A menina limpando o rosto que chora
Flores plantadas no jardim
Ontem, eu vi
Que entre o discurso
Cabe a prática
Que entre as falas
Cabem gritos, risadas
Que mesmo numa vida sofrida
Cabe ainda a Vida: ensaiada, encenada,
Aplaudida, de pé
Por aqueles que não deveriam
Insistir, existir...
“Êita, pôxa!”
Ontem, eu vi

VISITA AO ESPAÇO CLARIÔ

E ontem aconteceu a visita da minha turma de teatro da escola às meninas (e ao Mário e o Alexandre) do Grupo Clariô de Teatro, no espaço do grupo em Taboão da Serra, onde é encenada a peça Hospital da Gente.

A nossa visita atrasou um 'cadinho, porque a molecada precisa ainda aprender a ter bom-senso-de-horário, mas nada que atrapalhasse o grupo e a peça, que aconteceu maravilhosamente sem maiores imprevistos, principalmente o da chuva.

Eu, que já havia assistido a peça uma outra vez, aproveitei também para ficar observando as expressões faciais, corporais dos meus alunos. O espanto, as risadas, as provocações, os choros. Tinham vários ali que nunca tinham assistido uma peça, e pegar pela frente logo as meninas do Clariô fazendo os textos do Marcelino, não é qualquer coisa. É emoção puro-sangue.

No final, fizemos uma roda de conversa, bem rápida, pois o Grupo ainda iria apresentar o espetáculo das 21hs. Presenteamos o grupo com algumas rosas, desenhos e bombons, o que foi pouco para compensar tamanha generosidade do pessoal em nos receber, fora de horário e sem cobrar nada, diga-se de passagem. Mas é o que foi possível da gente dar - já que o dinheiro da Van que nos levou saiu do nosso bolso - mas tenham certeza: foi de coração. Um tiquim do coração de todos.

Ao grupo Clariô de Teatro, mais uma vez: obrigado, obrigado, muito obrigado. O tamanho do impacto do trabalho de vocês, da apresentação que fizeram pra nós, a gente mostra quando formos apresentar a nossa peça. Oxalá que seja assim.

Merda pra tod@s nós.

R.C.

P.S.: E quem ainda não viu, crie vergonha na cara, dê um pulinho em Taboão da Serra que fica logo ali, viu seu preguiçoso, e assista a peça das meninas, do Mário e do Alexandre. É bom demais... e não é só eu que acho não. São várias pessoas. É Marcelino Freire. É a Companhia Paulista de Teatro, que no ano passado, presenteou o grupo com três prêmios: Melhor Ocupação de Espaço, Grupo Revelação e Melhor Espetáculo. Tá esperando o quê, mer'mão, mir'mã? Outras informações, acesse direto o blog do Grupo Clariô, veja fotos, veja o trailer:

http://www.espacoclario.blogspot.com/

sábado, junho 06, 2009

FOTOS - ENCONTRO COM MARCELINO FREIRE

O cabra fala pelas mãos

e recebe atenção

mulherada dominando o encontro

cara feia aqui é fome (os alunos comeram todas as bolachas, Marcelino só viu foi o pacote - rs)

mas também há bons sorrisos

essa corrente é difícil de quebrar

Bruna e Vanessa fazendo "Linha do Tiro"

Marcelli em "We speak english"

Deborah - "Mãe, eu quero ser Xuxa. Mas minha filha..."

Bianca, pendurando roupas no varal de "Darluz"

Atanilo - "A ponte e o horizonte"

Jéssica - "O rim é meu ou não é?"

A galera, em pose de "time de futebol"

LITERATURA (É) POSSÍVEL

Ontem foi dia de mais um encontro do projeto "Literatura (é) Possível". Pra quem não lembra ou não sabe, uma das idéias é bem simples: aproximar leitores e escritores, dentro da escola. Justificando pedagogicamente a gente diz que é para incentivar a leitura e a produção escrita dos alunos, o que não deixa de ser verdade, mas a real do projeto é fazer com que a gente tenha uma tarde agradável, fazendo uma coisa importante com pessoas interessantes. É isso.

O projeto também sofreu algumas alterações pois eu não estou trabalhando mais com uma turma específica de literatura. Na verdade, agora eu montei um grupo de teatro. "Os Mesquiteiros" - referência a Mesquita, nome da escola e os Mosqueteiros, é claro. Na verdade deveria se chamar "As Mesquiteiras" (eu já disse isso para as alunas) pois a maioria são meninas. Mas elas preferem deixar da maneira como está...

O convidado de ontem foi o meu cabramigo e escritor Marcelino Freire. Os alunos estavam ansiosos, na verdade nervosos, pois nas atividades das oficinas eu levei alguns contos do Marcelino para trabalhar algumas esquetes e tal. Então imagina, eles ficavam falando: "Nossa professor, ele é bravo?" "E se não gostar do trabalho, será que vai xingar a gente?" Na verdade estavam com a imagem daquele escritor sério, mal-humorado, sisudo, terno-e-gravata, que não gosta de papo, não gosta de ouvir as pessoas, etecetera e tal. Tudo ao contrário do Marcelino que diga-se, além de ter uma generosidade enorme dentro do coração, é uma simpatia em pessoa, como todo bão cabra Pernambucano de Sertânia.

O papo rolou legal, bem descontraído. Marcelino contou um pouco da sua história, suas influências, principalmente da importância do teatro na sua vida. Os alunos fizeram algumas questões, principalmente relacionadas as origens dos textos que eles iam interpretar. E no final, fizemos as apresentações/interpretações dos textos do Marcelino.

