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sexta-feira, maio 24, 2013

TODO CARNAVAL TEM SEU FIM - E A GREVE DOS PROFESSORES MUNICIPAIS, 2013, TAMBÉM.



TODO CARNAVAL TEM SEU FIM – ou de como o mago Cláudio Fonseca sumiu com 17,7% de reajuste dos professores.

Cheguei a Praça do Patriarca por volta das 14hs. Subindo uma rampa que tem acesso do metrô Anhangabaú ao lado da prefeitura, achei algo estranho: o costumeiro caminhão de som não estava parado no lugar de todas as outras Assembleias. Pensei: será que estou no lugar errado? Tem alguma coisa errada. Não, nada errado: havia outro caminhão, com nome sugestivo: “Trio Apocalipse”, parado em frente a prefeitura.

Mas não seria a primeira vez que o meu “instinto-aranha” iria soar com a indicação de algo errado.

Fiquei por ali, aguardando encontrar alguém. Encontrei muitos desconhecidos que vieram me parabenizar pelo vídeo de Esclarecimento sobre a greve: pela clareza, pela coragem. Pela iniciativa. Fiquei muito feliz. Teve gente que pediu para tirar até foto.

Dali a pouco, começa os informes da Assembléia. Mas antes, algumas músicas. Beth Carvalho, Titãs, Raul Seixas. Danças, sorrisos, brincadeiras. Verdadeiro carnaval fora de época.

Alguém comentou comigo: “nossa, o pessoal tá animado”. Respondi: “não sei porque, estou há 21 dias de greve, ameaça de ponto descontado, sendo esculachado pela TV”. É, acho que exagerei na resposta. Mas meu “instinto-aranha” estava dizendo que aquele carnaval fora de época era muito suspeito. E nada inocente.

Bom, o nosso não-querido Cláudio Fonseca subiu lá por volta das 15hs e informa que, no período da manhã, houve uma reunião com a prefeitura e algumas secretarias, que tinha um informe, se a Assembléia queria saber naquele momento ou depois, já que eles iriam subir para finalizar a reunião e retornar com a decisão.

Muito calmo, sereno, tranquilo. Eu achei aquilo estranho. A praça lotada. O viaduto do Chá ocupado. A tropa a mil. E o suposto “comandante” não convidando para a Guerra? Para de me cutucar o “instinto-aranha”.

Como a opção foi de saber sobre as informações já, Cláudio fez um retrospecto até bem claro de toda a greve: das negociações no SINP – Sistema de Negociação Permanente, das propostas da Prefeitura (e aqui sugiro que PRESTE MAIS ATENÇÃO): reajuste salarial de 2011 – 6,5%; reajuste salarial de 2012 – 4,5% (aproximado), que dava os tal de 11,46%, dividido lá nos 05 anos, ou até 2018. A nossa rejeição, a contra-proposta (e aqui, sugiro que PRESTE MAIS ATENÇÃO): 11,46 em três anos: 2014, 2015, 2016 – 3,82% para cada ano, com a CONDIÇÃO de não ter mais greve e nenhuma demanda adicional até 2016. O governo ainda NÃO reconhecia o reajuste para 2013, de 5,6%. Daí foi deflagrada a greve.

Porque pode dizer que brigamos por vários outros motivos. E brigamos. Mas a questão salarial foi a principal. E nenhum demérito nisso. Meu ditado é: todo trabalhador merece ser remunerado. E bem remunerado. E não estamos pedindo absurdo. Estamos cobrando REAJUSTE SALARIAL, ou seja: reposição das perdas que tivemos com a INFLAÇÃO. E REAJUSTE salarial é diferente de AUMENTO.

Bom, aí foi explicando, explicando, explicando e, chegou na NOVA PROPOSTA MÁGICA DO GOVERNO: não mais dar o aumento linear de 0,01%, que vem dentro de uma política desde 2003, com algumas quebras a partir de 2008, mas reajustes lineares, A PARTIR DE 2014, até 2016, de 3,68%. Ah, e não desconto dos dias em GREVE – que é um direito de todo o trabalhador.

Se você prestou atenção ao texto, a proposta é EXATAMENTE A MESMA de quando deflagramos a GREVE: aproximadamente 3,7% para 2014, 2015 e 2016, com a diferença da exceção da cláusula de mordaça, cala-boca, fica-quieto; a cláusula professor-não-queima-o-meu-filme. Ah: e não desconto dos dias paralisados.

