terça-feira, janeiro 19, 2010

NEM TODO SHOW PEDE BIS - CONTO

Se eu quisé fumá eu fumo, se eu quisé bebe eu bebo, se eu quisé cherá eu chêro. Assim. O nariz é meu, eu enfio onde quisé. Você devia fazê o mesmo, Zé. Povinho. É. Cuidá da sua vida. Vidinha. Mal-pago, mal-comido, mal-casado, mal-amado, mal-querido. Ô, do Mal: qué mêmo falá comigo? Qué me dá exemplo de quê? Fuleragem. Tudo aqui é muito démodé. Passagem. Eu quero mais é mi fudê.

De mim, não agrado. Não ajudo ninguém. Dinheiro eu dou pras putas. Pra todos os outros, empresto. Tá certo. Nem pra minha mãe, acho, eu mais presto. Filho-da-puta. Sim, minha mãe é uma filha-da-puta. Meu pai um canceroso do caralho e meu irmão, meu irmão eu vô matá. Se bobeá, eu trombá, mato. Rasgo o bucho, cuspo na cara, deixo sangrando o bicho no escuro e parto. A cara em dois. Pra ninguém mais eu deixo barato. Cê acha, veio perguntá se eu preciso de ajuda? Quem não precisa de ajuda? Eu falei: -“Qué me ajudá, me arruma dez, vinte, cinqüenta. cem conto por dia, por semana.” Até por mês, eu aceitava. Me dá dinheiro. Qué me ajudá, me dá dinheiro. Mas não, falaram em porra de psicólogo, internação, até em igreja, pastor e pá. Desintoxicação. Vão pra puta-que-pariu. Não tô lôco, num sô nóia. Reabilitação. Se vié com essas idéia de novo, quebro todos eles. Todos eles.

Agora deixa eu dá uma aliviada na pressão que só de pensá nessas parada eu já fico nervoso, Jão. Tendeu? Já te dou um toque pra você também, qué trocá uma idéia nem me venha com esse nhem-nhem-nhem, dá licença. Dá licenç`aqui, vô pegá outro pino. Otro do branco, otro do franco, ouro fino. É. Faz cabana, faz cabana: vô dá só mais um tiro.

Aaaahhhh...

De novo! De novo? Iiiihhh... agora até você vem me enchê o saco também, com essa parade de “dinovo, dinovo”. Vô te dizê. Cuida da sua vida, oquêi? Cuida da sua vida, cuida da sua vida! Te pidi dinheiro? Te pidi ajuda? Pidi pra você sentá do meu lado, aqui, nessa sarjeta imunda? Não! Então fica na sua. Quê essa é a minha. Quero, posso e vô: chupá até o osso. A vida não é minha? Posso? Sugá dessa vida besta toda a minha ira? Rá!

Te conto. Cê ainda é moleque-novo, num deve sabê: essa vida não presta. Só tem gente fudida nesse mundo. É tudo uma merda. Esse ainda é meu conforto. Quanto mais a lama atola até o meu pescoço eu descubro: não tô sozinho. É... E nem tô te metendo o lôco. Vivê é foda, bicho. Morrê é fácil. Mas eu prefiro assim, aos poucos. Não, não trago nenhuma mensagem, comigo. Nenhuma filosofia. Tô desabando assim a falá contigo só porque cê me desatô a ouvi. Sentô sua bunda gorda com uns papo não sei de quê e não qué mais sai. Firmeza, eu também preciso me abri. Vezemquando a gente precisa. Mas óh, se tu não gostá do meu versá, pode se levantá e fica de saída. Já disse, não ligo. Pra mim, o que importa agora é só a estilingada do hino. Piiiiiiiiiiiim. Estralando nas idéias. Fazendo eu esquecê de mim, e de toda essa platéia. Bando de transeunte que fingê o meu não-existi. “Aí, o que é de vocês também tá guardado.” E não é palpite. Não adianta querê fica só na Geral esperando eu caí. Eu vou. Mas vô de zóio grande, vendo alguns ir junto comigo.

Já foi, já queimei. Tudo. Conta, casa, televisão, roupa, tennis zerado. Carro, poupança e salário. Foi tudo indo. Mas te digo: não sô viciado. Não sô viciado, não. Quando quisé eu paro. Paro. Não acredita? Minha família também não, mas eu digo: quando quisé eu paro com a fita. Hoje em dia só faço por opção. Pra deixá uma pá de gente com culpa, remorso no coração. É. Cansei dessa merda, tendeu? Pagá de gatão. Eu não tô mais nem aí. Se caí, do chão eu não passo. Aliás, já to aqui. Então, vâmo pro arregaço. A vida é isso, mano. Cada dia, um novo engano. Eu vô continuar mentindo pra mim, pra quê? Trabalhá, suá, ralá, se matá, pagá, e pá, pra quê? Diz: o que é que esse mundo tem pra oferecê? Hum?

Tô sabendo. Nada. E qualqué muito ainda é pouco. Qualqué muito, é só isso. Nada. Prefiro a minha parada, então: a cabeça pra baixo, a fungada tinindo. A poeira baixando, o pó subindo e pum. Eu de novo na minha viagem. Na vaibe, só curtindo. O vento na cara, as estrelas no céu. Meu corpo vibrando, o sangue pulsando, a mente agindo. Me sinto o próprio Super-Homem, Jão. Poderoso. Nunca do cavalo caindo. E tudo fica até mais bacana, mais bonito. A única coisa que é foda é que é caminho de via única. Não tem mão-de-volta. Nem devolução de passagem. Mas fica limpo eu não fico. Nunca mais. Fica limpo é duro, sofrimento à toa. Bobagem. E do lado de cá, te aviso. Cuidado. Nem tudo são rosas. É. Elas sempre vem acompanhada dos espinhos. Te digo: o barato é lôco, o processo é lento e o advogado tá preso. Ele. Eu ainda não. Essa é minha vantagem. Mas como eu tava dizendo: se acha que não tá preparado pra viagem, aviso: é melhó ficá esperto onde vai enfiá o seu nariz. Nem todo show pede bis. Alguns deveria ter um ato único. E ficar tudo azul, nem branco, nem escuro. E ficar tudo assim: tudo certo.

2 comentários:

danilo disse...

u bang é loko memo... é foda, tenho varios entes queridos que viraram escravo do vicio...o dificil de lida com essa situação, e que para a maioria tá suave, " na hora ki eu quiser para eu paro", mas sabemos bem que ñ é assim. infelizmente ñ temos um trabalho institucional de intoxicação... cabendo essa responsabilidade as igrejas... e o vicio é algo que sempre estara presente mesmo ñ usando o ex-viciado e temi a recaída... num posso ajuda nesse final, pois pra mi é incógnita, pois acredito na recuperação mas qualqr momento podi vi a recaída....

o texto é tocante... loko memo.. parabens.

Glauber Feitosa disse...

Cara gostei muito!! acabei pegando essa foto. se tiver algum problema me avisa que eu posso tirar.
ok :)