Foi bem legal. Apesar de, como já disse, a ansiedade e o nervosismo por apresentar o texto ao autor, a turma foi bem. Encarou o desafio, com medo, mas com muita coragem também. O Marcelino curtiu, deu boas risadas, algumas dicas e ficamos todos felizes.

No final, sorteamos alguns livros entre os alunos. Marcelino prometeu enviar alguns livros para os alunos que se apresentaram. Tô cobrando não, só tô lembrando, viu Marcelino (rs).

Particularmente, eu fiquei muito feliz com a atividade de ontem. Primeiro por ver a felicidade dos alunos. Segundo por perceber o quanto eles evoluiram em apenas dois meses de trabalho, usando apenas duas horinhas por semana para fazer as atividades do teatro. E terceiro, por perceber que ainda podemos fazer boas coisas dentro da escola. Pequenas, dentro da violência institucional, pedagógica e humana que sofremos todos os dias. Mas algums pequenas vitórias são possíveis. E elas merecem ser celebradas. Mesmo porque senão, ninguém aguenta.

Hoje tem festa junina na escola. Tá bem enfeitada, os alunos envolvidos. Vai ser bonito a festa, pá. E logo depois, eu vou com a molecada do teatro para Taboão da Serra. A gente vai assistir a peça "Hospital da Gente", baseada nos contos do Marcelino. Nenhuma coincidência aqui, tudo planejado. Hoje também será um dia especial. Para abrir os horizontes dos alunos e alunas sobre o Teatro. O Pessoal do Clariô é demais.

Bom, no mais é isso.

Em processo de recontrução,

R.C.

quinta-feira, junho 04, 2009

PARABÉNS!

Ao Mano Michel, à Raquel e a recém-chegada Yakini. Seja bem-vinda, guria. Muita paz, saúde e coragem no seu coração. Amor, tenho certeza, você terá dos braços de seus adoráveis pais.
Salve! Saúde!! Vitória!!!

quarta-feira, junho 03, 2009

SOBRE O QUE FOI E O QUE VEM POR AÍ

Depois de três dias incubado dentro de casa, hoje eu fui para a escola. Sim, desde domingo que eu não saia de casa. No máximo até o mercado. No domingão sem problema. A questão é que, segunda e ontem eu tinha aula. Tinha que ter ido trabalhar. Não consegui...

Não me orgulho da minha situação. Também não me envergonho. Reconheço que sou fraco, humano e nos últimos tempos, cheguei na linha limítrofe da minha força: de vontade, de resistência, de esperança. Não estou conseguindo trabalhar direito, não estou conseguindo estudar, arrumar a casa. Nem na Cooperifa eu vou, já faz um mês. Não estou desistindo de tudo, não parei na caminhada. Estou apenas num momento de ver a vida por outros ângulos, buscar novas perspectivas. A que eu estava vindo, dei de cara com a parede. E o choque me deixou bem machucado.

Mas estou me recuperando. Reconhecendo a queda, sacudindo a poeira. Principalmente porque não há a opção de não prosseguir.

Esta semana acontecem várias coisas importantes, que havia planejado e organizado antes da crise braba chegar. Sexta-feira Marcelino Freire vai na minha escola, fazer uma atividade com os meus alunos do teatro e alguns outros convidados, no molde do projeto Literatura (é) Possível. Já no sábado, após a festa junina que vai rolar na escola, vou com os alunos assistir a peça Hospital da Gente, em Taboão da Serra. Isso mesmo, vamos sair de Ermelino Matarazzo e vamos até Taboão para assistir a peça do grupo Clariô de teatro, baseada nos contos de Marcelino Freire.

Vai ser importante para a molecada. As meninas do Clariô são excelentes. A direção está maravilhosa. A ansiedade deles é um excelente tempero.

No mais, é isso. Logo em breve eu coloco algumas fotos dessas atividades aqui.

Até.

R.C.

sexta-feira, maio 29, 2009

PRATOS LIMPOS - conto


Cuspi sim! Cuspi hoje, cuspi ontem, cuspiria de novo. Com gosto. Puxando lá do fundo do pescoço. A vingança não é um prato que se come frio? Por que que eu não posso botar um tempero? Pois bem. Cuspi sim.

Tá fazendo por que, essa cara de nojo? Cara feia pra mim é fome. Você quer um pouco? Onde já se viu. Me julgar é fácil. Onde é que você tava quando pegaram a mangueirinha e mijaram no rodapé da sala. Nas quatro paredes, de fora a fora. Dentro do cesto de lixo. Quando tiveram a coragem de cagar no banheiro e limpar com o dedo na porta. Arrastar no azulejo, na torneira, na maçaneta. Hã? Onde é que você tava quando essa cambada pegou tudo: colher, prato, caneca, jogaram tudo, tudo dentro da privada. Deram descarga. E o pior: cagaram por isso. Isso mesmo, jogaram dentro da privada e cagaram por cima? Você acha que tá certo? Cagar no prato que comeu?

Não é história, não. Isso é escola. Por isso que pra você é fácil me recriminar. Não sabe o que a gente passa. Não é você que tem que limpá todo dia essa desgraça. E olha, pra fazê coisa errada eles são criativo. Já tive que enfiar o meu braço em cada buraco fedido que nem te conto. Ia estragar o seu almoço. Fora as banalidade, as obra de arte que deixam todo dia no pátio: molho na escada. Arroz e feijão esmagado no chão. Purê de batata no teto. É um desperdício que não tem tamanho.

