quinta-feira, julho 12, 2007

tudo pela DINHA!

caríssimos e caríssimas leitores e leitoras deste blog,
foi me concedido o privilégio de apresentar para vocês uma entrevista exclusiva com uma das maiores poetas da nova geração de escritores - vale dizer não apenas da literatura periférica -, a Dinha.
não fui eu quem realizou a entrevista mas, a mesma foi feita a partir de uma matéria publicada no JT sobre a Coleção Literatura Periférica, da Editora Global, na qual já foi lançado o livro do Sérgio Vaz (Colecionador de Pedras) e será publicado ainda outros autores: Sacolinha, Alessandro Buzo, Allan da Rosa e, por fim, a Dinha. como na entrevista não foi aproveitado muito bem todas as perguntas, a Dinha perguntou se eu tinha interesse em publicá-la, na integra, aqui neste modesto espaço. é claro que sim amiga, e com prazer. afinal, como diz o Vaz: -"É tudo nosso."
vou aproveitar que estarei fora de sampa por uns dias e deixarei-a no ar. leia (e releia!) com moderação e reflexão. vale a pena:


1- Na sua opinião, qual a importância desta coleção da editora Global para a literatura brasileira?
A coleção apresenta um universo que, apesar de não ser estreante no cenário da literatura, é apresentado de forma sistemática, representativa, na medida do possível, de diversos gêneros literários produzidos nas periferias.
Mas mais importante é que os leitores e leitoras terão a possibilidade de nos conhecer, rsrsrsr. Lógico. Porque o que vai nos conferir importância não é a coleção em si, mas a nossa sobrevivência, o fato de as pessoas nos lerem, ou não, depois que ser preto/a e pobre deixar de ser moda. A coleção possibilitará o acesso das pessoas aos textos produzidos pelas periferias.


2- E qual a importância desta coleção para as periferias brasileiras?
Depende. Se as pessoas tiverem acesso, poderá ser tão importante quanto o Hip Hop. As pessoas gostam de se verem representadas, de preferência, sem estereótipos, de forma realista ou não, mas respeitosa sempre. (Porque somos nós que estamos produzindo e eu, pelo menos, costumo me respeitar. Sei – porque sinto na pele – que somos a mesma pessoa: eu, minha família, meus vizinhos. Se um morre ou passa fome ou outro aperreio. Também sou eu quem estou morrendo, passando fome e todo o resto.)


3- Qual a importância desta coleção para vocês, escritores marginais?
A principal é a oportunidade de ser lido por outros públicos – periféricos ou não.
Escrevo pra todo mundo. Faço questão de que todo mundo leia. Fico feliz quando uma moradora de rua (mais marginal que eu) lê e gosta dos meus poemas. Mas também fico satisfeita quando pessoas de outras classes e culturas lêem e gostam.


4- Prefere o termo literatura periférica ou literatura marginal? Existe diferença entre eles?
As palavras têm muito peso. Elas criam. Por isso discutimos as nomenclaturas. Mas, a princípio, é apenas uma questão de nome. Os ditos "marginais" e os ditos "periféricos" são hoje as mesmas pessoas. A diferença fundamental, pra mim, é que "marginal" até Caetano foi (uma amiga me lembrou isto uma vez). Periféricos ou, "de periferia", tem a ver com um contexto atual, difícil de confundir, por isso prefiro este último.


5- Considera que o adjetivo, tanto periférica como marginal, é usado de forma pejorativa, de modo a excluir vocês do time "oficial" de escritores?
A periferia é um mundo inteiro e tudo o que tem a ver com pobreza costuma ser tratado de forma pejorativa. Eu não me esforço pra parecer pobre. Sou pobre. Não tenho intenções de parecer e nem de ficar mais rica. Não admiro a outra classe. Se eu entrar pro tal time e não for lida pela minha mãe, filha, esposo, amigos, etc, de nada me serve a oficialidade.
Digo isso porque cultura oficial, geralmente quer dizer cultura de elite, de quem tem poder aquisitivo. Essas pessoas, ou nos tratam como folclore, ou tendem a diminuir nossa produção cultural. Diante disso, a reação natural é reforçar que somos o que somos. Depois que estivermos bem firmes, deixaremos de desperdiçar energia com quem não vale o esforço e nos dedicaremos completamente à gente da gente.


6- A periferia lê a literatura feita na periferia?
Além dos livros publicados de forma independente, à revelia das grandes editoras e dos raros incentivos governamentais, existe ainda nas periferias diversos movimentos de acesso à leitura e formação de leitores e leitoras: são bibliotecas comunitárias, produção e circulação de fanzines, jornais de bairro, saraus literários e projetos independentes de oficinas literárias que possibilitam acesso à leitura sem que a gente deixe de comprar arroz e feijão.
Significa dizer que a parte leitora da periferia, também lê seus próprios autores.


7- Os moradores da periferia terão acesso à coleção da Global?
Lógico. Se não, pra quê publicar? Se não, pra quê servem as bibliotecas, saraus e tudo o mais que respondi na pergunta anterior?


