sexta-feira, fevereiro 08, 2008

Tradução de Entrevista: Secretária Estadual de Educação*

REPÓRTER: Oi? Tô no link? Já tô ao vivo?! Ah, Bom dia. São dez e vinte da manhã e estamos aqui ao vivo no Palácio dos Bandeirantes onde acontece coletiva de imprensa oficial com a Secretária Estadual de Educação sobre o novo pacote educativo anunciado pelo governo nesta semana, amplamente divulgado em jornais, redes de rádio, TV e Internet e que já ficou popularmente conhecido como Quarentena. Vamos ouvir...

SECRETÁRIA: ... é um plano de 06 semanas válido para todas as escolas do Estado de São Paulo, que vai do começo das aulas no dia 18 de fevereiro e vai até 01 de abril – e não é mentira - e que vai priorizar as disciplinas Português e Matemática, em todas as áreas e em todos os períodos. É uma intervenção planejada tomada em nível de Governo durante as férias com um pequeno grupo de especialistas para acabar com os pequenos problemas existentes na Educação Pública no Estado de São Paulo.

REPÓRTER: Significa que os alunos só terão, durante quarenta e dois dias, aulas de Português e Matemática?
SECRETÁRIA: Exatamente isso. Dividiremos as matérias em dois blocos. Português, História, Educação Fisíca, Educação Artística e Filosofia trabalharão Português. Matemática, Ciências, Biologia, Física, Química e Geografia trabalharão Matemática.

REPÓRTER: Haverá algum prejuízo para as outras disciplinas por ter que enfocar apenas Português e Matemática neste período?
ECRETÁRIA: De maneira nenhuma. É como eu disse, não enforcaremos Português e Matemática, elas serão nossas prioridades exclusivas.

REPÓRTER: O que você acha do nome de batismo que recebeu o programa, “Quarentena”?
SECRETÁRIA: Um nome horroroso, me lembra Idade Média, privilégios, falta de diálogo, liberdade e exclusão, nada que se refira positivamente à realidade de nossas escolas. Coisa típica de oposição, que não trabalha pelo futuro do país.

REPÓRTER: Há uma preocupação por parte da sociedade de que governo esteja nivelando a qualidade de ensino por baixo. Além disso existe a dúvida se realmente não teremos prejuízo no ano letivo ao deixar disciplinas como História, Ciências, Geografia entre outras simplesmente de lado?
SECRETÁRIA: Não estamos nivelando nem por cima nem por baixo, aliás, aqui em São Paulo, já estamos muito acima do nível do mar, se você não sabe. Além disso, o importante é o aluno saber ler, escrever e fazer contas. Se sair da escola no terceiro ano do ensino médio, só sabendo isso, já me dou por satisfeita.

REPÓRTER: Estão dizendo que o governo incubou a doença nesses 16 anos de mandato, agora está vendendo a cura. O que a senhora acha disso?
SECRETÁRIA: Não vendemos a doença, não vendemos a cura. Também não vendemos fiado, é claro. Nem chamo de milagre um programa que se propõe a acabar com os problemas de uma educação pública capenga a curto prazo, em quarenta e dois dias. Isto é ousadia. Planejamento, competência e ciência.

REPÓRTER: O Sindicato dos professores entende que esta medida do governo, de chegar com a solução pronta, mais do que um desrespeito ao professor, sua autonomia e capacidade de avaliar e intervir sobre a realidade em que se encontra é uma clara afirmação de que eles não sabem trabalhar corretamente. A senhora concorda?
SECRETÁRIA: De maneira nenhuma, os professores tem total autonomia para trabalhar, garantida pela Lei 9394/96, a LDB. Basta fazer tudo aquilo que o governo mandar, através de suas portarias e decretos. Além disso em nenhum momento afirmamos que os professores não sabem trabalhar corretamente, apenas não são competentes.

REPÓRTER: Sobre a questão do número exagerado de Portarias e Decretos emitidos anualmente, pelo governo, isso não é uma forma de inviabilizar as formas de organização democrática das comunidades, escolas? Como a senhora vê as acusações de que a escola é antidemocrática?
SECRETÁRIA: São falácias de quem não conhece a Educação, o Ensino. Por exemplo: os professores foram consultados para a aplicação deste programa? Não. Estamos levando em consideração a reclamação deles de que não respeitamos a diversidade, a pluralidade escolar, no fato de que uma escola do centro não é igual a uma escola da periferia que não é igual a uma escola do interior e que nós estamos aplicando uma solução única? Não. Mas os especialistas foram consultados. Claro, são pessoas que há dez anos não pisam mais numa escola pública, não tem o convívio com as crianças, os jovens mas, foram formados nos melhores colégios particulares de São Paulo e possuem uma vivência acadêmica extraordinária. Eles tem a solução. Eu acredito neles.
Sobre o fato da escola ser antidemocrática, não é porque os alunos não organizam mais o grêmio, não escolhem o coordenador pedagógico e não votam ou opinam pela escolha do diretor que ela não seja democrática, concorda?

REPÓRTER: Como a senhora vê as acusações de funcionários, professores de que é autoritária? A senhora aceita críticas?
SECRETÁRIA: Sim, aceito críticas, desde que não seja contrariada.

REPÓRTER: Acredita que a “Quarentena” será cumprida?
SECRETÁRIA: Com certeza. O plano de recuperação em 06 semanas do governo não é uma proposta, é uma ordem. E missão dada é missão cumprida.


*Texto ficcional. Baseado em fatos absurdamente reais - direto do país da piada pronta.

2 comentários:

Eulália disse...

E a original, onde está? A original às vezes é mais absurda ainda!!!

rodrigo ciríaco disse...

fontes seguras asseguram que a original encontra-se nas mãos dos especialistas.