E o que os professores acharam? Sensacional. Uau. Que maravilha. Proposta sensacional. Parabéns. Vamos votar. Peraí, mas vamos discutir. Não, não tem o que discutir. Peraí, mas e os 17,7%. Favoráveis a proposta 01, pela continuidade da greve. Peraí, vamos fazer defesa de 01 e outra. Favoráveis a proposta 02 de fim da greve. Peraí, ninguém tá falando dos nossos REAJUSTES de 2011, 2012 e 2013. Pois bem, proposta 02 aprovada. FIM DA GREVE.

Claro, com observação de nosso não-querido Cláudio Fonseca: “Olhem bem para não dizer que houve manipulação”. Imagina, Claudinho: quem iria pensar isso de vossa senhoria...

Enquanto algumas pessoas exageradamente se abraçavam, pulavam em conjunto, gritavam, choravam de alegria pela “vitória”, eu perguntava para mim mesmo: peraí, mas o governo apresentou esta MESMA proposta para pagar as perdas de 2011 e 2012. Que somadas as perdas de 2013, dão 17,7%. Agora o governo garante o reajuste do FUTURO, não fala mais nada sobre as PERDAS DE 2011, 2012 E 2013, nosso PASSADO/PRESENTE concede o pagamento dos dias parados – que é óbvio e todo mundo acha o máximo? Eu parei pra brigar pelos dias que estive parado, é isso?

Isso mesmo. Xeque-mate Haddad/Calegari.

Minha percepção: desde ontem, 23 de maio, César Calegari baixou “Mãe Dinah”: para a Rede Brasil Atual, Folha de São Paulo (de 24 de maio) afirmou categoricamente de que a Greve estava fraca, de que ele sabia que terminaria hoje; o discurso mais amistoso de Cláudio Fonseca; as inserções de musiquinhas ao longo da Assembléia, para “entreter e animar os professores” enquanto terminava de rolar a negociação foi um enredo muito bem bolado de uma peça com final já escrito. E que precisava apenas da ratificação de um grupo para coroar o seu sucesso. Ao menos para as pessoas que a escreveram. E foi isso que aconteceu.

Mas e os 17,7%? E a cobrança de pagamento do REAJUSTE SALARIAL referente a 2011, 2012 e 2013? O que fizeram, onde foi parar? A liderança do sindicato simplesmente se esqueceu. Sei lá, se os professores não se atentaram a isso. E ninguém mais falou nada sobre isso. E ficamos como já estamos. Os professores com o seu GRANDE REAJUSTE:

- 0,01% para 2011,
- 0,01% para 2012
- 0,18% para 2013

Aos colegas educadores que pulavam, gritavam e chorados entusiasmados pela “vitória” de garantia do pagamento sobre dias parados e reajuste linear de 3,68% oferecido pela prefeitura, retirado e oferecido novamente com um outro nome e outra cara: parabéns. Mas para mim ficou um gosto amargo de troca de seis por meia dúzia.

Apenas a título de esclarecimento: eu votei a favor da CONTINUIDADE da Greve. Aceitaria este acordo SE CONDICIONADO ao pagamento dos 17,7%, referente as nossas PERDAS dos anos anteriores. Afinal, entramos em GREVE para brigar pelas perdas. E saímos felizes com a garantia de PROMESSAS.

Enfim. O que fica é que batalhei muito por este momento. Me envolvi como em tudo o que eu faço, principalmente quando relacionado a #EDUCAÇÃO. A resposta ao vídeo que fiz foi linda: olhando para ele exatamente agora, 30 horas depois de publicado, mais de 12.500 visualizações. Sucesso. Acho que foi uma boa atitude. E sigamos. É o melhor que tem pra hoje. Só que não.

Parabéns a Fernando Haddad e Cesar Calegari pelo golpe de mestre. Parabéns aos sindicatos, em especial ao SINPEM e o sr. Cláudio Fonseca por ignorar e fazer SUMIR da pauta de negociação o REAJUSTE SALARIAL de 2011, 2012 e 2013 – de 17,7%. E parabéns aos educadores que acreditam que fizeram o melhor ao votar pelo final da greve. Eu acho que não. Não conseguimos nada de novo. Mas respeito.

Como diria a minha avó: cada um tem aquilo que merece.

E acabo suspeitando que, a educação está no pé em que está não por culpa de governos, secretários, sociedade, apenas: a culpa é nossa, mesmo. Nós, educadores e educadoras, somos os principais responsáveis pela situação em que vivemos.

Afinal, somos a “massa” crítica que permitiu e permiti que chegássemos onde chegamos. Nós permitimos que fizessem de nós o que nós somos hoje.

 E fica a pergunta: o que hoje em dia significa isso?

Rodrigo Ciríaco
Educador, escritor, traficante e ativista cultural
@rodrigociriaco

Face: Rodrigo Ciríaco

GREVE - PROFESSORES MUNICIPAIS DE SÃO PAULO, 2013 - EM IMAGENS