8- O que significa uma grande editora lançar uma coleção de literatura marginal?

Significa que estamos sendo valorizados como autores/as, independentemente dos rótulos que se coloque. Mas significa também que estamos virando mercadoria vendável e que, portanto, corremos sério risco de virar escritores e escritoras rotineiras, de transformar nosso cotidiano, nosso mundo (com suas maravilhas e misérias) em material de consumo para outras classes – aquelas que não têm coragem de entrar numa favela, mas se delicia com esse contato "seguro".
Significa que a luz amarela do farol está acesa.


9 - Você considera que tudo que vem da periferia ,ou é feito para e sobre a periferia, é positivo?
Nem o que vem da periferia e nem o que é alheio a ela são simplesmente positivos ou negativos. O Movimento Hip Hop, por exemplo, vem narrando, oralmente, através do Rap, várias nuances da perifeira. Isso é bastante positivo pra mim que nunca havia lido/visto/ouvido minha história, da minha família e dos meus vizinhos, a não ser a partir de olhares de fora, estrangeiros. Entretanto, o Movimento é mesmo machista e sexista , assim como a grande maioria das pessoas da nossa sociedade também o são. Isso não tira sua importância.


10 - Quais são os planos futuros?
Estudar. De preferência não trabalhar fora. Só para minha casa, família e comunidade. Cuidar das minhas filhas (a que é grande e a que está por nascer). Produzir e distribuir muitos fanzines (de graça, que é a melhor parte), participar de muitos saraus. Escrever muito. Até ano que vem, publicar o outro livro - "Morrer, só se morre uma vez?" – para o qual estou juntando munição.


11- Qual a maior contribuição dos saraus da Cooperifa ?
Reunir, compartilhar, multiplicar e produzir talentos entre nós, por nós.


1 2 - Como se tornou escritora?
Lia até pedaços de jornal velho – porque não tinha livros em casa. Depois comecei a escrever um diário, com uns 12 anos, mais ou menos. Como eu não tinha chave, percebi que as palavras poderiam dizer sem dizer. Comecei a usar metáforas como chave de palavras. Daí pra escrever poesia foi questão de tempo e muito segredo escrito. Depois senti vontade de mostrar. As pessoas gostaram e eu passei a produzir fanzines literários, com meus próprios textos. Faço isso até hoje. Me tornei escritora quando as pessoas passaram a ler meus trabalhos, multiplicar e pedir mais.


13 - Quais os autores te influenciam ou influenciaram ?
Li bastante Drummond, João Cabral de Melo Neto, Murilo Mendes, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Agora leio Cadernos Negros e autores de Angola e Moçambique ( que são coisas que eu estudo). Leio muito também os autores periféricos, ou que freqüentam o sarau da Cooperifa. Trocamos influências mútuas. Me influenciam também alguns rappers como GOG e o grupo Clã Nordestino. Me traduzem.


14- Se tiver alguma coisa que vc queira comentar...se puder também, conte o que anda fazendo.
Bom... acabei de casar, estou grávida de 6 meses, cursando mestrado na USP, na área de Literatura Comparada. Trabalho como educadora em uma ONG da cidade e sou responsável, entre outros, pela parte de saraus no Núcleo Cultural Poder e Revolução. Quero reforçar que apesar de escrever PARA todas as pessoas, escrevo, principalmente, POR mim. E eu sou mais que eu mesma. Sou meus irmãos, minha comunidade. Fico feliz que conheçam e admirem nossa história, nossa sensibilidade. Mas isso não significa que vou aliviar o lado de ninguém, nem me encantar a ponto de deixar de ser quem eu sou. Não quero enriquecer, sair da periferia e continuar a escrever sobre ela, de fora, como todo mundo que não é da periferia faz. Primeiro porque não tenho esse desejo, como disse, não admiro a outra classe. Não quero morar no Paraíso, Vila Madalena ou Morumbi, nem comer um pedaço de pizza que custe R$4,50, nem ter carro do ano, ou as outras coisas mais que desconheço. Quero mais é que as feridas se abram e o povo tome, à força se for preciso, o que é nosso por direito.
Se eu fizer o contrário do que estou dizendo, me desconsiderem.
Como diz o amigo, escritor e rapper Dugueto: Quem não tem valor, tem preço.




E pra quem quer conhecer um pouco mais do trabalho da Dinha e do Núcleo Cultural Poder e Revolução, acontece neste sábado, 14/07, a partir das 16hs um SARAU e uma FEIRA DE TROCAS NO MALOCA (Rua Particular, 556 - Pq. Bristol). A Dinha informa que está trocando poemas por roupas de neném, carregador de pilhas por liquidificador ou roupas de grávidas. Outras informações, como chegar: milakizzy@yahoo.com.br ou 9969-1010

2 comentários:

Likhit disse...

Hi! Do you have any current email of Dinha?? Her milakizzy@yahoo.com.br does not work. I am her friend and lost contact a couple of years ago.

Thanks!

Likhit disse...

Can someone write down the current address of Dinha?? Her milakizzy@yahoo.com.br address does not work.

Thanks!