sábado, janeiro 27, 2007

Carta enviada à Folha de São Paulo ONTEM: para Leitores e Editores

São Paulo, 26 de janeiro de 2007


Caros Editores da Folha de São Paulo,
Caro Jornalista Evandro Spinelli,

Assunto: Protesto na Sé e representatividade.


Estando presente e acompanhando o Ato realizado no dia de ontem, 25 de janeiro de 2007, na Praça da Sé, após a Missa e durante outros eventos referentes ao Aniversário da Cidade de São Paulo, não posso deixar de manifestar a minha indignação perante a matéria publicada no dia de hoje (26 de Janeiro de 2007), “Alvo de Protestos, Kassab enfrenta Manifestantes”.
(http://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2601200713.htm)

De todos os fatos relacionados ao Ato, o caríssimo jornalista se prontificou a destacar uma suposta “bravura” (“Kassab enfrenta manifestantes) de nosso excelentíssimo Prefeito Gilberto Kassab, ou ainda o detalhe, de alguns “autores” do ato, utilizarem “broches do PT”, reduzindo uma questão tão séria quanto a discussão de Projetos de Políticas Públicas para a cidade de São Paulo a uma “briga” entre Petistas x Tucanos/Pefelistas.

Pois bem, eu fui um dos autores do Ato. Eu fui um dos manifestantes presentes. Eu não pertenço a nenhum Partido Político. Eu não preciso de representantes, eu me autorepresento. Eu não preciso de pessoas para me dizer o porquê de ficar indignado ao ver homens e mulheres sobrevivendo nas ruas, enquanto a prefeitura não cumpre a lei municipal 12.316/97 (que versa sobre o atendimento a esta população) e tem a preocupação de limpar e reformar espaços públicos da cidade, expulsando as pessoas com a força da GCM e apoio da Limpurb, tratando-as como lixo e não como seres humanos. Eu não preciso de representantes para expressar a minha opinião de que a prefeitura não possui uma política habitacional para a população de baixa renda da cidade, e que prefere despejar na rua centenas de famílias pobres, sem direcionar nenhum atendimento digno e adequado garantidos em lei, do que atendê-las através da expropriação de imóveis abandonados (e com exorbitantes dívidas) no centro da cidade e transformando-os em moradias populares. Eu não preciso de um partido para dizer a minha opinião sobre a política da prefeitura em relação aos trabalhadores catadores de materiais recicláveis. Eu não preciso. Eu simplesmente digo!

Além disso, o jornalista Evandro Spinelli deveria ter dado espaço em sua matéria sobre a truculência da PM (Polícia Militar) e da GCM (Guarda Civil Metropolitana) que, por diversas vezes, interferiam para tentar impedir o ato, alegando a defesa da “Ordem Pública”, em contraponto a um direito Constitucional que é a livre manifestação e a liberdade de Expressão. Evandro Spinelli deveria ter noticiado a provocação da GCM e da PM que empurrou manifestantes, tentou arrancar faixas e, em certos momentos abusou e agrediu (sem gravidades) algumas pessoas presentes ao Ato (ou isso não é notícia?). Isso deveria ter sido noticiado no Jornal, na Mídia Impressa, como foi feito na Mídia Eletrônica, espaço mais restrito.

E corrigindo: Gilberto Kassab não enfrentou os Manifestantes, assim como não inaugurou a sua recém “revitalizada” Praça da Sé. Ele tentou. Corajosamente, diga-se, tentou mas, não conseguiu. Os gritos de “Fora Kassab”, “Queremos Moradia”, as vaias, os apitos, a coragem e as faixas dos presentes, sobrepuseram a pequena figura do prefeito e de seus correligionários, que ficou acuado, numa terrível saia justa ao enfrentar uma população indignada e autorepresentativa, exercendo um direito político da maneira mais simples e eficaz: a via direta.

E que fique claro: aquele foi um Ato Político sim, mas não foi um Ato Partidário. Foi uma atitude política, mas não Petista. Havia membros do referido partido sim, mas eram poucos, bem poucos. Não é necessário ter Partido para se tomar partido. Não é preciso ter uma bandeira para se ir a luta. É preciso ter consciência, coragem e disposição para expor e debater as suas idéias seja com quem for.

Espero que este Jornal cumpra o seu papel, claramente destacado em sua capa, “Um jornal a serviço do Brasil”, mas que seja efetivamente um jornal a serviço dos brasileiros. De todas e todos. Inclusive aqueles que construíram esta cidade, o edifício de sua redação, sua mesa, suas cadeiras e que ontem, estavam respeitosamente manifestando a sua opinião e exercendo o seu Direito.

Atenciosamente,


Rodrigo Ciríaco

2 comentários:

Sacolinha disse...

Isso mesmo Ciríaco, tem que bater de frente com os peixes grandes. Não somos pequenos, somos grande, pelo menos na solidariedade.

Anônimo disse...

Parabéns, Rodrigo.
Excelente texto. Maravilhoso. Vou repassar.

abraços e força sempre,
fernando


ps.mandei fotos da Palestina pro teu gmail semana passada