segunda-feira, março 15, 2010

"É O ROOOODO, COTIDIAAAANO..."

de sete caixas de material guardado, o que sobrou...

procurando sobreviventes entre os destroços

o estado da sala, ao abrir a porta

material de cena - e 06 meses de trampo - transformado em lixo!

domingo, duas horas da tarde. a galera se preparando pra macarronada, o futebol da molecada - que rodou diante do palestra - e eu lá, na minha escola. mais os meus companheiros: os estudantes. para a retomada. volta aos ensaios do teatro. "um por todos, todos por um". aos poucos, vão chegando. somando. um daqui. mais dois acolá. e mais outros. time quase completo. conversamos, trocamos idéia. primeira tarefa, pegar os materias de cena e cenário.

rodo número 01: ontem

a sala que era nossa, nunca foi. constatei. nunca será? não sei. não foi agora. o que achamos foi o lixão. explico: final do ano passado, pedimos uma sala na escola para guardar nossos materiais. do teatro. de cena e cenário. nos foi concedido. aprovado em reunião do conselho de escola. mas este ano teve uma nova - pequenina - reforma. consertos, pinturas. e qual sala liberaram para os pedreiros, pintores ficarem, usarem, e guardarem suas coisas? a nossa. sem pedir, sem autorizar. e o que era material de cena, virou lixo. o que estava guardada em caixas, virou lixo. o que eram R$ 400,00 reais de investimento, do nosso bolso, virou lixo. tudo o que tinha valor sentimental, foi jogado no chão. furtado. como se não fosse nada. sujo. respingado. pintado contra a vontade. largado. como se não tivesse valor. para o nosso grupo de teatro tinha. a galera da trupe ficou arrasada. não houve mais clima para ensaio. houve clima para revolta. tristeza, insatisfação. e comprometimento do espetáculo. talvez do grupo? não. da minha parte não. nóis enverga mais não quebra. e alguém há de pagar o prejuízo. ah vai.

rodo número 02: hoje

na quinta-série, mais um aluno. grande, alto. 14 anos. um gigante perto da molecadinha. quinze anos talvez. te juro, eu pensei: caraca, jogam um estagiário na sala e nem me avisam. não era. era outro aluno. veio de outra escola. e com aviso, de um menino da sala: professor, ele não sabe escrever. nem ler. puta-que-pariu, pensei. mais um, que não sabe escrever. junto com os outros três, dez, vinte, que estão na quinta-série e também não sabem. não aprenderam. e eu não sei ensinar. direito. não me educaram pra alfabetizador. a Academia não me ensinou. bosta, o que eles sabem disso aqui? e a turma de reforço, ainda não saiu. será que sai este ano. minhocas na cabeça, frustração me pegando. talvez.

rodo número 03: a noite

a conta, quase no vermelho. o aluguel ainda não foi pago. e tenho que fazer compras no mercado. o básico. preciso comer. não pego nem carrinho, vou na cestinha. hoje é metade do mês, não posso gastar mais de vinte reais para o básico. pra não estourar demais o orçamento. vou de cestinha na mão. uma bolacha aqui, um suco ali. um leite acolá. uma fruta. um pão e tal. e vou contando. porra, tá passando. e vou pegando. não o que quero, mas o que o dinheiro dá pra comprar. não o que o dinheiro dá pra comprar, mas o que estou precisando. não o que estou precisando, mas o que a contabilidade não dá no bolso. resultado: 12 produtos, trinta e cinco reais. tiro dois. três. trinta reais. posso? não tenho direito nem de escolher direito o que quero comer? que merda é essa?

rodo número 04: agora

sentimento de frustração. salário de merda, vida corrida, ânsia da luta e vários contra. vários bola fora. eu penso: quando o bicho pegar, não me chame. também estou sozinho. ou assim me sinto. ou assim estou. persistindo. com vários rodos. cotidiano. e tem hora que as pernas fraquejam. tem hora que dá vontade de quebrar. gritar já não basta. tem hora que dá vontade de correr. sabendo ainda que o bicho pega. não tem jeito. sento a bunda e escrevo. é o único jeito de passar o pano. aliviar os plano. nessa vidinha de merda que a gente não querendo leva. nesse rodo quase insano. cotidiano. que vamos levando.

o barato é mais ou menos assim...

3 comentários:

madoka disse...

Ao ler o seu texto, me lembrei de um poema.
Sempre é melhor
saber
que não saber.

sempre é melhor
sofrer
que não sofrer.

sempre é melhor
desfazer
que tecer
(Orides Fontela)
É bonito , é simples e triste né?
As vezes só a poesia pra salvar a gente. Força aí.
Abs
madoka

Suburbano Convicto disse...

Caraio Ciriaco, essa sua escola também é foda !!! Fiquei revoltado com o que aconteceu com o seu material.........republiquei esse texto, não sei se ajuda.
www.literaturaperiferica.blogspot.com

flacmk disse...

Olá Rodrigo! Adoro teu trabalho! Sou professora de língua portuguesa aqui no RS. Eu acabo de criar um blog pra mim mas estou recém aprendendo ausar. Tou mandando essa mensagem pra que você confira lá ...
Rabisco meus contos...nada como você é claro. Também a intenção do blog é diferente...mas espero que goste.
http://hangingselves.blogspot.com/