Agora, uma coisa é certa: não é só aluno que faz esse chiqueiro não. Professor é um bichinho porco também. Não é capaz de tirar o copinho de café de cima da mesa. Jogar o guardanapo do lanche no lixo. O farelo do pão. Não faz nada. Vão lá, sujam e, “tudo bem, deixa aí. Tem quem limpa”. Quem eles pensa que eu sô? Empregada? Na sala de aula a mesma situação. Como é que vão servir de exemplo pra essa molecada? Agora o dia que eu vi aquela cena no banheiro das professora, eu não acreditei. Uma coisa assim, parecia uma fralda de tão grande, grossa, jogada. Aberta, que nem uma rosa. Desabrochando na nossa cara, cheia de sangue. Você acha? Deixar o modess daquele jeito na tampa da privada? E o pior: ainda nem tava seco. Quem quer ver um útero daquele meu Deus?

Rrrrrrraaaaiic. Puff! Nossa, esse foi osso. O que moço? Não, não acho que essa é a melhor solução, não. Sabe o que eu acho que deveria fazer? Deveria era ter pego o desgraçado, a desgraçada, que fizeram essas porcalhada, porque descobrir não é difícil, sempre tem uma parede que tem ouvido, uma porta que não quer ficar calada. Tinha era que ter descoberto quem fez e botado pra mostrar a cara. Chamar o pai, mãe, sei lá, o responsável; se fosse o professor, de maior, com ele mesmo deixar acertado: vai ficar um mês na labuta, colaborando no ordenado. Varrendo o chão, lavando o banheiro. Enfiando a mão na bosta. Ajudando a gente a organizar esse pardieiro. Me diga: posso ou não exigir esse respeito? Isso é ou não é educação? Obrigar o sujeito a reparar um erro que comete, mostrar que tem que ser direito, tudo tem limite. Tô certa ou não? Mas ninguém faz nada. Ninguém corre, ninguém investiga. Fizeram como fazem sempre: nada. Ignoraram. Foram totalmente indiferentes. Pior: coniventes. Mostraram que todos, todos, sem exceção, tão cagando e andando pra tudo. Pra gente.

Pois bem. Eu, por enquanto, só to cuspindo.

quarta-feira, maio 27, 2009

INDICAÇÃO DE FILME


Ontem assisti ao documentário "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei".

Já conhecia um pouco do Simonal. Um pouco através do seu trabalho, algumas músicas muito boas que ele tem, cantada com swing, personalidade e um carisma irresistível. Da outra parte, da época da faculdade, quando soube que ele fora acusado injustamente de ser um colaborar da Ditadura Militar brasileira, na sua face mais dura: o governo Médici.

Nunca pesquisei muito sobre o assunto, mas ontem fui assistir o filme que, aliás, eu recomendo.

Wilson Simonal foi um dos mais completos artistas brasileiros. Da década de 60, quiçá dizer um dos mais até hoje. O cara tinha atributos que poucos ainda tem: talento, carisma, personalidade. Fora pobre, era negro. Um guerreiro. Dominava o palco - e diga-se de passagem, o público - como ninguém.

Mas cometeu um deslize. E em tempos como os nossos, eles são imperdoáveis.

Num lance pessoal e financeiro com um contador, utilizou-se da violência para resolver a parada. E como violência era o sobrenome do governo Médici, Simona acabou ficando muito próximo dos homens da repressão. Por vacilo, ingenuidade, oportunismo. Valeu-se dos homens e da estrutura da repressão. Mas não era um deles.

Resultado: se fudeu.

A direita TFP (Tradição, Família e Propriedade) o abandonou porque não admitia um negrão daquele, botando a banca como bancava, comandando a massa como comandava, chegando a ameaçar em sucesso figurinhas como o Tremendão e outros;

A esquerda, com o seu patrulhamento ideológico, em partes compreensível pelo momento, mas não menos intolerante e cruel, deixou à merce, jogando bosta no ventilador pra feder, principalmente por considerar o Simona uma figura de destaque do que era o Capitalismo - o que não deixa de ser uma verdade.

Mas Wilson Simonal era um artista fenomenal. Na minha opinião, o melhor artista de palco que já vi. O que o camarada fazia com a platéia era absurdo. Não merecia o que fizeram com ele: um rótulo eterno. O ostracismo, a indiferença. O julgamento sumário, sem defesa. O total esquecimento.

Mas isso é ser artista no Brasil. Hoje lhe jogam flores. Amanhã, ovos podres.

Por isso que eu não faço questão de agradar ninguém.

Não deixe de ver o filme.

R.C.

segunda-feira, maio 25, 2009

EM OBRAS

não, não estou em crise. não agora. a crise parece ser permanente. essa opção de remar contra a maré, de fazer tipo de "advogado do diabo" pra tudo sempre deixa a gente um pouco em crise. meio pertubado. sei lá. não sei.

fato é que eu tô cansado de fazer "big brother" da minha vida. falar dos problemas pessoais, profissionais, enfim. lado bom é o desabafo. botar pra fora, a língua na janela e tal. mas isso também cansa. esse papo de jogar pedra te faz uma bela vidraça. e ultimamente eu tô precisando levantar a minha casa. sem grandes prejuízos.

por isso a ausência. por isso o silêncio. repensar prioridades, repensar atitudes. repensar a vida. se não há nada muito útil pra dizer, uma grande reflexão, pra quê falar? faz diferença pra alguém ficar contando sobre os meus problemas, sobre o meu cotidiano? não sei.

