terça-feira, agosto 12, 2008

DEPÓSITO DE GENTE

"A favela é o quarto de despejo da cidade" (Carolina Maria de Jesus)

Depois de uma semana afastado devido as minhas dores, hoje voltei para a escola. Ainda não foi a volta às aulas - para mim -, fui lá apenas para pegar um papel para agendar a perícia médica com o médico do Estado (funcionários públicos precisam passar na perícia quando afastados por mais de dois dias).

Não sei se é o meu estado de espírito ou a permanência de uma situação mas, foi triste voltar para a escola. Primeiro porque eu amo e acredito na importância da educação. Segundo, por ver a situação da minha escola.

Não mudou nada.

Chegando, muitas grades. Pessoas gritando com outras. A escola suja, escura. Na secretaria, pessoas mal educadas, ríspidas, grosseiras, atendendo funcionários e público. Na direção, nem uma alma. Na coordenação também não.

Cena de abandono total.

Também, o que eu queria? Como num passe de mágica, tudo se resolvesse? Todos os problemas sumissem?

Acho que sim.

Me incomoda muito tudo isso. Principalmente devido a todo o processo que eu vivenciei na escola nos últimos quatro meses. Foram dias de confrontação direta com a direção, na qual eu não estava sozinho, mas fui a pessoa que puxou o carro. Tomou a frente, foi para o confronto no front. Primeiro na base do diálogo. Depois exigências diretas. Por fim, denúncia na diretoria de ensino.

Só eu sei o desgaste que foi tudo isso. Documentos escritos durante a madrugada, horas gastas pensando, refletindo, sozinho e com amigos na melhor ação, no melhor argumento. Reuniões, bate-bocas. A espera. E o foda é ter esta sensação de, no final, ter perdido a batalha.

A direção continua. Os problemas na escola continuam. De diferente, apenas a frustração, dores pelo corpo e o sentimento de que quem devia responder pelos atos inconsequentes, saiu fortalecida.

E é foda depois de tudo o que aconteceu, o embate, ter que cruzar no corredor com algumas pessoas. Quando você vai pra um choque como esses, você vai decidido: alguém tem que sair. Ou ela ou eu.

Sei que tudo não terminou, não é o fim, mas estou ferido para a guerra. Na verdade, desacreditado. Perdi a confiança. Não na molecada, mas em mim. Perdi a confiança na minha capacidade de mobilizar, enfrentar, debater. Inclusive na minha capacidade de ensinar. Além de um covarde, sinto-me como um medíocre.

As escolas estaduais de São Paulo parecem depósitos de gente. Para não ser tão ofensivo, por que muitas vezes parecem depósitos de lixo. Não pela sujeira, mas porque as pessoas ali são tratadas como lixo. São largadas como o lixo. Esquecidas como o lixo.

Sei que elas não o são. Mas de vez em quando é necessário que elas mesmas digam isso.

Estou sentindo falta destes gritos.

A favela é o quarto de despejo da cidade, diria Carolina, cinquenta anos atrás. Hoje, as escola são os depósitos. De gente.

Um comentário:

Festa de Águias disse...

Excelente fio condutor com Carolina de Jesus. Apesar das críticas que ela recebeu de todos os lados, ela só merece elogios.

estimo melhoras

abraxxos