terça-feira, agosto 16, 2011

SOBRE "UMA DUAS", DE ELIANE BRUM



Eu não sei bem quando comecei. Um ou dois capítulos há uma duas, três semanas. Talvez pouco mais de um mês. E o livro ficou ali, guardado, junto aos outros vários que compro e esperam para eu ler. A lista é grande. A indecisão também.

Eu sabia apenas que era um livro forte. Visceral. Assim eu senti no primeiro capítulo. Na primeira pegada. E todo bom livro, acredito, já mostra a que veio de cara. Não faz muita firula. Até porque senão não encanta. Não dá jogo, não da bola. Ao menos pra mim.

E neste final de semana de estruturas abaladas, onde diques se romperam e correntezas seguiram seu rumo apesar do meu "não" no meio do caminho, eu me deparei com ele. Na verdade, na segunda-feira. Antes de sair de casa. De pegar um ônibus para ir ao teatro. Eu não consigo mais pegar ônibus sem ter um livro. E como eu disse, eu precisava de algo forte. No estômago. Se possível, que me virasse pelo avesso de mim. E achei.

Seu nome: "Uma Duas". Sua autora, Eliane Brum.

Não quero falar do livro. Não quero falar da história da mãe-e-filha que não sabem onde começam uma e terminam a outra. Não quero falar da dor da existência que o livro passa. Não quero falar do horror que é essa coisa vida que a gente finge que é linda apesar de ficar se fudendo pra vivê-la. Não quero falar disso. Pois o livro fala muito disso. E fala bem. E diz com palavras que eu não sei dizer.

Mas gostaria.

Quero dizer sim, que o livro ontem me penetrou. E de uma tal maneira que eu não consegui fazer outra coisa até terminá-lo. Meu único gesto de hoje foi sair de casa para doar sangue. Porque talvez eu precisasse renovar as minhas energias. Porque eu precisasse me doar para receber ajuda. Porque eu queria ver o que há dentro de mim.

E ele é rubro. Negro. E vermelho. Pulsa. E está vivo. Como um sorriso. Sobre a pele.

Mas voltando: acho que o mais importante é que eu fui doar sangue e não fui trabalhar e por não ir trabalhar eu fiquei lendo o livro apesar do tanto que tenho pra fazer: arrumar o carro, limpar a casa, responder emails, preparar minha aula, transcrever um texto, escrever projeto, preparar o almoço, ir ao mercado e, eu não consegui fazer nada. Eu não conseguia fazer nada. E eu não entendia. Não entendia. Entendi agora: eu precisava acabar de ler este livro.

Tudo isso pra dizer que o livro é muito bom. E que você deveria ler. E que ninguém sai impune depois de sua leitura.

E se sai, deveria começar a ler de novo. A si próprio, em primeiro lugar. Pois algo de muito normal e banal e cotidiano deve ter dentro de si. E isso não é bom. Pra ninguém.

Parabéns, Eliane. Quando crescer, quero escrever igual a você.

R.C.

4 comentários:

Jéssica Balbino disse...

E tô louca pra ler o livro. E depois de ler seus contos e depois de ler esse comentário e depois de tudo que tem acontecido comigo, se eu não começar algo forte e visceral ainda hoje, talvez não chegue até amanhã. E vou parar por aqui e correr até a livraria, apesar de toda minha dor causada pela pneumonia e tentar comprar este livro. Sou tua fã, assim como sou fã da Eliane Brum.
Vida longa a quem consegue, com as palavras, mudar as almas !

esther disse...

então que adio a urgência desse livro desde q soube dele. adio, adio, adio. agora não mais, pq estarei em boa companhia no lugar pra onde ele vai me levar. obrigada, Brum, e pelo efeito colateral. ester
www.emaju.wordpress.com

Samis disse...

eu já tinha vontade de ler este livro pela temática e pela capa (apesar de tantos dizerem que não servir pra jugar, pra mim serve)

depois deste post emocionado e emocionante - adoro escritas que vêm antes da gente conseguir pensar nelas- e dado o momento atual de minha vidinha, creio que ele será o meu próximo livro. Já comecei uns 5 e não consegui terminá-los... acho q esse vai.

Valeu a dica R.C.

V. Linné disse...

Que droga. Estou no meio da Jornada Literária de Passo Fundo, ouvi a Eliane falar sobre o livro ontem e estou desde então tentando a comprá-lo. O problema é que já gastei demais por aqui e estou fodido de grana. A merda maior é que depois de ler o que você escreveu, não tenho outra solução senão ir lá de uma vez e torrar o que me sobrou de dinheiro.