o silêncio, este sim deveria fazer alguma diferença. trazer alguma preocupação. mas o silêncio não incomoda a ninguém. o silêncio está mudo. é fácil ignorá-lo. poucas ligações no meu fone, poucas mensagens na caixa postal. quase ninguém perguntando "E aê, cê tá firmeza?". mas assim seguimos. agora. talvez sempre.

na escola, continuamos na mesma. atuando como "guardadores de gente". há muito tempo deixamos de ser educadores, professores, ou qualquer nomenclatura das dores que alguém queira auto-acrescentar-se-a-si. hoje por exemplo teve reunião. os responsáveis daqueles que deveriam vir, não vieram. cena corriqueira mas que me chama a atenção: não vieram porque não sabiam ou não vieram porque não se interessam?

em sala, a mesma ladainha: cagar regra pros pais, falar da obrigação. eles fazendo cara de que "o inferno são os outros" e os professores, a mesma coisa. o mesmo discurso: o problema está na família. claro. é mais fácil culpar os outros. difícil é encarar a nossa mediocridade dentro da escola, a nossa incompetência e incapacidade para resolver os nossos problemas e ficar culpando o governo, a sociedade, a família. todos tem culpa, claro. mas estou aprendendo a expiar um pouco da minha. pelo menos se eu conseguir, faz alguma diferença.

três coisas que aconteceram hoje e me deram um pouquinho mais de força para dar uma guinada na minha vida, em breve:

1) ver o portão da escola, aberto, escancarado, alunos entrando e saindo como se estivessem num clube, num shopping, em qualquer lugar, menos na escola. detalhe: um inspetor de alunos, responsável pelo molho de chaves, encostado numa parede, ao lado do portão, fingindo que nada estava acontecendo;

2) o cesto de lixo da sala de aula, na primeira aula da tarde da 5ª série C, cheio de mijo. imagine como é bom para um aluno estudar numa escola dessa, o ânimo e disposição que ele terá. isso mostrou outras coisas também a) ninguém havia passado na sala para limpá-la, depois da aula do período da manhã (fato corriqueiro) e b) o respeito que os alunos possuem pelo espaço. na semana passada pratos e talheres foram jogados dentro da privada do banheiro das meninas na hora do intervalo e, detalhe: cagaram em cima!

e 3) soube que uma jovem, de vinte e oito anos, teve um AVC (derrame) na sexta-feira. está internada, cabeça raspada, risco de vida.

a vida é tão rara, passa tão depressa, e a gente esquentando a cachola por coisas que, de repente, nem valem a pena.

em desconstrução,

r.c.

sexta-feira, maio 22, 2009

APENAS JUSTIFICANDO

Por enquanto, muito assunto. A vida em ebulição
Sofrimento, angústia, paz e rebelião - da alma
Por enquanto, muitas coisas, voltas e meias
Pijamas, insônia e solidão
Por enquanto, nádegas a declarar.

O silêncio diz tudo. O silêncio não é só ausência de sons,
palavras. O silêncio é o fim. O início, de tudo.

segunda-feira, maio 18, 2009

EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA

Há quem diga que eu dormi de touca
Que eu perdi a boca Que eu fugi da briga
Que eu cai do galho e que não vi saída
Que eu morri de medo quando o pau quebrou

Há quem diga que eu não sei de nada
Que eu não sou de nada e não peço desculpas
Que eu não tenho culpa Mas que eu dei bobeira
E que Durango Kid quase me pegou

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Ginga pra dar e vender

Eu por mim queria isso e aquilo
Um quilo mais daquilo Um grilo menos nisso
É disso que eu preciso Ou não é nada disso
Eu quero é todo mundo nesse carnaval

Eu quero é botar meu bloco na rua
Brincar, botar pra gemer
Eu quero é botar meu bloco na rua
Ginga pra dar e vender

(Sérgio Sampaio)

http://www.youtube.com/watch?v=rsiAN__ii7E

sábado, maio 09, 2009

CARTÃO POSTAL BOMBA!

O barato foi lôco, o som ritmado e o DVD da melhor qualidade. De verdade, um dos melhores DVDs de música que eu vi nos últimos tempos. E da periferia. Trabalho profissa. Não devendo nada pra ninguém.

Este é o trampo do irmão, meu e das quebradas do Brasil, Genival de Oliveira Gonçalves, o G.O.G. Adquiri o meu exemplar diretamente das mãos do mano, na segunda de 04 de maio, na Cooperifa. Já esperava algo bom. Mas o GOG gosta de surpreender a gente.

Música da melhor qualidade, com participações mais que especiais de Sérgio Vaz, Dona Sebastiana, Lenine, Lindomar 3L, Rapadura, Maria Rita, entre outras pessoas fantásticas. Mas o lôco mesmo é som irado, a musicalidade da banda MPB-Black, que acompanha o GOG. Profissionais do mais fino gabarito.

Este DVD é um show e uma escola. Para a quebrada, para os grupos de rap; pra todo mundo que está na caminhada e quer uma referência de trabalho digno e bem sucedido.

Eu destaco as músicas Dia a Dia da Periferia, Mais uma Estória, Quando o Pai se Vai, Brasil com P, Assassinos Sociais, A Ponte (Eu e Lenine), Fogo no Pavio, O Amor Venceu a Guerra e Foi Somente (Onda). Ou seja, quase o DVD inteiro.

Pra quem quiser saber mais, comprar o DVD, baixar músicas, acompanhar o Genival, acessa aí um sítio de responsa:

http://gograpnacional.com.br/

E mais não digo. Vou botar de novo o DVD no toca-disco.

