sexta-feira, abril 01, 2011

XEQUE-MATE!

Xeque.

Por esta semana, estive revendo muitas questões na minha vida. Principalmente ao que se refere ao meu futuro profissional.

Gosto do que faço. Faço por amor, quase que uma devoção. Há poucos prazeres físicos e emocionais tão intensos quanto estar dentro de uma sala de aula, dialogando com jovens e adolescentes. Trocando idéias, histórias, experiências. Aprendendo e conhecendo cada vez mais o significado da palavra vida. Com certeza, adoro o que eu faço.

Gosto muito mais ainda do local que trabalho: a escola pública estadual. Gosto por estar ali por opção política, ideologia, militância. Por acreditar num lugar que muitos preferem ignorar quando mais esquecer: que ali há desejos, possibilidades. Basta apenas insistência e oportunidades.

Xeque.

Mas o que tem afetado – e muito – o meu humor estes dias tem a ver com a questão da valorização do professor. Do respeito a este profissional. E somos muito desrespeitados, todos os dias. Tendo que trabalhar horas intermináveis, sem momentos adequados de descanso. Sem tempo para sentar e estudar, preparar as aulas, propor soluções para problemas que se apresentam. Transformar.

E o que é o professor se ele não consegue transformar o mundo em que ele vive?

E além de tudo isso, algo que tem me pego no estômago é a questão do salário. Da remuneração.

Não, não estou passando fome. Não se trata disso. Mas dificuldades. Conta no banco no vermelho, condomínio atrasado; dívidas acumulando e por aí vai. E tive a doce ilusão de que, nesta semana, receberia uma “bonificação” da Secretaria de Educação pelos serviços prestados. O pagamento do bônus. E daí que fiquei de queixo caído. Não recebi nada.

Fiquei mais revoltado ainda por ver colegas receberem R$ 500,00, R$ 1.000,00, R$ 2.500,00, R$ 4.000,00. Até quase R$ 8.000,00. Na mesma escola. E eu, nada.

Que fique bem claro: não acho que não mereçam. Até porque o Estado paga tão mal, mas tão mal, que se estes valores fossem divididos por 12, que é o número de meses do ano, não daria muita coisa de reajuste, para algumas pessoas. Mas é algo.

E eu, que sou tão professor quanto qualquer outro, trabalho, me ralo, me esforço, como qualquer outro na escola, acredito que, se um tem direito, todos temos.

Mas não é assim que as coisas acontecessem.

O resultado é que fiquei muito desmotivado. Abatido. Mesmo. Revoltado. Não fui trabalhar quarta-feira em protesto. Fui ontem a base de muito esforço. Não fui hoje por não me sentir em condições. Por não achar que vale a pena.

Até porque, estando a flor da pele como estou, com a raiva dentro do peito que eu tenho, estaria descontando muitas vezes nos meus alunos. E eles não tem culpa de nada. Na verdade, são tão vítimas quanto eu. Por estarem submetidos a essa política criminosa e vergonhosa adotada pelo Estado de São Paulo, que não respeita um dos pilares do desenvolvimento de qualquer país: a educação, seus profissionais e beneficiários.

Estou com ojeriza deste Estado. Ódio mortal. Vontade de chutar tudo pro alto e recomeçar. Fazer outra coisa. Pois opções não me faltam. Pode acreditar. No começo deste ano recebi uma proposta para trabalhar em uma escola particular. Ganhar R$ 5.000,00 reais por mês. Não fui. Pois teria que deixar o Estado e o grupo de teatro. Recusei.

E se até hoje suporto o que suporto, permaneço do front da sala de aula, o motivo é o que expus no início. Tenho paixão pelo que faço. E não apenas pelo que faço, por onde eu faço. Pois talvez eu não fosse tão feliz se o fizesse em outro lugar. Mas está cansando. Principalmente quando se vê as contas acumulando, você pagando altos juros pra banco, tendo que pensar duas, três vezes antes de gastar um qualquer. E o Estado te desvalorizando. Rindo na sua cara, qual uma hiena descontrolada. E você sentindo-se impotente. Sem possibilidade de fazer nada

Estou revendo meus conceitos. O que vou fazer. Até porque eu sou uma pessoa simples, não quero acumular riquezas materiais, carros do ano. Não sou fissurado em comprar roupas caras, gastar grana em baladas. Não preciso de muito para viver. Mas quero viver com dignidade. Ter uma casa pra morar. Grana pra me alimentar. Um qualquer, vez em quando pra viajar. E livros. Possibilidade de poder comprar meu livros.

Pois sem esse mínimo eu não existo. Não de uma maneira saudável e feliz. E estou cansado de ser esculachado por um Governo que não valoriza o que faço. Não traz reconhecimento.

E sabe: não sou o único que tem esse sentimento.

Xeque-mate!

Um comentário:

Ligiane disse...

O que parece que ninguém vê é que antes de qualquer bônus é necessário um salário digno e condições para desempenhar o papel fundamental de um educador: transformar. O que me faz acreditar em mudanças é que ainda existe muita gente boa como você, que faz as coisas por paixão e consegue continuar, ainda que seja difícil.