Renato Vital, Crônica (A Família), Gog e eu, na Cooperifa

OS MESQUITEIROS

Grupo Teatral "Os Mesquiteiros": (da esquerda pra direita) Thais, Gabi, Jessica, Monica, Carol, Gabi, Pri, Gleice, Debora, Bárbara, Deborah, Glaice, Van, Gabi, Marcelli, Atanilo, Felipe, Galego, Bruna e eu - Escola Estadual Jornalista Francisco Mesquita.

"Nóis sem nóis não é nóis"

quinta-feira, maio 07, 2009

MELHOR IMPOSSÍVEL (?)

Não sei. Sei que tirando algumas coisas ligadas ao coração, que encontra-se em fase de reconstrução, esta semana esta sendo muito, muito boa. Como há tempos eu não tinha em minha vida. Pois bem, eu acho que o cara lá de cima mandou uma tempestade braba tempos atrás só para agora tacar a bonança. É, dizem que Ele escreve certo por linhas tortas. Vai ver que é isso.

O barato mais que lôco começou na segunda. Cinema na Laje. Na tela, os Panteras Negras. Numa roda de conversa, GOG, Sérgio Vaz, Rose Dorea, Prof. Lu, Brau Mendonça, Jairo, Cocão, Preto Will, Casulo, Renato Vital, De Lourdes, Du Toledo, Crônica (A Família), Márcio Batista, B Valente e outros guerreiros e guerreiras, da mais fina qualidade, batendo um papo-sério numa noite fria de SEGUNDA-FEIRA, até as onze e meia da noite. Periferia, família, humildade. União, discurso, organicidade. Teoria e prática. Poesia, política. Etecetera.

Noite mágica, conversa afiada. Meus pensamentos tão trocando uma idéia até agora.

Terça-feira, outro dia especial. Fui com os meus alunos no Centro Cultural Banco do Brasil, no centrão. Passeio lôco, mais de trinta alunos, rodando pelo Centro da cidade e, maior paz, tranquilidade, nenhum xabú. Muitos alunos não conheciam o coração da cidade, então, quebramos o protocolo e fomos dar um rolê pela Praça do Patriarca, Viaduto do Chá, Vale do Anhangabaú e Teatro Municipal antes de começar a incursão pelo CCBB propriamente dito. Lá dentro, uma exposição sobre contos de fadas que vale a pena ser visitada. Na volta, só sorrisos, lanches e muita alegria.

Quarta-feira, meu aniversário. Recebi mensagens, telefonemas, bolo em família. União que há muito tempo não acontecia. Fiquei feliz. Principalmente com um presente que não tem valor: as felicitações dadas pelos meus alunos das Quintas séries. Aqueles mesmo que eu me descabelo vez em quando, grito, esperneio, converso, olho nos olhos, chamo de canto e por aí vai. Ganhei um cartão tão bunitinho de uma aluna que os meus olhos mareiam até agora quando lembro.

E depois, a Cooperifa. O santuário da poesia. O Robson Canto (que dessa vez não deu cano) lembrou do meu aniversário em público. O Dill, leu um poema do Ze da Luz, e ofereceu para mim e para a Dona Edith. O Marcelino (!) disse que foi lá, entre outras coisas, pra bebericar o meu aniversário. O que eu queria mais? O parabéns, comemorado ao lado do meu irmão Jairo. Tudo lindo. Festa inteligente.

E hoje? Putz, hoje foi foda. Quase que o coração não guenta. Dos olhos não escorreram lágrimas porque já chorei muito por estes dias que se passaram. A carga de lágrimas está enchendo, aguardando as próximas ventanias. Mas, o dia bonito, para não se esquecer. Só pra ter idéia, até hoje eu nunca havia ganhado uma festa surpresa. Sempre quis ter, pra ver como é o sentimento, o susto, como seria a minha reação. E por falta de uma, foram duas.

Primeiro, foi de manhã. Os alunos da minha sala de coordenação. Preparam o bolo, a coxinha, o pão com presunto e queijo, o mousse de maracujá, o brigadeiro, o beijinho. Quer mais? Que tal um cd com fotos e música, exibido em um telão, com direito a choro e declarações? Pois foi assim. E eu não chorei. Mas teve aluna que chorou. Até os marmanjões, máscara de valentões encheram os olhos de lágrimas. Foi bonito. Saber que algumas pessoas reconhecem o trabalho. Principalmente, das pessoas mais importantes: os meus alunos.

E ainda depois, a tarde, OUTRA festa surpresa. A turma do teatro. Confesso que na turma da manhã, eu não sabia, mas estava desconfiado de alguma coisa. Agora, a tarde, depois de uma festa surpresa de manhã, outra festa? Me pegaram de jeito. Um jab no queixo. E eu quase fui pra lona. De felicidade. Mais salgadinho, refrigerante, bolacha e bolo. Caras e dedos lambuzados. E eu com um sorriso no peito, quase não me aguentando. Só desejando que esse dia não acabe. Que as horas não passem. Que eu não acabe na frente de um computador escrevendo os meus relatos em casa. Sozinho.

Mas estou bem. E queria dizer, obrigado. A quem desejou parabéns, a quem esqueceu. A quem me quer bem, a quem não me quer. Para todos, desejo tudo em dobro. É assim que é. E valeu.

Com o coração em chamas e a alma em êxtase,

Ciríaco.

P.S.: logo mais no final de semana eu posto as fotos destes dias...

domingo, maio 03, 2009

VIRADO (conto)

Uma porra! Essa Virada Cultural é uma merda. Pura violência, pura sacanagem com a gente. Por quê? Porque a gente num é gente, a gente não é nada, entendeu? A gente é o lixo, o excremento da sociedade. A gente é pra ficar aí, jogado, sujo, sem ter lugar pra tomar banho, sem ter o que comer, sem ter onde cagar nem dormir. A gente é pra ficar invisível. A gente num devia nem existir na face das ruas, porque a gente incomoda. A gente é o avesso da sociedade, do sucesso, do consumo. Tá ligado? Tudo bem, uma hora a gente aceita, se acostuma com isso. Faz o possível pra não aparecer, se pede alguma coisa faz com vergonha como se pedir fosse errado, como se estivesse roubando. Tem que agüentar bacana tirar nóis de pinguço, cachaceiro e outros pano. De dia, só humilhação: empurra-empurra, correria, gente gritando. É nóis aqui largado, sem vida, sem amigo, sem trabalho, sem dinheiro, sem nada. Fazendo um biquinho aqui, catando umas latinha ali, uma correria acolá, esmolando. A gente sobrevivendo. E de tarde vem a noite: o breu, a solidão, o apagar do sol e o abandono. A fome e o frio. Rasgando a barriga, cortando o sono. As vezes, só muita cachaça na cabeça, senão não tem jeito. É foda. A gente sofre pra caralho nessas madruga aqui, meu irmão. Você não tem noção. Mas então, um belo dia, vem essa porra da Virada. Que merda é essa Virada, cara? Esse mar de gente zanzando no nosso espaço. Show pra lá e pra cá. Barulho, treta, pegação. Sodoma e gomorra, pura orgia. E gente bêbada. Gente zuada, travando as quatro pata. Pode olhar, só gente lôca, alucinada. A mais pura degradação do ser humano. Tá aqui. O pior do ser humano tá aqui. E não tô falando da gente. É um que bebe, é um que fuma, é outro que fode, outro que cheira. E assim vai, chapando até o osso. Até perder a mão, perder o juízo. Encostar em alguma porta de loja, de bar, e cair. Apagar e dormir. Coma. Overdose. Tipo aquele filha-da-puta ali. O que caiu do meu lado. Do meu lado, é mole? Começou a vomitar, o viado. Golfar. Jogado no chão e golfando. Não saía nada, só uma água preta, tipo de fossa. O cara mal, zoado. Você acha que alguém socorreu? Que nada. Pode morrer alguém aqui no meio que ninguém faz nada. Passavam ainda é com uma tiração, dando risada. “Ê, é pra bebê, caí, levanta, não é pra bebê, caí e fica, não.” E pega sapato, dá chute na barriga, pisão na cara. O mano lá, sem reação. Só chamando o Hugo, malzão. O filha-da-puta do meu lado. Tive que pegar meu papelão, minha sacola e sair fora. Ia acabar sobrando pra mim. Isso que é foda. Não agüento, essa putaria. Ninguém respeita o sono dos justos, meu irmão. Ninguém. Não basta no breu dessas madrugada, um monte de morador de rua que é morto com facada, paulada; paralelepípedo na cabeça, vem essa porra de Virada. Ninguém dorme. Uns playboy forgado que vem, grita na cabeça, joga água, cerveja, vinho na nossa cara e some. Querem pega nossas coisas, bota fogo. Tudo em nome da diversão. Diversão pra quem, caralho? Cês acham que tem o direito de vir aqui, tocar esse puteiro, acorda nóis, ficar se fingindo de nosso amigo enquanto tá bêbado, chamando, encostando, abraçando, dizendo que a gente não precisa só de pão, tem que aproveitar a cultura, que a vida não é tão dura e depois vão embora, mostrando pra gente a porta da rua? Deixando pra gente só os vômito, as parede com cheiro de mijo e essas montanha de lixo? Vai pro inferno, porra. Virada Cultural o caralho. Pra nóis essa porra é tudo uma merda. Pura politicagem, lavagem de dinheiro. Sacanagem. A vida segue, e hoje esses corno que tão me abraçando, tudo querendo dançar comigo, amanhã vão passar aqui e fingir que nem me viram. Fingindo que eu nunca existi. Vão pra casa, repousar no gostoso, dormir no quentinho, e a gente continua aqui. Fudido. Rezando pro prefeito acabar com essa bosta de evento e usar melhor o dinheiro público quando for pensar em investir.

sábado, maio 02, 2009

LUTO - MORRE AUGUSTO BOAL


Eram 18:10 quando eu vi esta notícia. E ela caiu como uma bomba no meu colo. Ainda não explodiu. Vai demorar um pouco para digerir.

Augusto Boal morreu.

Augusto Boal era uma das pessoas mais fantásticas desse país. Seja na categoria artista, educador, dramaturgo ou ser humano. Tivesse nascido em qualquer outro lugar lá fora seria notoriamente reconhecido, escutado, importado. Só não ficou realmente conhecido e valorizado no Brasil porque nós vivemos num país de merda.

Foi diretor do famoso Teatro de Arena, em São Paulo. Dirigiu e escreveu, em parceria com Gianfrancesco Guarnieri (outra lenda) Arena conta Tiradentes e Arena conta Zumbi, entre outras. Foi preso no período militar, ameaçado e teve que viver no exílio. Trabalhou com Caetano, Chico, Bethânia e outros artistas numa época em que eles ainda diziam algo pra gente. Boal viajou pelo país, conheceu a gente que brota no chão seco, que vive da terra sem ser dono dela e que sobrevive bravamente na guerra que foi instalada nos subúrbios e periferias do Brasil. Era amigo pessoal de Paulo Freire, Zé Renato, Oduvaldo Vianna Filho e Plínio Marcos.

Seu principal trabalho, o "Teatro do Oprimido", é (re)conhecido em mais de 70 países. Tive a felicidade de estudar o Teatro do Oprimido durante uns três anos. Fiz trabalho na faculdade, fiz oficinas, apresentei algumas peças. Uso as técnicas do Teatro do Oprimido na turma de teatro que comecei na escola há quase um mês. Tenho 07 livros do Augusto Boal na minha estante. É um dos autores que eu mais tenho livros. É um dos autores que eu mais li. Seu trabalho me transformou profundamente. Muito do que eu sou, da melhor parte de mim, devo a ele.

Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente no ano retrasado. O revi no ano passado. Estava um pouco debilitado, mas atuante.

Foi-se aos 78 anos. Insuficiência respiratória. Brigava contra uma leucemia. Até o último momento não deixou de trabalhar, não deixou de atender a quem quisesse saber - de dentro ou de fora do país - informações sobre o Teatro do Oprimido. Acompanhava projetos desenvolvidos no Brasil inteiro de perto.
Tinha 78 anos. "E é tão estranho. Os bons morrem jovens."

Adeus, Boal. Descanse em Paz. A gente continua por aqui. A luta, no luto.

Rodrigo Ciríaco


Augusto Boal, criador do Teatro do Oprimido, morre aos 78 anos no Rio

São Paulo - O dramaturgo e diretor de teatro Augusto Boal morreu na madrugada deste sábado, aos 78 anos, de insuficiência respiratória, no Hospital Samaritano, no bairro do Botafogo, Rio. Ele sofria de leucemia e estava internado desde o dia 28 de abril. O local e o horário do enterro não foram divulgados.

O trabalho do carioca Boal, que também era ensaísta e teórico do teatro, ganhou destaque nos anos 1960 e 1970, quando esteve à frente do Teatro de Arena de São Paulo e criou o Teatro do Oprimido, pelo qual foi internacionalmente reconhecido por aliar arte dramática à ação social.

Boal chegou a se formar em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1950, mas viajou em seguida para os Estados Unidos, onde estudou artes cênicas na Universidade de Columbia. De volta ao Brasil, sua primeira peça como diretor do Arena foi "Ratos e Homens", de John Steinbeck, que lhe rendeu o prêmio de revelação da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte).

Dirigiu ainda, entre outras peças, "Eles Não Usam Black-Tie", de Gianfrancesco Guarnieri, e "Chapetuba Futebol Clube", de Oduvaldo Vianna Filho. Foi o diretor do espetáculo "Opinião", com Zé Ketti, João do Vale e Nara Leão, que passou para a história como um ato de resistência ao golpe militar de 1964.

sexta-feira, maio 01, 2009

O POETA MANDOU CHAMAR: TODO MUNDO PRA LAJE! - PANTERAS NEGRAS

Bobby Seale e Huey Newton

Cinema na laje é um espaço criado pela COOPERIFA e que acontece quinzenalmente às segundas-feiras para exibições de documentários e filmes alternativos de todas as partes do Brasil e do mundo, exibidos gratuitamente para a comunidade. Também criado principalmente para dar luz ao cinema produzido pelos jovens da região, e levar cidadania através da sétima arte. O cinema Paradiso da periferia também conta com um lanterninha vestido a caráter para dar um charme especial no projeto. A Entrada é franca. A Pipoca é grátis. E a lua sincera..

DIA 03 DE MAIO 20HS30
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Laje do Zé batidão
Rua Bartolomeu dos Santos, 797 Chácara Santana
Zona Sul-SP
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"Todo poder para o povo. O partido dos Panteras negras e além"
Sinopse: Documentário que retrata experiência organizativa e de luta do Partido dos Panteras Negras na década de 60. Inicia com com o movimento de não-violência de Martin Luther King, de integração do negro ao modo de vida norte-americano. Por seu caráter reformista não garantiu as transformações que eliminassem o racismo.

Por causa das limitações do movimento pacifista, surge o partido dos Panteras Negras, o qual pregava a necessidade da população pobre (negros, índios, latinos...) se armar para enfrentar a polícia racista e a opressão do estado capitalista. Aqui veremos a vitalidade deste partido e a reação que despertou no governo americano, o que o encarou como "ameaça à segurança interna".

Diferente do filme, o documentário de 1997 foi concebido após as revoltas negras de Los Angeles, ocorridas em 1992, quando a impunidade da violência policial sobre o povo negro gerou quatro dias de levante massivo, com mais de 7 mil imóveis incendiados e 53 mortos. Enquanto a TV anunciava os estragos de mais de um bilhão de dólares, o documentarista Lee Lew-Lee decidiu se perguntar qual foi o verdadeiro dano histórico que provocou aquela explosão. O resultado é o resgate audiovisual de uma experiência profundamente consistente de organização e luta negra.
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Direção: Lee Lew-Lee
Duração: 60 minutos
Legendado
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*em caso de chuva o filme será exibido no bar

ELIANE BRUM

Minha amiga Eliane Brum, jornalista, pessoa humana(!), ética, voraz e sensível, está com uma nova coluna semanal no sítio da revista Época, e convida a todos para fazerem a leitura dos seus textos, comentários, críticas.

A primeira coluna chamada "Sobreviventes" está no link abaixo:


Eliane, além de ter recebido vários prêmios nacionais e internacionais, é autora de dois excelentes livros, que trazem uma espécie de mescla de contos-reportagens: A vida que ninguém vê e Olho da Rua. Se você não leu, adquira já o seu.

De verdade. Não faço rasgação de seda a toa. Gosto muito de Eliane e, perdoe-me, mais ainda de seus textos. Fazem-me lembrar, e muito, da Clarice (Lispector). Não por uma semelhança de estilo literário. Mas pelo efeito que o textos de ambas provocam na minha alma.


Não deixe de ler.

R.C.

DESABAFO

Já havia botado na minha cabeça que não falaria no blog de assuntos pessoais. Na verdade, todos os assuntos abordados aqui são muito pessoais. Mas eu não mais falaria daqueles assuntos do coração, que envolvem coisas como cumplicidade, entrega, confiança; respeito, segurança e amor. Falo do estar com o outro.

Mas eu preciso tocar neste assunto. Ainda que seja pela última vez. Ainda que seja um desabafo. Pois não estou mais com uma pessoa que eu amo. O seu nome é Tânia. E uma coisa que a incomodava, segundo me disse, é que só me referia a ela aqui neste espaço quando brigávamos. Quando queria externar um sentimento negativo referente ao nosso romance.

Talvez eu tenha feito isso. Talvez não. Não sei. Nesse momento estou com o coração fragmentado por conta do fim de um relacionamento amoroso de cinco anos, por conta de alguns problemas pessoais na família, por vários problemas - questões e pressões - referente a minha vida profissional. Tudo é muito confuso, vago e cheio de incertezas.

A única coisa certa e que eu gostaria de deixar claro é que eu Te Amo, Tânia. Eu ainda gosto muito de você. E acho uma pena, uma profunda tristeza não estarmos mais juntos.

E prometo não tocar mais no seu nome em vão - ainda que de forma vaga - neste blog. Seja para fazer alguma "referência negativa", seja para fazer uma declaração de amor. É como eu lhe disse: Eu Te Amo. Sou feliz por você existir e ser a pessoa que é. Com todas as imperfeições, qualidades e defeitos. E quero que seja feliz. Não importa como. Ainda que seja longe de mim.

Não se preocupe. Não vou mais lhe aborrecer.

R.C.

SARAU!

Uma coisa que eu penso que as vezes cansa dentro da educação é o que eu chamo de "ciclo do eterno retorno". O que é? Resumidamente, é assim: educar é difícil. Muito. Há um desgaste muito grande de energia mental, física, psíquica, principalmente nos primeiros anos, nos primeiros contatos com a turma. Os alunos testam você, a sua capacidade intelectual, a sua condição de liderança dentro da sala de aula, de mediador de conflito, a sua paciência. Eles não o conhecem, você não os conhece. Durante um bom tempo isso irá gerar conflitos, atritos; gritos, desgaste, perda de paciência, cansaço, desânimo e vontade de desistir.


Depois de um tempo, principalmente com a mesma turma, as coisas vão mudando, melhorando, aos poucos. Eles passam a conhecê-lo, você os conhece. Sabe as dificuldades e qualidades de cada um, sabe o jeito, a postura, a atitude de cada um frente o dia-a-dia na sala de aula, frente as diferentes situações. Você aprende como lidar melhor com cada um, a maneira como deve falar com fulano, como pode abordar o ciclano. Até onde pode ir e exigir de todos, mas também individualmente. E aí começa o barato da coisa. É aí onde fica melhor.


Mas ter passado por tudo isso - um processo que dura, no mínimo uns três anos, na minha opinião e que depende se você está com a mesma turma, não garante que você não vai ter que passar pelos conflitos, gritos, desgaste, perda de paciência, cansaço, desânimo e vontade de desistir. Pois é só pegar uma turma nova que tudo vai (re)surgir: os desafios, as dificuldades. Pois sempre haverá novas crianças e adolescentes para educar. Este é o "ciclo do eterno retorno".


E ele é cansativo. Demais. Pois como eu disse, educar é difícil. Se é difícil para os pais com um, dois ou três filhos em casa - quer dizer, isso para os pais que se comprometem a educar os filhos, a maioria prefere abandoná-los a própria sorte, independente de cor, credo, religião ou classe social - imagine para um professor em condições totalmente adversas, pensando em estrutura, apoio pedagógico, preparação, formação e com turmas de trinta e cinco a quarenta alunos - quando não mais? É uma loucura, ou melhor, diria uma violência. Para ambas as partes.


Mas se o título da postagem é SARAU!, por que estou dizendo tudo isso? Pois pegar as turmas novas também tem uma coisa boa: ensinar o novo. Não que não seja possível ensinar para turmas já conhecidas, nada disso. Há sempre o que ensinar e há sempre o que aprender. Para ambos os lados do front. Mas, como eu disse, quando a turma é conhecida, os macetes, as técnicas, algo também já é conhecido. Há a possibilidade de surpreender - sempre! - mas vai ficando talvez mais raro. Mais difícil (mais desafio). E as turminhas novas talvez não. Há muito para se mostrar para elas. Principalmente depois de um tempo que você vai ficando mais apurado no seu trabalho, reparando os erros e fazendo um trabalho com mais qualidade. E isso foi legal esta semana, quando fiz o primeiro sarau com as minhas turmas de quinta série. Foi muito bacana, eles curtiram massa, decoraram os poemas, criaram cartazes e, fizemos leituras bem bacanas. O resultado vocês vêem nas fotos.



Pena que a qualidade não ficou boa pois eu tive que tirar com o meu celular - esqueci a máquina. Mas, tudo bem. Teremos outras oportunidades... Confira aí: